Psicologia / Outubro 2002

Aprender a aprender

Começou mais um ano lectivo e as questões colocam-se novamente: o que terei que fazer para conseguir uma aprendizagem eficaz? Que estratégias devo usar? O que tenho que modificar em mim? Enfim, um rol de perguntas perante uma análise face aos resultados obtidos.
O que é aprendizagem? É o processo através do qual o organismo muda o seu comportamento, de um modo estável e duradouro. Mas a pergunta permanece: porque é que existem as dificuldades de aprendizagem? As causas poderão ser a ausência ou o uso inapropriado de estratégias e/ou hábitos de estudo favoráveis à aprendizagem. Podem ser devido a:
Factores externos, por exemplo, tempo de aprendizagem insuficiente, método inadequado na aprendizagem daquela temática, clima desfavorável em que se procedeu a aprendizagem,etc..
Factores internos, nomeadamente, ansiedade que se vive no momento da aprendizagem, conhecimentos insuficientes para superar a tarefa, etc.
Para ter sucesso na aprendizagem, deverás ter em conta o uso de estratégias adequadas à tarefa bem como as orientações motivacionais (que te permitem tomar consciência dos objectivos, processos e meios facilitadores de aprendizagem e tomar decisões apropriadas sobre as estratégias a utilizar em cada tarefa e como as modificar caso se revelem pouco eficazes).
O que é uma estratégia de aprendizagem? É o plano formulado pelo estudante para atingir os seus objectivos, ou seja, um procedimento adoptado para a realização de determinada tarefa. Então, o que fazer para escolher uma boa estratégia? Varia de pessoa para pessoa, mas há estratégicas básicas, nomeadamente:
- desenvolver hábitos de trabalho;
- organizar-se através de uma boa gestão do tempo, ou seja, proceder a uma calendarização das tarefas por prioridades e cumprir os objectivos traçados;
- assistir às aulas, tirar o máximo de apontamentos (tirar notas e exemplos dados na aula) e posteriormente resumir as ideias principais;
- ler e aprofundar o tema, sublinhando as partes essenciais, colocando questões, elaborando fichas de síntese, até mesmo arranjando mnemónicas;
- resolvendo algumas questões, respondendo a situações de avaliação (antecipação de dificuldades), tentando controlar a ansiedade começando por responder às perguntas mais fáceis e ir progressivamente às mais difíceis;
- auto-avaliação, isto é, deverás fazer o confronto entre os objectivos inicialmente traçados e os resultados obtidos: como estou a reagir à tarefa? o que preciso de fazer? qual é o meu problema? estou a conseguir o que queria? o estudo efectuado foi satisfatório? respondi às questões apresentadas? Caso negativo, qual o aspecto que falhou ou a que dei menos ênfase? O que preciso de mudar?

Cada estudante deverá ter um conhecimento de si próprio, se é muito ou pouco organizado, se prefere sintetizar (resumir) ou, pelo contrário, desenvolver o tema e estudar nesse mesmo texto, etc. e assim escolher as estratégias que melhor se adaptam a si e a cada matéria.

Concentração
Se o problema é falta de concentração, poderás “pensar em voz alta”, usar períodos mais curtos e, no final de cada período, fazer um resumo ou avaliação acerca do estudo efectuado. Contudo, deverás primeiramente fazer o levantamento dos factores ou estímulos do meio que te dificultam a atenção e concentração (estudar em cima da cama, com a televisão/rádio ligados, na sala com outros familiares a conversarem, etc.). Depois de identificados, pensa como os podes evitar.
Ter um local destinado exclusivamente ao estudo, com o material necessário por perto, retirando tudo aquilo que sabes que te pode distrair. O que estás aqui a fazer é a criar um clima mais favorável para o estudo.

Atenção
Deverás também questionar quais os motivos da falta de atenção nas aulas. Geralmente é devida a barulho na sala, falar com os colegas, falta de interesse pelo tema, “sonhar acordado”.
Pensa nas vantagens de estares atento nas aulas: aprendizagem, exemplos dados pelo professor e ênfase dado a determinados aspectos da matéria.

Motivação
E se a questão é falta de motivação? Motivação é o impulso para agir em direcção a um determinado objectivo. Quando se está motivado, a persistência, o tempo e a determinação aumentam mesmo quando surgem dificuldades e assim é-se bem sucedido o que vai aumentar a sua autoconfiança e auto-estima.
Quando surge a desmotivação – e isso reflecte-se quando não fazes os trabalhos de casa – não consegues estudar de uma forma independente, adias constantemente as tarefas, etc.; o que fazer? Muitas vezes o grau de desmotivação não depende da realização da tarefa, mas sim da leitura e dos pensamentos que o estudante faz sobre essa mesma situação.
Deverás proceder a uma auto-avaliação e substituir os pensamentos negativos por positivos:
- “não vou conseguir” – pensar nas diversas situações em que já foste bem sucedido;
- “não vou aguentar, é imensa coisa” – deverás fazer uma planificação e hierarquização das tarefas de acordo com os horários, podes fragmentar o estudo;
- “falta-me a motivação” – é possível contrariar esse estado de inércia, de apatia e de resistência trabalhando.
- “não vou arranjar vontade” – não esperar inspiração; começar já a trabalhar e ela surge, como acontece com o exercício físico, não apetece fazer mas, quando começa e após alguns minutos já há mais envolvimento, o que aumenta a motivação.

O que acabaste de fazer foi uma reestruturação cognitiva, em que desautomatizaste os pensamentos negativos automáticos, passaste-os para um modo mais construtivo e positivo de encarar esta problemática. “Mais importante do que aprender, é aprender a aprender” criando métodos e hábitos de estudo/trabalho e aplicá-los no teu dia-a-dia.

Ansiedade
Para combateres a ansiedade antes dos testes faz revisões periódicas um tempo antes e depois revisões intensivas... depois a final. Após o teste faz uma análise, isto é, caso tenhas cometido alguns erros, tenta perceber a causa (má leitura do enunciado, falta de atenção, erro de interpretação, etc.) e ver o que podes melhorar. No caso de teres obtido um bom resultado, deverás fazer um auto-reforço.

Avaliação
Em situações de avaliação, pensa: “eu dei o meu máximo, empenhei-me, portanto estou tranquilo”. Deverás fazer alguns exercícios de relaxamento, como respirar fundo diversas vezes e começar a tua prova lendo com calma percebendo com atenção o que é pedido e mentalmente associar-lhe a matéria estudada. Começa pelas questões mais fáceis.

Sê um bom detective...procura a maneira que te ajude a compreender melhor os assuntos e tenta envolver-te no processo de aprendizagem, fazendo uma abordagem de estudo mais elaborada. A prática é igualmente muito importante, pensa naquilo que aprendeste.
Não desanimes. Com energia, determinação e entusiasmo, escolhe as estratégias que melhor se adaptam a ti e vais ver que conseguirás. Bom trabalho e confiança! Tu és capaz!

 

Copyright ã 2000 - Saúde & Lar. Todos os direitos reservados Isabel Lacerda