Será difícil, mesmo impossível, tentar alinhavar nas linhas que se seguem
aquilo que a experiência de três filhos, cinco netos e quatro décadas da vida
a lidar com crianças e seus pais me ensinaram, do muito que há para aprender
sobre a difícil tarefa de educar. São tantas as limitações de quem se
propõe educar que poderíamos perguntar o que levará o ser humano a ter filhos
se não soubéssemos que o facto de nos prolongarmos através da descendência
acaba por varrer todas as reticências.
Ao longo dos anos têm-se sucedido diversas teorias sobre como educar que
lançam, muitas vezes, a confusão no espírito dos pais que, honestamente, se
propõem levar a bom termo essa responsabilidade. Do autoritarismo do passado,
que tentava “domar” a criança à vontade soberana e inquestionável dos
pais até ao laxismo do presente que, nada opondo à criança, a torna na
realidade escrava dos seus desejos. No meio falta, muitas vezes, o bom senso que
aliando o amor esclarecido a uma firmeza imperturbável, mas serena, permite sem
grandes sobressaltos levar a tarefa a bom termo.
O segredo de uma boa educação reside na maneira como os pais a inculcam aos
filhos. Por vezes acontece que os pais andam de tal maneira angustiados pelo
receio de não levarem a educação a bom porto, que têm muitas dificuldades em
fazer passar a sua mensagem. Deviam ser mais confiantes. A criança é de uma
grande plasticidade, desejando parecer-se com os adultos que ama e está pronta
a aceitar as imposições destes para ter a certeza de que é amada. De facto,
se a criança tem uma tendência quase natural para desobedecer, nem que seja
só para ver o que acontece... tem também uma tendência natural para obedecer
e para tentar conformar-se com o que os adultos desejam.
Na base de todo o processo educativo está o comportamento do educador em
relação ao pequeno ser a educar. É indispensável que quem educa se saiba, a
um tempo, fazer amar, temer e respeitar. Tenho encontrado adultos que me dizem :
“O nosso pai era muito severo mas nós tínhamos-lhe muito amor”. A
severidade não estraga o amor quando se manifesta de forma justa, constante e
calma. O velho ditado português “quem dá o pão dá a criação” continua
válido hoje como sempre esteve. Podemos até dizer, citando o Dr. Patrick
Delaroche (Dr.P.D.) pedopsiquiatra, “que há actualmente crianças que sofrem
de uma ausência de limites que se pode assemelhar a maus tratos”. Na
realidade, para Ellen White (E.W.), escritora e educadora americana “as
crianças serão muito mais felizes quando devidamente disciplinadas do que se
deixadas a fazer o que os seus impulsos não educados sugerem”.
Uma das primeiras coisas que a criança deve aprender é a obediência. Se uma
criança se dá conta que chorando, ou tomando outra atitude qualquer, pode
alcançar o que deseja, de imediato faz uso do seu poder.
Certa jovem mãe preocupava-se com a sua primeira filha que era débil e
requeria cuidados especiais. As atenções que sempre a cercaram ensinaram à
pequerrucha que, durante a noite, com qualquer pequeno choro, podia atrair o
interesse e o carinho da mãe. Ora como isso não era bom nem para uma nem para
outra, os pais conversaram sobre o problema e resolveram procurar solucioná-lo.
Para isso apenas puseram em prática o seu domínio próprio e, nas noites
seguintes, deixaram a filhinha chorar, sem manifestarem qualquer reacção, até
que adormecesse. E, em breve, a batalha foi vencida.
A autoridade na educação
Dizer que a autoridade dos pais é necessária seria quase um contra-senso se
não vivêssemos numa época em que toda a autoridade é questionada. Mas, no
fundo de si mesmas, as crianças têm uma tal necessidade e desejo natural de
obedecer que nos podemos interrogar porque não se responde mais a essa
necessidade.
A criança necessita de pais que a dirijam, pois a escolha para ela é sempre
angustiante. Até uma certa idade a criança necessita que decidam por ela.
Mesmo mais tarde e até atingir a sua independência económica, social e
profissional, o desrespeito por uma autoridade paterna esclarecida e amorosa
pode ser a porta aberta para muitos problemas.
