Comportamento / Abril 2004

Os Fundamentos da Intimidade

As relações de uma família são consideradas íntimas, não por causa das trocas sexuais, mas por causa das trocas de intimidades, confidências, segredos que só revelamos a quem confiamos. É dentro dessa massa íntima, chamada família, que aprendemos a procurar ajuda e recebemos apoio. Aprendemos a regular as nossas emoções para não sofrer demais quando saímos para enfrentar o mundo, o desconhecido, os estranhos. Mais especificamente, aprendemos a regular as nossas emoções para facilitar as aproximações na procura apropriada da ajuda necessária e no recebimento gracioso do apoio.
É no berço da família que aprendemos as primeiras letras das futuras relações íntimas que estabeleceremos. Quando não a temos, ou ela é desequilibrada, cabe-nos a obrigação de aprender com outras fontes que nos ensinam os fundamentos de uma relação íntima, um casamento satisfatório, uma interacção crescente. Os fundamentos dessa aprendizagem são simples: reconhecimento da própria carência, regulação das próprias emoções, abertura e envolvimento.

Carências Pessoais
Vamos começar pelo reconhecimento da própria carência. Isso significa reconhecer a fragilidade própria. É a aceitação da insuficiência para caminhar sozinho pela estrada da vida. É a admissão de uma série de necessidades, como carinho, estima e reconhecimento, que só vêm da outra pessoa. Para se sentir realizado, todo o ser humano precisa de passar por certas tarefas, entre as quais estão o relacionamento com o sexo oposto e a constituição da própria família, que pode ser apenas um acto reprodutivo ou o estabelecimento de uma relação íntima.
Acredita-se que uma das grandes fontes de satisfação e saúde é o indivíduo poder contar com o apoio de quem ama em todas as circunstâncias. Por outras palavras, acredita-se que precisamos de ser aquilo que somos, em qualquer lugar onde estivermos. Inclusive e especialmente na presença do cônjuge.
Uma grande fonte de ameaça à integridade emocional e física do indivíduo são a rejeição e a crítica, o desprezo e a indiferença. A rejeição, nas suas mais variadas manifestações, inibe, tolhe e comprime a pessoa, levando-a a perder a espontaneidade. Ela não expressa abertamente os sentimentos, desejos ou pensamentos. Não pode ser o que é, porque teme a dor profunda e crónica da rejeição e da não correspondência.

 O Ponto de Partida
Reconhecemos a nossa carência quando percebemos as nossas fontes de satisfação e de ameaças. Ao reconhecê-las e aceitá-las, crescemos e qualificamo-nos para ser uma pessoa melhor, mais humana e com os pés no chão. O não reconhecimento dessas fontes confunde e eleva à irritabilidade e agressividade desnecessárias. Tais condições envenenam as relações íntimas.
Na realidade, o que estou a tentar dizer é que somos o ponto de partida. Nós definimos a qualidade da relação que estabelecemos com o nosso cônjuge. Contribuímos activa ou passivamente para o que acontece na nossa vida conjugal. Para melhorá-la, não podemos esperar pelo outro. Devemos tomar a iniciativa. Se mudarmos, o outro vai corresponder.
Tendo consciência da nossa participação nas relações conjugais, familiares ou íntimas, vem a compreensão de que as emoções precisam de ser reguladas. Tanto as emoções negativas como as positivas precisam de ser administradas, distribuídas ou controladas. São os nossos sentimentos que tornam o nosso bem-estar agradável ou desagradável. Emoções bem reguladas equivalem a uma qualidade de vida mais satisfatória e mais tranquila ou pacífica. É para alcançar bem-estar, ou para sofrer menos quando adultos, que os pais instruem os filhos a regular os sentimentos.

