Actualidade / Novembro 2002

UMA EVOLUçÃO AINDA POR FAZER


A espécie humana, ao contrário de outras espécies, ritualizou a morte, construindo uma série de representações sociais para gerir e superar o seu traumatismo.
Nos dias que correm chegou-se no entanto a um beco sem saída: por um lado se o paradigma evolucionista se revelasse cumpridor da missão de explicar a origem da humanidade, então teria já conseguido conciliar a espécie humana consigo mesma, pois esta teria um processo psico-bio-físico-social para gerir o último acontecimento de vida: a morte.
Mas não! Isto não acontece. A morte recebe o repúdio quase generalizado, de pobres e ricos, homens ou mulheres, jovens ou idosos. É o fracasso desta hipótese enquanto a sofisticação, o desenvolvimento científico não conseguiram mais do que congelar corpos em azoto líquido, em dispendiosa resistência ao seu “ponto final”. Esta é a última versão das múmias egípcias ou ameríndeas que extasiam pela história que não conseguiram contar depois de terem deixado o reino dos vivos. Espera-se (entretanto) que a ciência descubra amanhã aquilo que hoje se recusa a revelar: a imortalidade! Enquanto isso: a morte continua a gerir com a sua batuta uma humanidade traumatizada… Mas, não sem algumas resistências: alguns, já que não lhe podem resistir, decidiram trocar-lhe as voltas e capitulam perante a sua inevitabilidade! Nasce assim a discussão ética em torno da eutanásia, que não só continuará a agitar as águas sobre as quais navega a inexorabilidade da vida humana como ainda risca de produzir processos de extinção em massa próprios da ausência de soluções credíveis perante a vida. É aliás esta a versão do suicídio juvenil em países onde tudo parece estar assegurado – semelhantes àqueles que o reino animal tão tristemente nos presenteia algumas vezes (veja-se a morte das baleias).
Neste beco sem saúde e saída uma boa parte da espécie humana opta em fazer uma inflexão para o obscurantismo místico envolvendo o assunto numa série de crendices reveladoras da poderosa imaginação humana. É o campo onde lavram as mais variadas e, por vezes, absurdas especulações que arrasam qualquer tentativa de conciliação com a inexorabilidade da vida humana.
Haverá possibilidade de encarar, no emaranhado de teorias, aspirações, determinismos e fracassos, um caminho que traga mais tranquilidade à existência humana?
Socialmente tentou-se: perante esta situação o homem moderno – pela primeira vez na sua história – decidiu afastar-se da morte (um pouco a teoria da avestruz): até há poucos anos os últimos dias de um ser humano eram passados em casa rodeado pelos familiares, pelas crianças, pelos entes queridos, acompanhados pelo sentir das suas derradeiras necessidades, com cuidados personalizados (1).
Este quadro bucólico deu origem a um outro: asséptico e esterilizado, no meio de tubos e máquinas, ventiladores e frascos de soro fisiológico na solidão.
É verdade que se conseguiram progressos inegáveis. O desenvolvimento científico que permitiu prolongar a vida humana em mais de 50 anos nos últimos 100 anos, é um exemplo do paradoxo da condição humana.
Há que retomar o novelo por uma ponta qualquer, pois se a discussão continuar sobre “que ponta se deve puxar”, corre-se o risco de aumentar o emanharado e complicar ainda mais aquilo que não pode ser mais complicado por natureza. Assim e para começar:

- a sociedade deveria tornar a dar aos seus diferentes grupos etários o contacto com a realidade da morte, ensinando a compreender o significado da vida;
- qualquer que seja o seu sistema de valores e crenças cada um deverá considerar seriamente se eles correspondem a uma percepção que ajude a enfrentar o seu impacto sobre a experiência de vida.

Outros problemas que afectaram o bem-estar de incontáveis seres humanos puderam ser melhorados (embora continuem a subsistir bolsas de resistência): a escravatura, a condição social feminina, os direitos das crianças – para só citar alguns. Para tal foi preciso que se estabelecessem cadeias humanas de solidariedade e mudança ... e ela aconteceu. Que cada um seja um elo dessa cadeia que reforça e ergue aqueles que são atingidos pelo traumatismo da perda da vida.

Luís S. Nunes

Índice / Novembro 2002