Ellen White afirmou o que hoje parece, para muitos, um ponto de vista
retrógrado: “antigamente era considerada a autoridade paternal; então os
filhos sujeitavam-se aos pais, temiam-nos e reverenciavam-nos; ultimamente,
porém, a ordem está invertida. Alguns pais estão sujeitos aos filhos. Temem
contrariar a sua vontade e, portanto, cedem. Mas enquanto os filhos se
encontrarem sob o tecto paterno, dependendo dos pais, devem estar subordinados
à sua autoridade. Os pais devem agir com decisão, exigindo que os seus pontos
de vista, (quanto ao que é correcto), sejam seguidos.”
Na família de hoje, em que pai e mãe se equivalem, muitas vezes, em termos
económicos e profissionais, a tradicional autoridade paterna está diluída
pelos dois. Se se perguntar ao acaso a uma criança quem manda em casa ela
responderá, naturalmente, “os pais”, sem distinguir o pai da mãe. Em lares
em que a responsabilidade económica é partilhada pelo casal, a tradicional
última palavra do pai está em declínio, sendo a autoridade muito partilhada
pelos dois, tomando muitas vezes a mãe um natural ascendente autoritário sobre
os filhos. Muitos pais parecem ter baixado os braços na educação dos filhos,
o que é sobretudo prejudicial no que se refere aos rapazes que, certamente por
isso, constituem mais de dois terços das consultas de perturbações do
comportamento.
Neste quadro, seria aparentemente muito fácil para um casal falar sobre a
educação dos filhos, harmonizando os seus pontos de vista. No entanto,
submersos pelas tarefas do dia a dia, poucos encontram ocasião para o fazer.
Desta forma, sendo a mãe habitualmente uma melhor observadora dos problemas dos
filhos, acaba naturalmente por tomar a maior parte das iniciativas na sua
educação.
Para a criança, no fundo, o que conta é que os pais formem um casal
complementar e que cada um deles aceite a opinião do outro como válida,
consoante as circunstâncias. E que em nenhum caso um deles desqualifique a
autoridade do outro. O pai não deve criticar a mãe, e vice-versa, na presença
da criança, nem nenhum deles se deve opor a qualquer expressão da autoridade
do outro mesmo que discorde. Esse sinal de bom entendimento é fundamental para
o equilíbrio da criança e para o sucesso de todo o processo educativo. Os
casais mais unidos e que melhor compreendem os seus deveres mútuos são os que
melhor conseguem transmitir aos filhos os seus valores.
Como proibir
De acordo com Dr. P. D. não há educação sem proibição. De facto, “todas
as perturbações da criança, ligeiras ou graves, desde a instabilidade vulgar
até às perturbações graves da personalidade, provêm de uma falta de
proibição (que não deve ser confundida com punição).”
“Em algumas famílias (segundo E.W.) a vontade da criança é lei. Tudo o que
ela deseja lhe é dado. Tudo aquilo de que não gosta é incentivada a não
gostar. Supõe-se que essa transigência torne a criança feliz, mas são
justamente essas coisas que a tornam inquieta, descontente e insatisfeita com
tudo”.
A educação precisa, antes de mais, de autoridade, frequentemente de
proibições e, às vezes, de sanções. Acontece que a autoridade da família
em geral e do pai em particular, são literalmente derrotadas, de múltiplas
maneiras, por toda uma filosofia moderna que contesta a autoridade, chegando
mesmo a paralisar certos pais no seu dever e privilégio de educar. Mas há que
cultivar o bom senso e desempenhar a tarefa como milhares de gerações, bem ou
mal, o fizeram antes de nós.
A arte de proibir implica o uso de palavras e de actos. Quando proibir e como
proibir? Tudo é, ainda, uma questão de bom senso.
As primeiras proibições são inquestionáveis e não precisam de ser
explicadas nem elaboradas: o perigo das tomadas eléctricas, das janelas
abertas, das entaladelas nas portas... Mais tarde, à medida que cresce, a
criança necessita de compreender as proibições, tendo necessidade de
experimentar a realidade daquilo que lhe ensinam.
Por isso os pais devem aceitar que a criança faça as suas próprias
experiências, sendo, no entanto, indispensável que os riscos estejam o mais
possível à medida do que a idade da criança pode suportar.
A proibição deve ser clara e inteligível para a criança, segundo o Dr. P. D.
“Uma proibição que não faz prova da sua realidade desqualifica-se e
torna-se rapidamente, e de forma absoluta, ineficaz”. “A mãe não deve
permitir que a criança leve vantagem sobre ela num simples caso sequer” para
E.W..
