Vida Familiar / Dezembro 2003

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Óscar Wilde, escritor irlandês do século XIX, na sua obra O Retrato de Dorian Gray, narrou a história de um jovem que vê o seu retrato pintado por um artista. Nada teria a obra de especial, não fosse o facto de a pintura ter uma característica fantasiosa verdadeiramente excepcional: adoptava no seu rosto os erros, crimes e pecados que Dorian cometia, enquanto ele próprio vivia sempre saudável e jovem. Este conto fantástico quer, de uma forma ficcionada, argumentar a possibilidade de poder viver a vida de um modo intemperante e desequilibrado, mas a coberto, sem que os outros nos conheçam os actos e os pensamentos. No entanto, deixa a mensagem de que toda a nossa vida fica registada na nossa consciência, ilustrada pelo retrato da história. O retrato, visto em privado exclusivamente por Gray, servia de um tipo de espelho, que, pela degradação do rosto, demonstrava a degradação moral do original.

 

É muito interessante reflectir neste assunto, já não de modo ficcionado, mas agora na vida prática de cada um: existirá um espelho moral de quem somos? Obviamente que sim. A saúde física, salvo em casos excepcionais, é uma consequência directa do tipo de prevenção aplicada para a manter. O equilíbrio familiar, novamente salvaguardadas as excepções, retrata o investimento que realizamos no relacionamento com os que nos são mais próximos. Daí que possamos considerar que, mais cedo ou mais tarde, a nossa vida seja um verdadeiro reflexo das opções e dos comportamentos que adoptamos, relativamente à saúde e ao equilíbrio. Mas existe um outro tipo de espelho, que dá uma imagem mais nítida ou mais distorcida de quem somos, mas que não deixa de ser a nossa imagem; que vai ganhando, com o tempo, vida autónoma e reflexos independentes, mas que, como fundo, continua a reflectir uma imagem original, primeira e mais presente do que todas as outras. É verdade, prezado Leitor. Se está neste momento a pensar que o espelho que mais reflecte quem somos, a seguir à vida que vivemos, são os nossos filhos, está a pensar bem. Nada diz mais sobre quem somos, como indivíduos e como sociedade, do que a educação que damos às crianças e aos jovens. Partindo de que a personalidade influencia a educação que damos aos filhos, isso significa que, para os ajudarmos a crescer rumo ao potencial que podem atingir, teremos de nos tornar em verdadeiros exemplos, não só dos comportamentos que pedimos que tenham, mas das pessoas que gostaríamos que eles fossem. Todas as crianças e jovens de hoje seguirão o seu próprio curso, e ainda bem que assim é. A nossa personalidade não é só formada pela educação e socialização que recebemos das instituições responsáveis pela nossa formação, como a família e a escola. Mas, mesmo assim, na formação da personalidade e na sua adaptação a uma vivência saudável, pessoal e social, há um conjunto de adquiridos que passam de geração em geração, de pais para filhos, que se tornam base comportamental para toda a vida.

 

Quando o seu filho olha para si, vê a pessoa que lhe pede para ser?
É verdade que, ao não assumirmos os comportamentos que aconselhamos aos nossos educandos, podemos pedir-lhes para olharem para o que dizemos e não para o que fazemos. Só que estaremos a dar um indicador claro de que não conseguimos viver à altura do que exigimos, que o que aconselhamos não é tão determinante como fazemos crer e, mais importante ainda, não estamos nós próprios a colher os benefícios de um estilo de vida que temos a certeza ser o melhor. Vejamos alguns exemplos.

 

Consenso – Já alguma vez falou seriamente com o seu filho, procurando ouvi-lo sobre a pessoa que ele espera ser e a pessoa que espera que ele seja, discutindo com abertura os processos educacionais para atingir os objectivos? É muito importante ter um pequeno número de princípios firmes de educação, que o seu filho tem de entender claramente. Mas é também importante discutir os planos de vida, os meios educacionais para os atingir e o papel das regras, direitos e obrigações que os colocam em prática.

 

Educação e comportamento – Não espere que o seu filho se comporte, em casa ou em sociedade, como um exemplo de apresentação e boas maneiras, se essa não for a atitude normal dentro do lar. Um comportamento calmo requer uma educação tranquila, na qual o subir de tom de voz, o impropério e a agressão física são recursos evitados. O clima de segurança, leveza e elevação que conseguir instalar em sua casa serão apreendidos pelo seu filho como naturais e torná-lo-ão alguém que saberá comportar-se apropriadamente em qualquer situação.

