álcool e condução - Um problema grave de saúde em portugal
Os acidentes de viação constituem, na União Europeia (UE), um grave problema
de saúde pública, tendo sido responsáveis em 1998 por cerca de 43 000 mortos e
150 000 deficientes. Nos países industrializados são já a oitava causa de morte
e, em Portugal, a sétima (1999). Portugal é o país da UE com a taxa mais elevada
de mortalidade rodoviária.1 Numa perspectiva mundial, o número de mortos por
acidente de viação é mais elevado do que o tumor maligno mais frequente (cancro
do pulmão).
É hoje consensual e nesse sentido o consagra também a Organização Mundial de
Saúde (OMS), ser o alcoolismo um dos principais e dos mais graves problemas de
saúde que a Europa enfrenta. Estima-se que um quarto das mortes dos europeus do
sexo masculino do grupo etário dos 15-29 anos são atribuíveis aos efeitos
adversos da ingestão excessiva de álcool. Nalguns países da Europa de Leste,
aquele número chega a atingir um terço. Pelo contrário, a percentagem mundial de
jovens dos 15-29 anos que morrem por causa do álcool é de 5%. Na região Europeia
da OMS, em 1999, 55 000 jovens faleceram por causas relacionadas com o álcool.2
Nesta região, os produtos alcoólicos são responsáveis por 9% dos problemas de
saúde e 40-60% dos óbitos por causa externa (em que se ignora se foram
acidentais ou intencionalmente infligidas) estão relacionadas com o consumo
excessivo de álcool.
Em Portugal, os acidentes de viação são a principal causa de morte em crianças,
adolescentes e adultos jovens com idades compreendidas entre 1-25 anos. A
mortalidade dos jovens do sexo masculino é três vezes mais elevada do que a do
sexo feminino, em grande parte devido a acidentes. A taxa de mortalidade
infantil (até aos 14 anos) é a mais elevada da UE sendo o dobro da Grécia, que
tem a segunda taxa mais elevada e o quádruplo da Suécia, respectivamente 8,03,
4,64 e 2,32/105. Em 1999, 78% (2804/3595) dos mortos dos 15-34 anos foram
indivíduos do sexo masculino. Esta ocorrência é apontada como um dos aspectos
mais negativos no que concerne a situação de saúde, em Portugal, de acordo com
um relatório da OMS.3
A condução sob o efeito do álcool é uma verdadeira epidemia. De uma forma geral,
na UE, a média de indivíduos que conduzem com Taxa de Álcool no Sangue (TAS)
acima dos limites legais ronda os 3%, enquanto esta percentagem se eleva para
25% quando se considera os condutores envolvidos em acidentes de viação fatais.
Três por cento de condutores em Portugal, por dia, equivalem aproximadamente a
90 000 condutores com excesso de álcool no sangue.
Em Portugal, a dimensão do problema é ainda maior dado que, actuando de modo
sinérgico, se juntam duas características muito próprias dos portugueses:
1. Deterem a taxa mais elevada de mortes por acidentes de viação da União
Europeia e uma das mais elevadas dos países industrializados, com a média anual
nos últimos 5 anos de aproximadamente 2000 mortos; Portugal tem também uma das
taxas mais elevadas do Mundo, considerando o número de mortos por milhões de
quilómetros percorridos (dos países que apresentam estatísticas): está nos 15
primeiros atrás de países como o Egipto, Sri Lanka, Iémen, Albânia, Equador,
México.4
2. Deterem um dos mais elevados consumos mundiais de álcool, per capita. O
maior, segundo um trabalho efectuado, em 1997, pela Association Nationale de
Prévention de L’Alcoolisme (França),5 o quarto em 2000 de acordo com a
publicação World Drink Trends de 2002, imediatamente a seguir ao Luxemburgo,
Irlanda e Roménia, com um consumo anual per capita de 10,8 litros. Estima-se que
em Portugal existam cerca de um milhão de bebedores excessivos e, pelo menos,
quinhentos a setecentos mil doentes alcoólicos. Cada português, em 2000, ingeriu
em média 120 litros de bebidas alcoólicas (64,3 litros de cerveja, 51,7 litros
de vinho, 4 litros de bebidas destiladas).
Num texto introdutório de uma Resolução do Conselho de Ministros sobre o “Plano
de Acção contra o Alcoolismo” é assumido de forma textual que “O alcoolismo é a
maior toxicodependência dos Portugueses”.6
Toda a problemática envolvendo o alcoolismo é também uma das principais
preocupações da Direcção-Geral da Saúde, que considera que “as situações de
saúde associadas ao alcoolismo, (...) têm também um peso considerável na saúde
dos portugueses”.7
O consumo de vinho está de tal modo arreigado na população portuguesa que, em
1980, se consumia mais vinho (96,5 litros) do que leite (71,8 litros), per
capita, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Além do mais, a
mortalidade por cirrose hepática é a segunda mais elevada da UE. No entanto,
verifica-se a tendência decrescente do consumo de vinho, o que não é um fenómeno
novo já que se tem vindo a reduzir paulatinamente desde há 40 anos, sendo em
1961 de 100 litros per capita. Esta tendência é verificada também nos países
produtores da orla mediterrânica como é o caso da Espanha, França e Itália.