Para se fazerem obedecer, os pais devem saber exercer, antes de mais, o domínio
sobre si próprios. Quanto melhor souberem manter sob domínio os seus próprios
apetites, paixões e temperamento melhor serão capazes de desempenhar a sua
tarefa de educadores. Gandhi disse que “é impossível impor aos outros aquilo
que nós próprios não somos capazes de respeitar. Não se pode levar outros a
dominarem-se, se nós próprios não somos capazes desse autodomínio”.
A obediência obtém-se tanto mais facilmente com quanto mais amor os pais a
exigirem. Para E. W. “Não com uma tormenta de palavras mas de um modo calmo e
amável”. “As crianças nem sempre distinguem o certo do errado. Por isso
quando cometem um erro devem ser instruídas com bondade”. “Ninguém que
lida com jovens deve ter coração de ferro. Antes deve ser afectuoso, terno,
compassivo, cortês, cativante e sociável”.
A razão pela qual os pais têm o direito de exigir obediência é porque falta
à criança a experiência para decidir o que é o bem e o mal, necessitando de
olhar para os seus pais para o saber, aceitando assim a decisão de quem sabe.
Por isso é fundamental que a criança tenha sempre a noção clara de que,
aconteça o que acontecer, o que o pai e a mãe lhe exigem é sempre fruto do
seu amor por ela.
Como punir
A criança precisa não só de proibição como de castigo. Aliás, um não
funciona sem o outro e o castigo decorre da proibição. Poder-se-á mesmo dizer
que muitas vezes a educação se baseia, de certa forma, na chantagem: se não
fazes isto, não terás aquilo. Sobretudo numa certa chantagem afectiva, no bom
sentido: se não me obedeces, arriscas-te a que eu não goste de ti. Esta é a
razão essencial que leva a criança a obedecer: o medo de perder aquilo que é
vital para ela, o amor dos seus pais.
Se o adulto está seguro da sua posição, a criança parará depressa o acto de
desobedecer, percebendo que não tem grande coisa a ganhar. Mas se o adulto
está hesitante a criança será tentada a alargar o fosso da desobediência,
procurando levar avante a sua vontade.
A punição:
1. Deve estar de acordo com a falta, mas ser feita sempre com inteligência:
limpar, pagar, fazer uma tarefa de interesse familiar; a escolha entre a
privação de uma saída ou a da televisão, o isolamento num canto ou num
quarto, a recusa da compra de um brinquedo ou de uma distracção.
2. Deve ser sempre igual ou semelhante para a mesma falta. Nunca deixar que a
aplicação ou não do castigo seja fruto da disposição ou impulso do momento
de quem o aplica. Quando a criança se der conta de que cada desobediência sua
recebe o justo castigo, estará em condições de construir, verdadeiramente um
caracter sólido. Mas se os responsáveis por ela a castigam irregularmente,
provocam uma completa incompreensão e mesmo confusão no espírito da criança.
Uma criança a quem se “toleram”, às vezes, as desobediências, não só
aprende a ser mais desobediente como também mais astuta.
3. Nunca deve ser aplicada em público, sobretudo perante estranhos à família.
É um assunto entre o adulto e a criança que terá de ser castigada mas nunca
deverá ser humilhada.
4. Deve ser aplicada com firmeza mas também com serenidade e amor. “Irar-se
com a criança que erra é aumentar o mal” diz E.W.. O educador deve procurar
manter-se calmo, sem levantar a voz mesmo que a reacção da criança seja
intempestiva.
5. Não se deve voltar atrás na sanção prevista, a menos que se tenha chegado
à conclusão que a criança estava inocente da falta. Deve então haver um
grande cuidado em lhe explicar a situação, para que não haja descrédito para
as situações seguintes. Quando a criança comete um erro e é ameaçada com um
castigo que nunca se vem a concretizar, perde rapidamente o respeito pela
autoridade começando a aprender o cinismo e a chantagem.
6. Pode ter de chegar ao extremo da palmada, quando todos os outros métodos
falharam para conseguir a obediência. Certamente que os castigos corporais não
são a solução. Para o Dr. P. D., “Mais vale uma palmada, que por vezes sai
depressa de mais, do que uma prejudicial ausência de reacção. Uma mão
rápida que assinalou que o limite foi atingido não é um mau trato. Em
contrapartida, o que é altamente tóxico é a encenação do castigo corporal”.
