Comunicação / Outubro 2002

chamam-lhe "comunicar"

A capacidade de transmitir as nossas ideias ainda é um dos trabalhos mais difíceis que alguém pode ter. Antiga-
mente, quando as pessoas se aborreciam, falava-se em ‘desabafar’! Hoje temos o ‘diálogo significativo’ ou ‘comunicação’.
Chame-se o que se chamar, a maior parte das vezes não temos mais do que pedras verbais a voar. O problema é que, quando atiramos pedras, estamos normalmente preocupados com uma pontaria certeira, em atingir a outra pessoa e em nos certificarmos de que os seus projécteis não nos acertam. Claro que este género de guerrilha não nos leva a lado nenhum, ao atirarmos palavras à nossa volta sem tentarmos realmente compreender o outro lado e como ele se sente sobre o assunto que está a causar o problema entre nós. Ouvir é tão importante como falar, ou talvez mais ainda.
Há algum tempo atrás pediram-me para falar a um grupo de alunos do sexto ano, aos seus pais e professores. Decidimos ‘entrar na cabeça uns dos outros’, de forma que a audiência foi dividida em pequenos grupos. A cada membro do grupo foi pedido que falasse com franqueza, bondade e sem ironia.
Pediu-se aos adolescentes que se pronunciassem sobre quatro temas:
1. Coisas de que gosto nos meus pais.
2. Coisas de que não gosto nos meus pais.
3. Coisas de que gosto nos meus professores.
4. Coisas de que não gosto nos meus professores.
Aos pais foi pedido que fizessem apenas duas listas:
1. Coisas de que gosto nos meus filhos.
2. Coisas de que não gosto nos meus filhos.
Pediu-se, também, aos professores que na lógica dissessem que:
1. Coisas de que gostavam nos seus alunos.
2. Coisas de que não gostavam nos seus alunos.
Os resultados foram razoavelmente previsíveis à luz da montanha de palavras que têm sido escritas por ‘especialistas’ em anos recentes. Contudo, como há pessoas que nem sequer querem ouvir falar num governo democrático nas suas casas, ou talvez na sala de aulas (quer falemos em pais, alunos ou professores), as listas que seguem são uma leitura recreativa! Mas, para aqueles que querem evitar tensões e uma declaração de guerra aberta entre as partes mencionadas, seria bom que começássem a ouvir os pontos de vista das pessoas que se encontram nos campos opostos.
Cada grupo, parece-nos, estava a pedir o mesmo tipo de resposta, e estas respostas podem ser resumidas sob os seguintes cabeçalhos: Tolerância; Respeito; Imparcialidade; Responsabilidade. “Oiçamos” então:

Opinião dos Jovens Sobre os Pais
Gosto:
Do seu amor e cuidado, que nem sempre mereço.
De como tentam ajudar-me.
De me ajudarem tanto quanto possível.
De terem tempo para mim e me aconselharem.
De se sacrificarem muito por mim.
Do facto de se preocuparem comigo a ponto de falarem comigo sobre as minhas actividades.
De serem uma fonte de segurança, incluindo de amor.
De serem uma fonte de aconselhamento – às vezes.
De me perdoarem todos os meus erros.
De terem uma mente equilibrada.
De tentarem ajudar-me nos problemas que tenho.
A coisa que mais aprecio nos pais é – (não consigo lembrar-me de nada).
São muito compreensivos quando toca a problemas.

Não gosto:
Da forma como acabam uma conversa depois de darem a sua opinião.
De que me estejam sempre a censurar e a mandar em mim.
De que pensem que podem mandar em mim e nunca prestar atenção ao que digo.
Da forma como nunca nos largam e passam a vida a ralhar.
Dos seus ralhos e censuras constantes.
De nunca apreciarem o meu ponto de vista ou concordarem com as minhas razões para agir.
Quando tentam tomar as decisões por mim.
De me castigarem quando estão zangados em vez de pensarem primeiro.
Serem demasiado didácticos.
Dos seus fracos argumentos.
Da maneira como gritam comigo pelas ofensas mais triviais.
De pensarem que sabem tudo.
Voltarem a falar em experiências passadas.
Não serem justos quando se trata de decidirmos coisas por mim mesmo ou tomar as minhas próprias decisões.
Da sua ideia de superioridade. Não seguem os conselhos dos jovens mesmo que estejam errados.
Não estarem preparados para seguirem os conselhos dos jovens, sem se preocuparem com a idade. Não admitirem que estão errados.
Ralharem.
Serem muito possessivos.
Nunca parecerem pensar que já temos idade suficiente para tomarmos as nossas próprias decisões.
Quando tento tomar uma decisão, eles tomam-na por mim.
Não quererem que estejamos na moda.
A sua falta de paciência para os problemas dos jovens.
De quando eles ficam zangados quando perdemos o último comboio ao Sábado à noite e chegamos a casa à uma da manhã, depois de uma festa.
De uma atitude hipócrita.
Aborreço a minha mãe quando insisto, mas ela também me aborrece quando insiste.
Dos pais que pensam que estão sempre certos e nunca errados. Isso irrita-me.
Devido a formas inconsistentes – falta de empatia.
Há um fosso entre gerações – especialmente no que se refere à escola. O trabalho escolar nunca parece satisfazê-los. Num momento não se faz o suficiente, no momento seguinte, depois de longas horas de tédio, soam-te aos ouvidos aquelas palavras maravilhosas: ‘vai para a cama’. Quando é que eles estão satisfeitos?

