Quando vou visitar os meus netos de três, quatro anos, logo a seguir aos
beijinhos, eles pedem: “Avó, tira o casaco e senta-te aqui” (no chão ou no
sofá). Depois, vão buscar um livro ou uma cassete de vídeo e pedem para os
vermos juntos.
Existe, nos dias de hoje, uma diversidade de literatura infantil que não existia
há alguns anos atrás e que se encontra à disposição das crianças em grandes
quantidades. Estamos a falar de crianças pertencentes a lares de classe média ou
alta. Adquirir literatura para crianças já faz parte das preocupações dos seus
progenitores, professores e até de familiares e amigos, não só em datas
especiais, mas até como um presentinho a propósito de uma simples visita.
Falar de literatura infantil não é tarefa fácil, uma vez que a variedade é
bastante, e, nesse sentido, terá de se fazer uma apreciação diferenciada, entre
a que é aconselhável e a que não é conveniente.
A literatura infantil, teve início por volta dos finais do século XVIII. Até aí,
as crianças tinham à sua disposição apenas a literatura que era utilizada pelos
adultos, como a Bíblia, o Catecismo, a vida dos “Santos” e livros de boas
maneiras que apelavam, sobretudo, ao bom comportamento moral. Um dos géneros
literários existentes desde a antiguidade que nunca perdeu o interesse é a
Fábula, que teve origem com o grego Esopo, antes de Cristo, depois com Fedro,
contemporâneo de Cristo, e, muito mais tarde, por volta dos meados do século
XVII, com Jean de La Fontaine e as suas célebres e interessantes fábulas. Na
segunda metade do século XIX, houve um despertamento por parte dos pais que,
considerando a literatura infantil de grande importância e um auxiliar relevante
na educação, passavam bastante tempo lendo para os seus filhos.
Infelizmente, nos nossos dias, os bons hábitos de leitura perderam-se e uma
grande parte dos pais de hoje, em vez da indispensável recolha de informação
sobre os conteúdos, dão especial atenção às solicitações das suas crianças, já
acostumadas às ilustrações assustadoras e às cenas violentas, na certeza de que,
assim, poderão dispor de algum tempo sem que sejam importunados. Adquirem
literatura imprópria, mas que lhes garante algum “descanso”. Vivemos numa época
em que os autores estão bastante preocupados com o aspecto económico: o
importante é que o livro editado interesse à criançada, responda às solicitações
a que está habituada e, portanto, atinja o máximo de vendas. Para cumprir estes
objectivos, publica-se muita literatura inadequada, uma vez que a população a
que se destina a aceita de bom grado e até lhe dá preferência, em detrimento
daquela que deveria responder a assuntos de natureza pedagógica, abrangendo
aspectos morais, religiosos, sociais (tão afastados da realidade em que estamos
inseridos).
Até na escolha dos manuais escolares, nós, os professores, empregamos grande
esforço para seleccionar os que, entre todos, são de mal menor. Mesmo assim
correndo o risco de não conseguir encontrar um único que não contenha textos em
que as fadas e as bruxas, os duendes e os feiticeiros, ou os fantasmas, não
estejam por detrás de uma ou outra história. E são estas e outras personagens
que, não raramente, povoam a mente das crianças, e criam nelas os medos tão
comuns que acabam com as noites supostamente descansadas dos pais, e as
transformam em noites tão agitadas que só terminam na cama dos seus progenitores
ou os “obrigam” a ficar ao seu lado, até que adormeçam de novo.
Querido pai, querida mãe, sendo a infância o período da vida propício a todas as
aprendizagens, em que a criança fixa tudo o que vê e tudo o que lê ou lhe é
narrado, o que está transmitindo ao seu ou seus filhos? Quais os valores de vida
e conhecimentos lhes está a incutir? Deixe-me colocar-lhe uma outra questão: a
que horas vão os seus filhos dormir? Será que as horas de sono são suficientes,
ou ficam até tarde a assistir a programas de televisão quase sempre impróprios
para a sua idade ou até impróprios para qualquer idade?
Porque não aproveitar o privilégio de contar às crianças, antes de deitar, uma
história que as deixe tranquilas, que as acalme das actividades do dia e lhes dê
um descanso reparador? Porque não desfrutar desses momentos para um
relacionamento íntimo com elas, estreitando, assim, os laços de amor que os
unem? Porque, apesar do que ficou dito, ainda existem bons autores e boa
literatura, com excelentes conteúdos, que ajudam as nossas crianças a
preparar-se para serem cidadãos honestos, criativos, realizados, úteis na
sociedade, preparados para enfrentar os problemas e as vicissitudes que o futuro
lhes poderá reservar.
Queridos pais, se ainda o não fizeram, tracem os vossos planos e programas,
incluam neles os vossos filhos, disponibilizem uma parte do vosso tempo para
estar com eles, observem com atenção a literatura disponível no mercado e
escolham acertadamente. Façam isto, hoje. Os perigos estão aí, numa sociedade
altamente irresponsável e desinteressada porque lhes “apresenta” aquilo que não
presta e depois critica os desvios na formação dos jovens. Amanhã poderá ser
tarde. Os vossos meninos e meninas agradecem e senti-los-ão muito mais perto de
vós. Uma das frases mais sensacionais e maravilhosas que podemos ouvir, é:
“Mamã, ou Papá, amo-te muito!” Por muito que nos esforcemos, sem dúvida
cometemos erros na educação que damos aos nossos filhos, mas não fiquemos
demasiado preocupados; eles sabem que não somos infalíveis e acabam por
reconhecer todo o nosso empenho e dedicação. S&L
Leonilde Dias
Professora do Primeiro Ciclo