Filosofia / Dezembro 2002

há doentes ... e doentes!

Permitam-me que vos descreva duas cenas que presenciei, espaçadas de vários anos. A primeira, aconteceu numa movimentada avenida de Lisboa. Enquanto aguardava a chegada dum transporte colectivo, entretive-me a observar o desempenho de dois elementos do Departamento de Higiene e Limpeza Municipal (será assim que se chama?).
Enquanto desenvolviam o seu meritório trabalho, procurando aliviar a cidade do lixo existente, trocavam algumas ideias entre si. A certa altura, um deles refere ao outro que tinha estado bastante doente, na semana anterior, enumerando os sintomas e demais incómodos que tinha sentido. Depois de clara, sistemática e exaustiva descrição (não convinha que o colega perdesse qualquer pitada de tão significativa informação!), rematou o assunto com uma conclusão verdadeiramente genial:
– Agora que me sinto muito melhor vou meter “baixa”!!!
A segunda cena passou-se há poucas semanas atrás, para os lados onde moro, e envolveu duas senhoras que se encontraram em plena rua, e que trocavam dois dedos de conversa.
Em determinado momento, uma contou à outra que, no dia anterior, tinha estado “bastante mal da cabeça”, com um rol imenso de perturbações, que certamente teriam infernizado a vida de qualquer pessoa. Em jeito de solidariedade e de empatia, a segunda protagonista disse que se tinha sentido exactamente como a primeira tinha descrito.
Pensei eu que era um gesto bonito, afinal a outra não era a única a sofrer daqueles males, e mesmo que isso não a curasse, pelo menos poderia sentir que o sofrimento dos outros talvez pudesse transformar-se num bálsamo para as suas mazelas. Mas, qual não é o meu espanto, quando a primeira, com um perceptível esgar de irritação na voz, declara que os males dela já haviam começado primeiro, não no tal dia referido, mas sim na véspera, o que permitia concluir que era, portanto, a “mais doente” das duas.
Não pude deixar de recordar uma doente que tive, que, em plena sala de espera, e sempre que ia à consulta, tinha que vincar muito bem, perante todos os presentes, que ela era a pessoa mais doente que ali estava. E quando os argumentos escasseavam, puxava do seu trunfo principal:
– Sou a doente que tem o processo mais volumoso do ficheiro do Doutor!
Qualquer das perspectivas de encarar a doença, subjacentes a estes casos, representam uma profunda distorção. Por um lado a doença é apenas um pretexto para gozar umas folgas suplementares. Serve apenas para dar cobertura legal à pouca vontade de cumprir com as suas responsabilidades. No outro caso, é assumida como um factor de promoção, concedendo “estatuto” tanto mais significativo quanto “maior”, mais complicada e rara for a patologia.
Calculo que, para estas pessoas, a doença seja um desejo, uma ambição, um sonho a concretizar. Como diz um distinto colega, meu amigo, “um luxo que deve ser exibido”.
Acreditam que alguma vez essas pessoas vão apresentar melhoras?
Pensam que haverá algum tratamento, por mais avançado e científico que possa ser, que sirva para aliviar os seus males ?
Somos realmente um país em que a saúde está doente. Não há milagre possível enquanto muitos não mudarem a forma como encaram a doença.
Para alguns não se aplica o aforismo “prevenir é melhor que remediar” e por mais campanhas de educação para a saúde que se façam, os resultados serão sempre muito limitados.
Para eles não há estilo de vida saudável que lhes interesse.
E PARA SI ?

Daniel Esteves - Médico, Lisboa

 

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