A Satisfação da necessidades como Plataforma de Resolução de Problemas
Introdução
No ano 2004 comemora-se a passagem do décimo aniversário do Ano
Internacional da Família. Esta relevância dada à Família merece todo o apoio
numa revista como a Saúde e Lar que, ano após ano, elege a família como
merecedora da sua produção editorial. Iniciada em Janeiro uma série de artigos
dedicados especialmente à saúde da família, este mês prosseguimos olhando para o
binómio Família-toxicodependência.
Quando questionamos a razão da toxicodependência1, a questão da motivação é
incontornável: o que motiva uma pessoa a enveredar pelo caminho da
toxicodependência? Porque não encontram os toxicodependentes motivação
suficiente para se libertarem da sua prisão? Que contributos podem dar as
famílias dos toxicodependentes para os auxiliarem a libertar-se da sua prisão?
Iremos olhar para esta questão, seguindo uma linha que pensamos ser fundamental
na questão da toxicodependência e que condiciona não só o seu surgimento, mas
também a sua cessação. É na conflitualidade do lar que nascem muitos
toxicodependentes e, por isso, em lugar de atacar este flagelo social com outras
medidas, privilegiamos aqui a fonte do problema, olhando para as oportunidades
com que nos deparamos para o vencer.
A motivação humana e as suas teorias explicativas
Existem várias teorias que tentaram explicar o que gere, condiciona e provoca a
motivação humana. Os psicólogos têm dado muita importância à pirâmide das
necessidades de Abraham Maslow (embora outros investigadores, tais como,
Frederick Herzberg, Clayton Alderfer e David McClelland tenham desenvolvido
outros modelos muito interessantes sobre a motivação humana). (Ver quadro 1).
Centremo-nos na pirâmide de Maslow para perceber como este género de construções
podem induzir a muitos conflitos desnecessários.
Maslow, ao analisar a motivação humana, determinou que as necessidades do ser
humano estão organizadas e dispostas em níveis hierárquicos, de acordo com três
pressupostos:
Princípio da dominância – a necessidade básica não satisfeita não exerce
influência no comportamento do indivíduo.
Princípio da hierarquia – as necessidades agrupam-se por hierarquias.
Princípio da emergência – só quando as necessidades dos níveis inferiores
estiverem satisfeitas é que as necessidades de níveis superiores emergem como
motivadoras.
Neste contexto, são distinguidas necessidades primárias e necessidades
secundárias.
1.
Necessidades primárias: Necessidades Fisiológicas e Necessidades de
Segurança.
2. Necessidades secundárias: Necessidades Sociais de Estima e de
Auto-realização.
A não satisfação de qualquer uma destas necessidades pode ocasionar conflito
familiar, dizem os que trabalham com base neste modelo.
Uma observação mais cuidada do comportamento humano, independente do paradigma
evolucionista que determinou esta leitura de Maslow, revela, no entanto, que a
explicação correcta das motivações encontra-se – quanto muito – nesta pirâmide,
mas se ela for invertida. Por isso um dos equívocos básicos em muitos casamentos
geradores de conflitos é a ideia que muitos maridos têm, de que se trouxerem
para casa o seu salário e derem casa e abrigo à sua família (satisfação das
necessidades básicas), cumpriram o seu dever, pois satisfizeram as suas
necessidades.
Regra da resolução de conflitos: um casal é muito mais do que a satisfação das
necessidades básicas, e isso pode mesmo ser desprezado se as necessidades do
topo da pirâmide não forem satisfeitas. Uma mulher precisará mais de ouvir o seu
marido dizer-lhe “amo-te”, do que de andar num carro último modelo quando sai
com ele.
Não são poucos os casos conhecidos de pessoas vítimas da toxicodependência que
tinham as suas necessidades básicas satisfeitas. Então o que os levou a
enveredar pelo caminho da droga?
Tomemos como exemplo o tabagismo, droga socialmente aceite, cujo consumo é
suportado pelos nossos impostos, e cujas consequências têm um peso
importantíssimo sobre o orçamento do ministério da saúde (quando consideramos
todas as doenças que são potenciadas, despoletadas e a incapacidade originada
pelo seu consumo).
Quando
se tenta perceber a motivação que levou alguém a fumar pela primeira vez,
raramente a categoria das necessidades primárias de Maslow emerge como quadro
explicativo. Vulgarmente encontramos nos quarto ou terceiro níveis, as
explicações profundas da motivação do consumo do primeiro cigarro: satisfação de
necessidades de estima, e necessidades sociais: a necessidade de reconhecimento
pelos outros, de integração no grupo de amigos, são as razões de topo do início
do tabagismo. Só mais tarde, muito mais tarde, aparecem as necessidades
primárias como motivadoras do consumo de tabaco, particularmente as necessidades
fisiológicas, nas quais se insere a dependência química nicotínica (alavanca que
leva o fumador ao cigarro sem que a vontade consciente possa gerir o hábito).
Assim, como podemos compreender por este exemplo, é na inversão da pirâmide de
Maslow (ver quadro 2) que se consegue encontrar alguma razão que explique a
motivação humana. Ora, quer no campo da conflitualidade familiar, quer noutros
campos da vida humana, deveríamos ter em especial atenção as necessidades de
auto-realização e auto-satisfação dos que nos rodeiam, pois estas serão
baluartes muito difíceis de destruir na protecção de qualquer pessoa contra
factores que podem perturbar o seu bem-estar. Um casal que se sinta realizado,
não vivenciará os conflitos familiares do mesmo modo que um casal não realizado.
Um jovem que se sinta auto-satisfeito, não precisará de um cigarro para sentir a
satisfação da cumplicidade dos seus amigos do bairro.
Olhemos, por isso, com atenção redobrada, para a satisfação das necessidades dos
níveis 5, 4 e 3 desta pirâmide de Maslow, antes de nos fixarmos nos níveis
inferiores, que não serão modelo explicativo correcto do comportamento humano em
todas as circunstâncias. S&L
Bibliografia:
DEBESSE, M., Pedagogie et
Psicologie des Groupes, Editions de L’Epi, Paris 1975
Continua
1 - continuação do número anterior
Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde,
Mestre em Saúde Pública