Um comportamento calmo requer uma educação tranquila, na qual o subir de tom de voz, o impropério e a agressão física são recursos evitados.
Integração Com certeza que é um educador atencioso aos problemas que o seu filho enfrenta e às decisões que ele tem de tomar. Mas permite que ele participe nos problemas e nas decisões que toda a família encara? Os sentimentos de integração, de pertença e de cumplicidade são fundamentais para que ele reconheça no seu lar um refúgio, o qual ele deve proteger e ao qual deve recorrer em caso de necessidade. Haverá momentos da vida dele em que isto pode fazer a diferença…
 

Respeito pela individualidade – O seu filho é, antes de mais, um ser humano. Alguém que, tal como os pais, tem direitos inalienáveis, como são o direito à diferença e o direito à privacidade. Não é pelo facto de amar o seu filho e procurar o melhor para ele que pode exigir que ele seja um seu clone. Nem é por apreciar a sua companhia que pode exigir a sua presença constante. Quanto mais o seu filho se sentir respeitado na sua individualidade e no seu espaço, mais frequente e espontaneamente o verá como uma óptima companhia.

 

Solidariedade e partilha – Ser solidário, ou seja, fazer sentir que se está incondicionalmente ao lado de alguém, é determinante no crescimento de qualquer relacionamento. Entre pais e filhos, este aspecto adquire ainda mais significado e importância. Mas tem partilhado o suficiente com ele para que possa ser o seu filho a mostrar-se solidário? Já lhe demonstrou que também tem problemas, dúvidas, remorsos, sofrimentos, e que ele é uma peça importante na sua vida? Tem feito o seu filho sentir-se especial e útil no apoio à sua caminhada pessoal e à vivência familiar?

 

Honestidade e civismo – Sim, eu sei que é difícil quando se recebe um bilhete da escola a dizer que o nosso menino foi apanhado a copiar no teste… Tem de o fazer sentir as consequências do acto de quebrar a lei e, mais importante, o princípio que a lei representa. Por isso ganha tanto significado cada fuga ou contorno que procuramos fazer à lei e à ordem. Quando se passa o limite de velocidade na estrada, ou se mete aquela despesa irreal nos impostos, ou se fura a fila nos correios porque se tem pressa para ir ao futebol, está a dar-se uma noção clara de que a lei existe para cumprir… pelos outros. Não espere um cidadão-modelo do seu filho se só lhe deu um modelo enviezado.

 

Hábitos em casa – Este é simples… mas um pouco difícil de aplicar. Se o leitor é um esteio ou um apoio nas tarefas domésticas, participa das refeições a horas certas e faz desse momento uma festa diária, não exagera no tempo televisivo e privilegia os momentos em conjunto, tem hábitos de trabalho e de descanso equilibrados e retemperadores, então… parabéns! Está pronto para exigir o mesmo dos seus filhos!

 

Não somente explique quais os reais benefícios de uma alimentação equilibrada, do exercício físico, da vida ao ar livre, do descanso e da higiene, como também experimente em si próprio as mudanças positivas destes hábitos na sua vida.

 

Saúde e alimentação – Quanto melhor o seu filho compreender e verificar na prática os resultados de hábitos saudáveis, mais voluntariamente os colocará em prática. Não somente explique quais os reais benefícios de uma alimentação equilibrada, do exercício físico, da vida ao ar livre, do descanso e da higiene, como também experimente em si próprio as mudanças positivas destes hábitos na sua vida. Só tem a ganhar!

 

Dependências – Sinceramente: acha que tem algum efeito um pai alertar o seu filho adolescente para os malefícios do álcool e do tabaco, com um whisky na mão e a fumar charuto?! É quase caricato de tão incoerente. Evite fazer tudo o que não deseja que o seu filho faça: fumar, beber, tomar comprimidos ou drogas desnecessárias. Para além de se ajudar a ser mais saudável, ganha uma legitimidade moral exemplar.

 

Consumo – O consumo, principalmente quando incontrolado, é um dos maiores problemas da juventude actual. Dignificar o trabalho e valorizar os seus frutos é uma atitude pedagógica necessária para a compreensão de que nem tudo se pode ter e que se deve dar o valor devido ao que se tem. Poupar-se-ão exageros e frustrações futuros. Procure não “embarcar” em consumos compulsivos e desregrados. Encontre as escolhas certas para si e para a sua família. Se acha a sua filha demasiado vaidosa e se quer que o seu filho leia, pense bem: quando foi a última vez que entrou com eles numa livraria? E numa loja de moda?

 

Se nós nos pudéssemos ver como as crianças nos vêem, iríamos tomar consciência da dificuldade que teriam em ser o que delas esperamos. Só nos resta uma alternativa: procurar, com determinação, sermos nós esses modelos.S&L

 

Paulo Sérgio Macedo, Director da revista para Adolescentes ZY

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