Os Fundamentos da Intimidade
As relações de uma família são consideradas íntimas, não por causa das trocas
sexuais, mas por causa das trocas de intimidades, confidências, segredos que só
revelamos a quem confiamos. É dentro dessa massa íntima, chamada família, que
aprendemos a procurar ajuda e recebemos apoio. Aprendemos a regular as nossas
emoções para não sofrer demais quando saímos para enfrentar o mundo, o
desconhecido, os estranhos. Mais especificamente, aprendemos a regular as nossas
emoções para facilitar as aproximações na procura apropriada da ajuda necessária
e no recebimento gracioso do apoio.
É no berço da família que aprendemos as primeiras letras das futuras relações
íntimas que estabeleceremos. Quando não a temos, ou ela é desequilibrada,
cabe-nos a obrigação de aprender com outras fontes que nos ensinam os
fundamentos de uma relação íntima, um casamento satisfatório, uma interacção
crescente. Os fundamentos dessa aprendizagem são simples: reconhecimento da
própria carência, regulação das próprias emoções, abertura e envolvimento.
Carências Pessoais
Vamos começar pelo reconhecimento da própria carência. Isso significa reconhecer
a fragilidade própria. É a aceitação da insuficiência para caminhar sozinho pela
estrada da vida. É a admissão de uma série de necessidades, como carinho, estima
e reconhecimento, que só vêm da outra pessoa. Para se sentir realizado, todo o
ser humano precisa de passar por certas tarefas, entre as quais estão o
relacionamento com o sexo oposto e a constituição da própria família, que pode
ser apenas um acto reprodutivo ou o estabelecimento de uma relação íntima.
Acredita-se que uma das grandes fontes de satisfação e saúde é o indivíduo poder
contar com o apoio de quem ama em todas as circunstâncias. Por outras palavras,
acredita-se que precisamos de ser aquilo que somos, em qualquer lugar onde
estivermos. Inclusive e especialmente na presença do cônjuge.
Uma grande fonte de ameaça à integridade emocional e física do indivíduo são a
rejeição e a crítica, o desprezo e a indiferença. A rejeição, nas suas mais
variadas manifestações, inibe, tolhe e comprime a pessoa, levando-a a perder a
espontaneidade. Ela não expressa abertamente os sentimentos, desejos ou
pensamentos. Não pode ser o que é, porque teme a dor profunda e crónica da
rejeição e da não correspondência.
O Ponto de Partida
Reconhecemos a nossa carência quando percebemos as nossas fontes de satisfação e
de ameaças. Ao reconhecê-las e aceitá-las, crescemos e qualificamo-nos para ser
uma pessoa melhor, mais humana e com os pés no chão. O não reconhecimento dessas
fontes confunde e eleva à irritabilidade e agressividade desnecessárias. Tais
condições envenenam as relações íntimas.
Na realidade, o que estou a tentar dizer é que somos o ponto de partida. Nós
definimos a qualidade da relação que estabelecemos com o nosso cônjuge.
Contribuímos activa ou passivamente para o que acontece na nossa vida conjugal.
Para melhorá-la, não podemos esperar pelo outro. Devemos tomar a iniciativa. Se
mudarmos, o outro vai corresponder.
Tendo consciência da nossa participação nas relações conjugais, familiares ou
íntimas, vem a compreensão de que as emoções precisam de ser reguladas. Tanto as
emoções negativas como as positivas precisam de ser administradas, distribuídas
ou controladas. São os nossos sentimentos que tornam o nosso bem-estar agradável
ou desagradável. Emoções bem reguladas equivalem a uma qualidade de vida mais
satisfatória e mais tranquila ou pacífica. É para alcançar bem-estar, ou para
sofrer menos quando adultos, que os pais instruem os filhos a regular os
sentimentos.
