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A natureza não fez assim tão mal as coisas quando previu, para a maioria dos
seres humanos, um pai e uma mãe. Por razões genéticas, é claro. Mas também
porque a aprendizagem e a batalha da vida diária tornam necessária esta dupla
presença, esta dupla atenção. É especialmente verdade para o pequeno ser, o
mais desamparado de todos.
É por isso lógico estar inquieto quando esta condição necessária, embora
certamente insuficiente, não é preenchida. O aumento do número de famílias
ditas monoparentais, é cada vez mais alarmante. Mais julgada assim. Em 1968,
mais de metade das famílias monoparentais eram-no em consequência de uma
viuvez; em 1990, os casos de viuvez não representavam mais de 19% contra 23% de
casos de celibato e 58% de pais divorciados. O Insee, este ano, regista mais de
1 600 000 casos de agregados familiares monoparentais em consequência de
divórcio, sendo a grande maioria materna (85% dos casos). Eles constituem mais
de 16% das famílias francesas. Provavelmente ainda mais grave, entre 1885 e
1995 o número de famílias incompletas triplicou entre os meios mais
desfavorecidos. Um inquérito realizado em 1994 em doze países da União
europeia indicava, em crianças com idades inferiores a 16 anos, uma taxa de 15%
de famílias monoparentais (apenas um progenitor vivo) no Reino Unido e na
Dinamarca, 10% na França, 5% na Grécia, Espanha e Portugal.
Crianças mais vulneráveis
Não são os psicólogos, os sociólogos, ou os moralistas que se debruçam
sobre esta questão, mas são os médicos. A nossa congénere “Impact
Quotidien” (nº1222) refere-se “um dos mais vastos inquéritos jamais
realizados, na Grã-Bretanha. 93 356 crianças com idades entre os 0 e os 15
anos, entre os quais 10 983 (11,8%) vivendo em agregados monoparentais, foram
incluídos num estudo coordenado pelo Dr. M. Flemming, de Birmingham. Resultado:
os autores observam uma maior frequência de infecções, acidentes e uma
diminuição da imunidade nas crianças criados por apenas um dos dois
progenitores e, globalmente, um nível de protecção mais baixo.” O fenómeno
parece análogo em França. Nas urgências pediátricas do Hospital Robert
Debré, em Paris, a proporção de admissões de crianças nestas condições
atinge perto dos 20%.
Pesadas obrigações para os pais e as crianças
Compreende-se facilmente que, com os meios materiais limitados, até mesmo
precários, uma sobrecarga de tarefas e de responsabilidades, horários muitas
vezes impossíveis para as crianças, que seja bem difícil ao progenitor que
está sozinho dar à criança, de um modo equilibrado, a atenção e os cuidados
de que ela terá necessidade nesta etapa fundamental da sua vida. Mas, segundo o
Pr. M. Rufio, pedopsiquiatra em Marselha, convém distinguir as “verdadeiras”
famílias monoparentais, aquelas em que uma única pessoa (mãe abandonada,
viúva, ou desejando viver só) assume a responsabilidade familiar, das
famílias divorciadas nas quais a criança tem sempre os dois progenitores,
mesmo que estes não vivam juntos. A dinâmica seria então muito diferente.
Podemos também deduzir, sem muitos riscos de incorrer em engano, que o que é
observado a nível fisiológico, também se verifica a nível afectivo,
intelectual, social, a nível da formação global e da personalidade. É um
futuro bastante comprometido para os jovens aos quais o desenvolvimento técnico
poderia teoricamente oferecer uma vida melhor do que a das gerações passadas.
Não se trata de culpabilizar ou de estigmatizar quem quer que seja, mas mais de
tirar ilações. Quando a idade da criança ainda permite aos pais exercerem uma
influência educativa, eles podem transmitir-lhes um pouco de bom senso e, no
coração, um senso mínimo de responsabilidade e prioridade. Não é só a
saúde que está em causa. As grandes “rupturas sociais” estão ainda por
vir. Começamos a ver o que se passa quando estas gerações de crianças
maltratadas chegam à sua vida activa. É urgente que no meio familiar – no
seu sentido mais lato – amigável, associativo, de vizinhança ou
paraprofissional, a solidariedade se imponha às nossas consciências e ocupe
lugar junto dos pais e das crianças que dela necessitam. Para um pouco mais de
comunicação e de calor.
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