PONTOS DE VISTA DOS PAIS SOBRE OS JOVENS
Gosto:
De entusiasmo.
Honestidade directa. Prontos para ajudar.
Ternura.
Das crianças que dizem: “Obrigado”.
De amor e apreço.
Não guardam rancor durante muito tempo.
Quando eles vêem algo que precisa de ser feito e o fazem sem que lhes seja pedido.
A sua lealdade para com os amigos.
“Obrigado, mamã, foi fantástico.”
Em tempos de crise, conseguem sempre ‘dar a volta por cima’.
Muita afeição.
A sua exuberância jovem e alegre.
O seu forte sentido de justiça e injustiça.
Da sua crítica aberta e honesta sobre situações que sentem estar erradas.
Espontaneidade. Gosto pela vida.
Da felicidade e vida que trazem para a família.
Da sua vontade de cortar a relva e lavar os pratos. (Estarão a falar a sério?)
Não terem receio de expressar o seu amor por nós.
Completam a nossa família em todos os sentidos.
O seu espírito de perdão.
Da sua colaboração nos trabalhos em casa.
O respeito pelos outros.
Da forma pouco usual e fresca como lidam com os problemas.
Do seu abundante suprimento de entusiasmo e vontade de viver.
Do seu amor e colaboração.
Um pouco de ajuda dada sem pedir.
Das suas conversas alegres enquanto fazem preguiça à volta da lareira da sala de estar.
Do entusiasmo jovem.
Do amor que uma criança demonstra quando existe harmonia.
Da sua mente aberta e franca.
Apreço sem ser pedido.
Franqueza e sentido de responsabilidade.
Da sua exuberância e amor pela vida.

Não gosto:
Do seu amor ao barulho – em todos os media.
Pouca vontade de se concentrarem seriamente em coisas importantes.
Comportamento furtivo – virtualmente uma vida dupla.
A sua falta de capacidade em aceitar o NÃO com simpatia.
Falta de respeito pelos direitos e opiniões das pessoas mais velhas.
Falta de cooperação na eventualidade de uma criança não ter o que deseja.
Falta de comunicação dos seus problemas.
Birras quando não conseguem o que querem.
Brigas de crianças.
Como se zangam e lutam uns com os outros.
O não quererem compreender porquê os adultos pensam que os seus requisitos são razoáveis.
Desarrumação.
Barulho à mesa. Toda a conversa sobre a escola.
Tentar comprar roupa para o meu adolescente.
Atitude crítica para com a roupa dos pais (!)
Desarrumação. Não gostarem de trabalhar em casa.
Repetirem, vezes sem conta, porquê querem cortar o cabelo.
Cabelo comprido. Saias curtas.
A forma como têm sempre desculpas por não fazerem o que queremos que façam.
Falta de compreensão pelo ponto de vista dos mais velhos.
Ter de lhes dizer centenas de vezes para fazerem os trabalhos de casa.
A atitude de ‘o mundo deve-me uma vida’.
Quando os avisamos sobre os perigos de certa linha de conduta ou certa decisão, eles dizerem ‘não te preocupes com isso’.
A sua não aceitação dos conselhos dos pais.
Discutirem sobre todos os assuntos.
Comerem bem, bem de mais.
Tentar compreendê-los.
Quando os pais lutam financeiramente para dar a um filho uma educação em algum talento (tal como música), e ele ter a capacidade, mas recusar-se a cooperar.
Em certas alturas eles sabem tudo o que nós não sabemos.
Responderem: ‘Eu sei!’.
Falta de gratidão.
Modos críticos com respeito aos pais.
Ingratidão.
Desobediência. Irritabilidade. Má educação. Desarrumação.
Características de mau-humor.
A sua falta de respeito para com as outras pessoas.
Uma falta de cortesia, especialmente para com os professores.

Opinião dos Jovens Sobre os PROFESSOREs
Eles gostam:
Sentido de humor (vários mencionaram esta qualidade).
O trabalho a que se dão por nós quando não conseguimos resolver alguma coisa sozinhos.
A maneira como estão prontos a passar tempo connosco para nos ajudarem nos nossos problemas.