Amizade Cultivada
Quando a pessoa não aprende a partilhar humor, a confortar, a brincar, a cuidar
e a respeitar, ela não consegue estabelecer relações conjugais satisfatórias. É
aprendendo a lidar com as subtilezas dos sentimentos próprios e dos outros que
desenvolvemos a sensibilidade necessária para um bom relacionamento. Na falta da
subtileza sentimental, a pessoa pode magoar-se a si mesma e aos demais, sem
saber.
Uma das maiores fontes de satisfação e duração do relacionamento do casal é o
cultivo da intimidade. Para atingir essa fonte é necessário passar pela porta
que abrimos aos sentimentos, pensamentos, desejos, caprichos, sonhos e
desilusões. É a porta que abrimos para o outro poder compreender a plenitude da
pessoa que somos, para permitir a entrada do companheirismo e a saída do
isolamento. É preciso respeitar o simbolismo. Abrimos uma porta; não derrubamos
todas as paredes. A nossa abertura nunca é total. A abertura total significa
perder a individualidade e a autonomia.
Quando abrimos a porta corremos o risco do medo da incerteza, mas arriscamos
assim mesmo, convictos de que é a melhor direcção a seguir para uma relação
compensadora. Nunca saberemos tudo. Mas nem precisamos de saber tudo, porque
temos a sensação da incerteza. O risco da dúvida é mais emocionante do que a
garantia dos resultados. Ela mobiliza a energia da procura. O risco da abertura
pode não trazer os resultados esperados. É um risco até perigoso, mas sem o
corrermos tornamos a vida monótona e infeliz.
Sigilo e Abertura
Mesmo tendo que correr o risco da abertura, é bom tomar cuidado com dois
aspectos: o que vamos revelar e a quem nos vamos abrir. Se nos abrirmos para
quem nos inveja, nos rejeita, ignora, diminui ou desvaloriza, estamos a chamar o
sofrimento. Além disso, o outro pode não estar preparado para nos receber,
ouvir, dar atenção. Portanto, é mais seguro abrir-se somente para quem nos
aprecia, admira, acolhe e ama. Não há pessoa melhor do que um cônjuge receptivo
e compreensivo.
O que vamos revelar ao outro é de nossa responsabilidade; afinal, controlamos o
fluxo de informações que queremos dar, a menos que não tenhamos o controlo da
nossa própria língua. Abertura não significa revelação total. Manter sigilo não
é sinónimo de mentir, nem de desonestidade. O silêncio, às vezes, é mais nobre
do que as palavras, desde que não façamos uso dele como punição ao outro. Exigir
a confissão de cada pensamento, palavra ou acto do cônjuge é uma forma de o
transformar num robot e de exercer pleno controlo sobre ele. Tal condição é
incompatível com a intimidade de duas pessoas que se amam.
Abrir-se um para com o outro é criar o clima do Céu na Terra. Poucos conseguem,
mas é acessível a todos. Basta um investimento por parte de ambos no ingrediente
indispensável da intimidade: uma abertura livre de coacções e chantagens,
espontânea e suave, com muita ternura e delicadeza; que não invada nem
ultrapasse os limites da individualidade do cônjuge; onde há respeito pelo ritmo
de cada um.
Outro alicerce da intimidade do casal é o envolvimento. É fazer a coisa
acontecer. É tomar a iniciativa para criar as situações ideais para as trocas
necessárias ao convívio feliz. É abraçar o outro como se fossemos nós mesmos,
transmitindo e sentindo o auge do calor humano. O envolvimento não se apoia em
preguiça, desculpas e fingimentos. É acção e honestidade juntas. É a parte mais
trabalhosa da relação, onde cada um executa o que diz, dá o que pode e cumpre o
que promete.
Sem o envolvimento não corrigimos os erros, não saímos do fracasso, não
cumprimos o contrato, não abandonamos o vício, não criamos intimidade no casal.
Por outro lado, se nos envolvemos, geramos mudanças positivas, criamos o
progresso, contribuímos para aprofundar sentimentos mútuos. Produzimos a
intimidade através do envolvimento. Mais do que tudo, conquistamos a felicidade.
Vale a pena experimentar. S&L
Belisário Marques
Psicólogo