Filosofia / Outubro 2002

A família e o seu impacto na saúde da criança

A natureza não fez assim tão mal as coisas quando previu, para a maioria dos seres humanos, um pai e uma mãe. Por razões genéticas, é claro. Mas também porque a aprendizagem e a batalha da vida diária tornam necessária esta dupla presença, esta dupla atenção. É especialmente verdade para o pequeno ser, o mais desamparado de todos.


É por isso lógico estar inquieto quando esta condição necessária, embora certamente insuficiente, não é preenchida. O aumento do número de famílias ditas monoparentais, é cada vez mais alarmante. Mais julgada assim. Em 1968, mais de metade das famílias monoparentais eram-no em consequência de uma viuvez; em 1990, os casos de viuvez não representavam mais de 19% contra 23% de casos de celibato e 58% de pais divorciados. O Insee, este ano, regista mais de 1 600 000 casos de agregados familiares monoparentais em consequência de divórcio, sendo a grande maioria materna (85% dos casos). Eles constituem mais de 16% das famílias francesas. Provavelmente ainda mais grave, entre 1885 e 1995 o número de famílias incompletas triplicou entre os meios mais desfavorecidos. Um inquérito realizado em 1994 em doze países da União europeia indicava, em crianças com idades inferiores a 16 anos, uma taxa de 15% de famílias monoparentais (apenas um progenitor vivo) no Reino Unido e na Dinamarca, 10% na França, 5% na Grécia, Espanha e Portugal.

Crianças mais vulneráveis
Não são os psicólogos, os sociólogos, ou os moralistas que se debruçam sobre esta questão, mas são os médicos. A nossa congénere “Impact Quotidien” (nº1222) refere-se “um dos mais vastos inquéritos jamais realizados, na Grã-Bretanha. 93 356 crianças com idades entre os 0 e os 15 anos, entre os quais 10 983 (11,8%) vivendo em agregados monoparentais, foram incluídos num estudo coordenado pelo Dr. M. Flemming, de Birmingham. Resultado: os autores observam uma maior frequência de infecções, acidentes e uma diminuição da imunidade nas crianças criados por apenas um dos dois progenitores e, globalmente, um nível de protecção mais baixo.” O fenómeno parece análogo em França. Nas urgências pediátricas do Hospital Robert Debré, em Paris, a proporção de admissões de crianças nestas condições atinge perto dos 20%.


Pesadas obrigações para os pais e as crianças
Compreende-se facilmente que, com os meios materiais limitados, até mesmo precários, uma sobrecarga de tarefas e de responsabilidades, horários muitas vezes impossíveis para as crianças, que seja bem difícil ao progenitor que está sozinho dar à criança, de um modo equilibrado, a atenção e os cuidados de que ela terá necessidade nesta etapa fundamental da sua vida. Mas, segundo o Pr. M. Rufio, pedopsiquiatra em Marselha, convém distinguir as “verdadeiras” famílias monoparentais, aquelas em que uma única pessoa (mãe abandonada, viúva, ou desejando viver só) assume a responsabilidade familiar, das famílias divorciadas nas quais a criança tem sempre os dois progenitores, mesmo que estes não vivam juntos. A dinâmica seria então muito diferente.
Podemos também deduzir, sem muitos riscos de incorrer em engano, que o que é observado a nível fisiológico, também se verifica a nível afectivo, intelectual, social, a nível da formação global e da personalidade. É um futuro bastante comprometido para os jovens aos quais o desenvolvimento técnico poderia teoricamente oferecer uma vida melhor do que a das gerações passadas.
Não se trata de culpabilizar ou de estigmatizar quem quer que seja, mas mais de tirar ilações. Quando a idade da criança ainda permite aos pais exercerem uma influência educativa, eles podem transmitir-lhes um pouco de bom senso e, no coração, um senso mínimo de responsabilidade e prioridade. Não é só a saúde que está em causa. As grandes “rupturas sociais” estão ainda por vir. Começamos a ver o que se passa quando estas gerações de crianças maltratadas chegam à sua vida activa. É urgente que no meio familiar – no seu sentido mais lato – amigável, associativo, de vizinhança ou paraprofissional, a solidariedade se imponha às nossas consciências e ocupe lugar junto dos pais e das crianças que dela necessitam. Para um pouco mais de comunicação e de calor.

Philippe Augendre