REflexões sobre o envelhecimento
Lembro-me de quando era muito jovem, na adolescência e até depois, de
olhar os que então já considerava velhos, e que terão agora a minha “meia-idade”
e de pensar para dentro: Eu não vou envelhecer, não me vai acontecer!
Julgo que este sentir será comum nos ainda muito jovens, nos quais de forma mais
ou menos consciente, o sentimento de finito ainda não faz parte da ideação...
Pelo contrário, à medida que vamos acrescentando anos à vida, isto é, à medida
que vamos envelhecendo, vai crescendo em nós, de forma progressiva, esse “pano
de fundo” cada vez mais consciente, mais permanente, dessa nossa
vulnerabilidade, que resulta de sermos também seres finitos.
É algo que determina uma série de mecanismos adaptativos físicos e
psico-sociais, tendentes a repararem o “Self”, agora submetido a grandes erosões
resultantes de múltiplas vivências: Os lutos da vida, a reforma, a invalidez, a
necessidade de reformar os objectos de prazer, os traumas narcísicos (entendendo
aqui as agressões que a nossa auto-estima vai sofrendo ao longo da vida) e,
também, o manter tanto quanto possível intactos os nossos projectos de
continuidade.
Nesta reforma permanente de SI mesmo surgem, como já anteriormente propus,
mecanismos de adaptação, alguns que poderemos considerar saudáveis e outros
patológicos, resultantes do exagero, da bizarria, a afastarem-se do “normal”.
Ainda ontem mesmo (este ontem refere-se à véspera do começo destas minhas
notas...) um doente de 78 anos, que acompanho de longa data, que é um homem
alto, robusto, desenvolto no aspecto motor, com um bom trato, afável,
equilibrado, viúvo, que exercera até há pouco um cargo de responsabilidade numa
instituição de solidariedade nacional, me dizia, deitado na marquesa do meu
gabinete, enquanto eu passava a mão direita pelo seu abdómen procurando alguma
anomalia: Sr. Dr., espero chegar aos 80...!
Esta confidência fora-me feita num tom que misturava o orgulho com a esperança e
era reveladora do regozijo por mais esses dois anos de vida (apesar de eu
acreditar que, no seu íntimo, pairam muitos mais em expectativa...).
Já imaginaram um jovem de 18 anos de idade ter este sentimento em relação aos
seus 20??
Julgo que a análise atenta deste expressar tão singelo quanto frequente deste
meu doente permite ilustrar de forma simples mas, e até por isso, os
considerandos que anteriormente teci sobre a consciência de finito e a sua
relatividade ao avanço da idade.
Referi acima o “Self”, que é um termo Inglês cuja tradução para a nossa
língua-mãe se pode fazer por “Próprio”, e que aglutina um conceito de entidade
única e absolutamente pessoal, o núcleo central da personalidade, que congrega
todas as dimensões do indivíduo, sejam cognitivas, afectivas, intelectuais,
sociais ou outras.
É este “Próprio” ou “Self”, bastião ou reduto de cada um de nós, que nos
posiciona de forma permanente, inconsciente, automática, em relação a tudo e a
todos, que defendemos a todo o custo, para conseguirmos manter o sentido da
vida, e a possibilidade de continuarmos...
Referi também que esta defesa do “Self” pressupõe mecanismos de adaptação uns
saudáveis, outros patológicos.
Um rapaz, que morava no prédio ao lado, mudou-se e foi viver para a
província. É esta a forma como, muito frequentemente, assistimos à referência
que um idoso faz de outro, que conhece de longa data, e com quem priva desde a
sua juventude...
No “meu tempo, as mulheres trabalhavam muito menos fora de casa – diz uma idosa
de 80 anos, após um jantar em casa de amigos, e já instalada na sala de
convívio, à conversa com outros. Como se o tempo actual não fosse também o seu,
como se “o Seu Tempo” fosse apenas aquele em que as mulheres trabalhavam pouco
fora de casa, ou seja, o tempo em que ela fora jovem...
Estes idosos aqui “construídos”, o que pretendem de forma inconsciente é
manterem o seu elo de ligação a um período das suas vidas em que tinham
juventude, força, capacidades intactas, ou de outra maneira, em que era forte e
saudável o seu “Self”. É uma forma de projecção no passado, que protege, que de
alguma forma, diria saudável, previne a fragmentação do “Próprio”.
Por outro lado, alguns outros, tão incapazes se tornam de manterem o contacto
com a realidade, de acompanharem o evoluir da vida e dos acontecimentos em seu
redor, que se fecham num mundo fantasioso, que lhes permite perpetuarem, ainda
que de forma desadequada e bizarra, um período das suas vidas em que sentiam
segurança, em que eram socialmente úteis.
Por estranho que pareça a um leigo, a ansiedade, a depressão, a fobia social, a
hipocondria, são artimanhas de índole inconsciente, que evitam a ruptura do
indivíduo e que evitam a fragmentação do “Self”.
Quando estes mecanismos de defesa são ultrapassados, perante a incapacidade de
aceitarem a transitoriedade dos objectos, do “Self”, a morte voluntária
acontece. Sabemos da taxa não negligenciável de suicídios nos idosos...
Outros, sós, pelo desaparecimento de familiares e amigos, recorrem a um
animal doméstico, com quem privam, a quem projectam toda a sua afectividade,
toda a sua intimidade, por outras palavras, o tal animal é colonizado, é
“enchido” pelo idoso, que lhe reconhece alma, fidelidade, ...vida e esperança.
Recordo uma doente de oitenta e alguns anos, só na vida, que tinha num cão o
último reduto da sua existência. A morte deste animal lançou-a num luto muito
doloroso, de muito difícil resolução, do qual saiu dificilmente, com muita
ansiedade e agitação.
Lembrei-me de Shakespeare, que esvaziou alguns dos seus personagens,
tirou-lhes o “Self”, transformando-os em figuras de projecção, de identificação
dos espectadores, como no seu Ricardo II, rei humano sim, mas sem estrutura
pessoal e única, sem o “Próprio”. Eugène Ionesco traduziu esta forma de sentir:
“Quando Ricardo II é preso na sua cela, só, não é apenas a ele que vejo, mas sim
a todos os reis depostos, e não só a todos os reis, mas também os nossos
próprios valores, aquilo em que acreditamos, está ali, só...
Quando Ricardo II morre, olho a morte de tudo o que mais venero, sou eu próprio,
que morro com Ricardo II.”
Faz sentido que a morte do cão da minha idosa doente determinasse também quase a sua...
José Carlos Almeida Nunes