A importância cultural e social do consumo de álcool não pode ser ignorada.
Contudo, a OMS, baseada em diversos estudos científicos, no que diz respeito à
eventual protecção cardiovascular conferida pela ingestão de álcool, não aceita
que o seu consumo seja promovido, concluindo (já em 1984) que “Increased alcohol
intake is not recommended as a preventive measure in coronary heart disease,
either in populations or individuals – WHO Expert Committee on the Prevention of
Coronary Heart Disease” (Não se recomenda o aumento do consumo de álcool como
uma medida preventiva para a doença coronária cardíaca, quer nas populações ou
nos indivíduos).8
O risco de morrer numa estrada em Portugal é 4 vezes superior à dos países com
taxas de mortalidade mais baixas. Por exemplo, a região do Alentejo tem a taxa
de mortalidade mais elevada de duas centenas de regiões dos quinze
Estados-Membros da UE, com 406 mortos por milhão de habitantes (Eurostat, 1998).
De forma semelhante, o risco de um condutor do sexo masculino de 15-24 anos
morrer na estrada na região do Algarve (1050/106) é 40 vezes superior ao mesmo
risco global para a generalidade do cidadão alemão em Berlim/
Hamburgo (25/106). O automóvel e os motociclos são também a principal causa de
morte dos jovens europeus com 15-24 anos: 4 em cada 10 jovens desta idade que
perdem a vida na UE morre por acidente de viação. Na UE, para os indivíduos do
sexo masculino dos 15-44 anos, o consumo excessivo de álcool e os acidentes de
viação são as duas principais causas de “anos de vida ajustados pelas
incapacidades” (Disability Adjusted Life Years - DALYs).9 Calcula-se que um em
cada 80 europeus irá morrer de acidente de viação.
Portugal tem a taxa de mortalidade global mais elevada da UE nos jovens do sexo
masculino dos 15-24 anos (159/105), em parte devido aos acidentes rodoviários,
(Holanda 61/105, Suécia 56/105). Portugal e a Grécia foram os únicos países em
que, neste grupo etário, se assistiu ao aumento do número de mortos ao longo dos
últimos dez anos, ao invés da tendência decrescente dos restantes países.
Em Portugal, na última década, morreram na estrada aproximadamente 23 500
indivíduos (20 219 adicionados a 14% dos feridos graves que vêm a falecer,
segundo o factor de correcção sugerido pelo Eurostat) e ficaram feridos cerca de
660 000. Com sida, no mesmo período, morreram 3919... A morte por acidente na
estrada tem um enorme impacto na juventude portuguesa, já que afecta indivíduos
muito jovens, visto que 40-45% têm menos de 35 anos. No grupo etário dos 15-34
anos, nos últimos 10 anos (1990-1999), faleceram 10 614 jovens. Dos 15 aos 24
anos, os acidentes de viação são responsáveis pelo menos por um terço do total
de mortos (343 em 1999, seguida pelos tumores malignos em segundo com 79 casos e
a sida com 75), sendo a principal causa de mortalidade nesta idade.
Bibliografia:
1. Theis F, Bautier P, Simes A. Eurostat, Statistics in Focus, Transport –
03/2000, “Transport safety”. Eurostat Press Office, Luxembourg, 2000
2. WHO Regional Office for Europe. Copenhagen, Denmark. Press Release Euro 2/01,
2001.
3. Highlights on health in Portugal. WHO Regional Office for Europe, European
Comission, 1997.
4. Association for Safe International Road Travel.
5. BBC news, Portugal tops world drinking league:
http://news.bbc.co.uk/hi/english/health/newsid_564000/564472.stm, 14th Dec 1999.
6. Plano de Acção contra o Alcoolismo. Resolução do Conselho de Ministros.
Diário da República-I série-B, nº 276 de 29 de Novembro de 2000, pp. 6837-41.
7. A saúde dos portugueses. Direcção-Geral da Saúde, 1997.
8. Marmot M. Alcohol and coronary heart disease. Intern J Epidemiol
1984;13:160-7.
9. Health Determinants in the E.U. Proceedings of a European Conference, Évora,
Portugal, 15-16 de Março de 2000.
Rui Tato Marinho, Gastroenterologista do Hospital Santa Maria com o grau de consultor. Prof. auxiliar da faculdade de Medicina de Lisboa.