Amizade Cultivada
Quando a pessoa não aprende a partilhar humor, a confortar, a brincar, a cuidar e a respeitar, ela não consegue estabelecer relações conjugais satisfatórias. É aprendendo a lidar com as subtilezas dos sentimentos próprios e dos outros que desenvolvemos a sensibilidade necessária para um bom relacionamento. Na falta da subtileza sentimental, a pessoa pode magoar-se a si mesma e aos demais, sem saber.
Uma das maiores fontes de satisfação e duração do relacionamento do casal é o cultivo da intimidade. Para atingir essa fonte é necessário passar pela porta que abrimos aos sentimentos, pensamentos, desejos, caprichos, sonhos e desilusões. É a porta que abrimos para o outro poder compreender a plenitude da pessoa que somos, para permitir a entrada do companheirismo e a saída do isolamento. É preciso respeitar o simbolismo. Abrimos uma porta; não derrubamos todas as paredes. A nossa abertura nunca é total. A abertura total significa perder a individualidade e a autonomia.
Quando abrimos a porta corremos o risco do medo da incerteza, mas arriscamos assim mesmo, convictos de que é a melhor direcção a seguir para uma relação compensadora. Nunca saberemos tudo. Mas nem precisamos de saber tudo, porque temos a sensação da incerteza. O risco da dúvida é mais emocionante do que a garantia dos resultados. Ela mobiliza a energia da procura. O risco da abertura pode não trazer os resultados esperados. É um risco até perigoso, mas sem o corrermos tornamos a vida monótona e infeliz.
 

Sigilo e Abertura
Mesmo tendo que correr o risco da abertura, é bom tomar cuidado com dois aspectos: o que vamos revelar e a quem nos vamos abrir. Se nos abrirmos para quem nos inveja, nos rejeita, ignora, diminui ou desvaloriza, estamos a chamar o sofrimento. Além disso, o outro pode não estar preparado para nos receber, ouvir, dar atenção. Portanto, é mais seguro abrir-se somente para quem nos aprecia, admira, acolhe e ama. Não há pessoa melhor do que um cônjuge receptivo e compreensivo.
O que vamos revelar ao outro é de nossa responsabilidade; afinal, controlamos o fluxo de informações que queremos dar, a menos que não tenhamos o controlo da nossa própria língua. Abertura não significa revelação total. Manter sigilo não é sinónimo de mentir, nem de desonestidade. O silêncio, às vezes, é mais nobre do que as palavras, desde que não façamos uso dele como punição ao outro. Exigir a confissão de cada pensamento, palavra ou acto do cônjuge é uma forma de o transformar num robot e de exercer pleno controlo sobre ele. Tal condição é incompatível com a intimidade de duas pessoas que se amam.
Abrir-se um para com o outro é criar o clima do Céu na Terra. Poucos conseguem, mas é acessível a todos. Basta um investimento por parte de ambos no ingrediente indispensável da intimidade: uma abertura livre de coacções e chantagens, espontânea e suave, com muita ternura e delicadeza; que não invada nem ultrapasse os limites da individualidade do cônjuge; onde há respeito pelo ritmo de cada um.
Outro alicerce da intimidade do casal é o envolvimento. É fazer a coisa acontecer. É tomar a iniciativa para criar as situações ideais para as trocas necessárias ao convívio feliz. É abraçar o outro como se fossemos nós mesmos, transmitindo e sentindo o auge do calor humano. O envolvimento não se apoia em preguiça, desculpas e fingimentos. É acção e honestidade juntas. É a parte mais trabalhosa da relação, onde cada um executa o que diz, dá o que pode e cumpre o que promete.
Sem o envolvimento não corrigimos os erros, não saímos do fracasso, não cumprimos o contrato, não abandonamos o vício, não criamos intimidade no casal. Por outro lado, se nos envolvemos, geramos mudanças positivas, criamos o progresso, contribuímos para aprofundar sentimentos mútuos. Produzimos a intimidade através do envolvimento. Mais do que tudo, conquistamos a felicidade. Vale a pena experimentar. S&L

Belisário Marques
Psicólogo
 

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