Eles não gostam:
De professores que se zangam (demasiado).
O que mais me aborrece é quando se faz alguma coisa pequenina e a professora faz uma grande fita quando ninguém mais ligaria ao assunto.
O seu criticismo a meu respeito e a respeito dos meus amigos.
Professores que não nos deixam falar na escola.
Professores que são demasiado rígidos e restritivos.
Quando tentam viver a nossa vida.
Quando ignoram que também temos uma mente e opiniões sobre as coisas.
A maneira como os professores tentam substituir os nossos pais em assuntos pequenos e grandes que não têm nada a ver com eles.
O que mais me irrita nos professores é não receber a nota certa.

PONTOS DE VISTA DOS PROFESSORES SOBRE OS JOVENS
Eles gostam:
Da sua franqueza.
Relacionar-me com eles – dá-me uma visão jovem das coisas.
O desafio de os ajudar torna-se algo que vale a pena.
A sua gratidão e alegria quando as coisas poderiam ser difíceis.
Depois de terem sido corrigidos, esquecem com facilidade o rancor.

Eles não gostam:
Da sua preguiça.
Recusarem-se a ser aconselhados.
Desobediência.
Queixarem-se constantemente de pequenas injustiças.
Alunos preguiçosos e desatentos.
A sua crença profunda de que, aconteça o que acontecer, passarão no exame, quer trabalhem quer não.
Alguns alunos não tentam ver outro ponto de vista que não seja o seu.

Ao lermos as listas, parece-nos que, em grande parte, a atitude dos jovens depende da atmosfera que têm em casa ou na sala de aula. Uma atitude calma, aberta, tolerante traz ao de cima o que há de melhor em ambas as partes. Isto não implica que não devam existir regras; pelo contrário, as regras devem existir e serem trabalhadas em conjunto para serem justas. Até mesmo o ditador não é feliz quando tem de pôr a sua ditadura em prática. O reconhecimento do facto de que cada pessoa tem direitos, não interessando qual a sua idade ou posição, é fundamental para o crescimento harmonioso e para o desenvolvimento da personalidade.
O respeito pela privacidade e pela opinião pessoal são primordiais. Vivemos numa era em que uma pessoa, aos dezoito anos, pode casar sem o consentimento dos pais. Ele ou ela pode votar nas eleições. Por outras palavras, a nossa sociedade considera uma pessoa de dezoito anos como um adulto com direitos e responsabilidades. O trabalho dos pais é equipar os jovens com capacidades para lidarem com as responsabilidades associadas que envolvem esses direitos. Por isso tem de se dar relevo à delicada arte de passar a total responsabilidade para as mãos dos jovens.
Esperar até aos dezasseis ou dezassete para pôr as rédeas a um jovem, é desastroso. Logo que possível a criança deve ser ensinada a fazer escolhas e a viver com as consequências dessas escolhas. Se, por exemplo, for dado a uma criança pequena, o direito de escolher um par de sapatos de que depois não gosta pela sua fraca qualidade, ela terá de viver com a responsabilidade da situação até que se possa juntar dinheiro para comprar outro par. Não se deverá (nem é necessário) dizer nada sobre o erro que fez. Cada vez mais se torna evidente que as barreiras verbais são despropositadas e, na maioria dos casos, prejudiciais.
‘Dizer uma palavra irada é como a pederneira batendo na pederneira: Suscita imediatamente sentimentos de ira. Nunca sejam como o ouriço da castanha. Não vos permitam usar palavras ásperas e ríspidas em casa.’1
Resumindo, poderíamos pôr as coisas nestes moldes:
Os jovens apreciam ser tratados como iguais e serem reconhecidos como indivíduos em vez de como extensões dos seus pais.
Ressentem-se com censuras e superprotecção.
Os pais apreciam honestidade, uma mente aberta e predisposição para escutar a voz da experiência.
Ressentem-se com a tendência de alguns jovens de quererem liberdade SEM responsabilidade.
Os professores apreciam o entusiasmo e a exuberância dos seus alunos, mas não gostam da sua incapacidade de agarrar as oportunidades que lhes são dadas hoje.
Os alunos procuram, nos seus professores, justiça e um interesse genuíno em si como indivíduos, em vez de um nome no livro de chamadas.
Parece que não existem soluções fáceis para ninguém. Leva tempo, consideração e esforço para se gozar de um relacionamento significativo e satisfatório com os outros. Mas no que se refere a comunicação, a fórmula é muito clara. Tal como se lê no aviso das passagens de nível dos comboios: PARE, ESCUTE E OLHE, e nós podemos acrescentar: AJA, não reaja.


1 Ellen G. White, Orientação da Criança, Casa
Publicadora Brasileira, 1962, pág. 95.

 

Gordon Box