Desde quando educar ?
A educação de uma criança começa ainda antes do seu nascimento. A criança
desejada (e amada mesmo antes de nascer) começa logo a ser educada pela
influência positiva que esse desejo e amor exercem no psiquismo e na
afectividade do pai e da mãe um para com o outro e para com o seu futuro bebé.
Ao nascer, a criança traz com ela todas as potencialidades para o bem e para o
mal. No entanto só por volta dos 2 anos é que o seu sistema nervoso completa a
sua maturação e adquire o funcionamento que terá quando adulto. Daí o
cuidado a ter com o “treino” demasiado precoce.
Até aos 8 meses, a criança deve ter todas as suas necessidades reais
satisfeitas (higiene, alimentação, repouso, cuidados afectivos) procurando
criar-lhe um ritmo de vida que a faça desenvolver-se harmoniosamente.
Precisa de compreender aos poucos que não é a única pessoa na vida da mãe.
Por isso, quando o pai chega ao fim do dia, não se deve condescender com ela
dando-lhe todas as atenções para evitar o choro com que procura chamar a
atenção da mãe.
Se a criança chora, é preciso procurar se há algo que a magoa, a fralda suja
ou a sua necessidade de alimento. Se o choro persiste, as famosas cólicas do
bebé poderão ser a causa, sobretudo no primeiro trimestre de vida. Perante a
quase total ineficácia dos tratamentos, a sucção e o embalar podem ser a
solução para acalmar a ansiedade da mãe e do filho.
A partir dos 8 meses, a criança começa a explorar o mundo que a rodeia e a
educação feita de proibição não só pode como deve começar a ser feita. Ao
aproximar-se da tomada eléctrica, já antes proibida, a criança muitas vezes
já começa a procurar o adulto com o olhar e até já esboça, com a cabecinha,
a palavra “não”!
Nesta altura os pais não podem ter contemplações: até aos 18-24 meses, se a
proibição foi transgredida deve dar-se a palmadinha prometida – um meio
muito eficaz quando a autoridade da palavra não foi suficiente.
Esta primeira aprendizagem é essencial para o futuro. Segundo o Dr. P. D. “A
‘criação’ de uma criança com menos de dois anos é um verdadeiro “adestramento”
que, todavia, deve ser constantemente acompanhado de palavras”, e para E.W.
“Desde os primeiros anos as crianças devem ser ensinadas a obedecer aos pais,
a acatar as suas palavras e a respeitar a sua autoridade”.
Ao longo de muitos anos tenho sido abordado por um bom número de mães que me
questionam sobre a altura ideal em que deverão iniciar a sua tarefa de
educadoras: “aos 3- 4 anos, ou pensa que ainda é cedo?” ... Confesso que
fico sempre um pouco perturbado quando tenho de dar a minha opinião: “Não,
minha senhora. Nessa idade já estará tudo terminado. A educação de uma
criança acaba aos 3 anos. A partir daí são pequenas afinações!”
As duas principais autoridades que como referência me acompanharam neste artigo
partilham a mesma opinião. Ellen White, que escreveu no século XIX e que é,
porventura, a escritora mais difundida de todos os tempos, diz: “Mães,
procurem disciplinar devidamente os vossos filhos durante os seus três
primeiros anos de vida. ...Os três primeiros anos são o tempo para vergar o
pequenino rebento. As mães devem compreender a importância desse período. É
aí que é posto o fundamento”.
O Dr. Patrick Delaroche, no início do século XXI, vai ainda mais longe, na sua
opinião: “Esta passagem pela educação ensina-nos duas coisas essenciais:
“Ela deve ser precoce. De certo modo, podemos dizer que tudo está decidido
aos 2 anos.
É preciso que a proibição venha no momento certo. Nem demasiado cedo nem
demasiado tarde.”
A criança precisa da infância e de pais que o saibam ser. Para E. W. “A
formação do carácter é a obra mais importante que já foi confiada a seres
humanos”. Por isso, a difícil tarefa de educar é a realização mais
importante que qualquer pai e mãe pode deixar na sua passagem pela vida. Porque
só através dela podemos transmitir aos nossos filhos os valores que terão
dado um sentido positivo às nossas vidas e que um dia eles mesmos poderão
transmitir aos seus.
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