Endicrinologia / Abril 2004

Jogo de Equipa

Hormona? Muitos acham que conhecem bem essa palavra. Mas isso é apenas aparentemente verdadeiro. Na realidade, o seu significado preciso e as suas funções específicas continuam indefinidos. E não é preciso fazer muito alarde sobre a questão, visto que as acções desenvolvidas pelas hormonas são tão diversificadas e múltiplas que seria complexo tentar desvendar todas elas.
E. H. Starling, do Colégio Real de Médicos de Londres, foi quem definiu a hormona, em 1905. Disse que era um composto químico que circula no sangue, programado para chegar a um determinado órgão capaz de responder à sua acção. Aceitando como correcta essa definição, pode-se dizer que se trata de uma substância estimuladora, como revela o próprio nome derivado do grego “ormao”, que significa “estimular”, “pôr em movimento”. A substância, depois de composta, é lançada no sangue segundo volumes determinados pelas necessidades orgânicas, e transportada até ao local preciso.
O seu cenário de operações fica, assim, muito distante da fonte produtora. As glândulas endócrinas (de secreção interna, isto é, que enviam os produtos para o interior do corpo, ao contrário das glândulas de “secreção externa”, como as sudoríparas, que enviam o seu produto para fora através da pele) não o produzem para uso próprio, mas para o organismo.

Redefinição
A definição que caracteriza as hormonas como meras substâncias estimuladoras foi totalmente reconsiderada pela pesquisa nos últimos 30 anos. Hoje, eles são vistos como estando ao mesmo nível dos sofisticados mensageiros intercelulares, produzidos não apenas a partir das “glândulas de secreção interna”, mas por outros órgãos fundamentais e por células especializadas em diversificadas tarefas.
O próprio cérebro, o órgão mais importante do corpo humano, é endócrino. E isso não é tudo. Há órgãos que produzem exclusivamente hormonas, como a tiróide, a paratiróide, a hipófise e as supra-renais. Outros órgãos, como o sistema nervoso central, os ovários, os testículos, o estômago, o pâncreas e os intestinos, produzem também hormonas úteis à sua actividade fisiológica, além de integrarem actividades complexas de carácter geral. Há uma acção coordenada e integrada.
A ciência ainda não desvendou todos os segredos das hormonas. Os seus efeitos são conhecidos, mas o mecanismo de acção ainda não está totalmente claro. Ficou demonstrado que as hormonas agem no complexo de reacções químico-físicas chamado “metabolismo”. A essência da acção hormonal, porém, não é actuar sobre o metabolismo em geral, acelerando ou retardando o seu andamento, mas organizar e coordenar os processos simples, harmonizando-os num único complexo orientado para um só destino: a eficiência do organismo. Assim, as hormonas têm a missão de tornar efectiva a unidade fundamental do organismo. É claro que não estamos a falar das hormonas sintéticas utilizadas despropositadamente e com graves danos para a saúde, com a finalidade de promover aumento de massa muscular e engordar animais.

Estudo Preocupante
A imagem que a maior parte das pessoas têm das hormonas não é correcta. Isto ocorre porque o ser humano substituiu as hormonas sintetizadas naturalmente pelo corpo por outras de origem química. Antes de tudo, adoptou-se prodigamente uma terapia hormonal de substituição para remover os sintomas da menopausa e retardar o envelhecimento feminino. A intenção era assegurar eterna juventude para a pele, o organismo e o cérebro. Mas esse sistema sofreu uma crise por causa de um estudo americano feito com 16 680 mulheres, e também em razão de um amplo programa de pesquisa (160 000 voluntárias com idades compreendidas entre 50 e 79 anos), denominado “Women’s Health Initiative” (WHI), promovido pelos National Institutes of Health, dos Estados Unidos.
Essa pesquisa revela que, depois de mais de cinco anos de terapia, registou-se em metade das mulheres que compunham o grupo (a outra metade recebia placebos) um aumento de tumores da mama, enfartes, ataques e embolia pulmonar. Alguns dados, ao contrário, assinalavam uma redução de neoplasias intestinais (colo-retais) e de fracturas ósseas. Mas isso não é suficiente para fazer desaparecer os riscos.
Um comité especial, Data and Safety Monitoring Board, tomou a decisão de interromper o estudo sobre a terapia hormonal de substituição em mulheres sadias muito tempo antes do seu término previsto para 2005, porque, de facto, ela fazia mais mal do que bem. A suspensão e os resultados da pesquisa provocaram um verdadeiro abalo no sector médico. Milhões de mulheres sob terapia de substituição ficaram assustadas.
O mesmo alvoroço não se repetiu por causa de outra decisão do governo americano (Junho de 2002) a respeito da terapia hormonal de substituição em homens idosos e que foi completamente desconsiderada. A hormona envolvida é a testosterona, cujo uso teve nos últimos anos uma verdadeira explosão. Nos Estados Unidos, em 2001, os médicos prescreveram cerca de 1,5 milhões de medicamentos com testosterona, enquanto em 1997 foram apenas 806 mil.
A essas hormonas é atribuído o mérito de serem um poderoso antídoto contra o envelhecimento e um meio inigualável de assegurar um corpo liso e musculoso. Há um único defeito: a testosterona pode também estimular o surgimento de cancro da próstata, aumentar a produção de glóbulos vermelhos e, como consequência, o perigo da formação de trombos que, por sua vez, podem abrir caminho para ataques cardíacos. Por isso, muitos pesquisadores americanos, como Richard Hodis, director do Instituto Nacional do Envelhecimento, e William Brenner, da Universidade de Washington, estão preocupadíssimos com a falta de estudos clínicos completos que permitam compreender a fundo a terapia de substituição à base de testosterona.

Pareceres Diversos
Como as fábulas, poderíamos dizer “era uma vez” as hormonas para a menopausa, para evitar enfartes e permanecer jovem? É difícil de dizer. O British Medical Journal diz que as esperanças da pesquisa não se encerraram, e o caminho a percorrer está nas experiências com novos tipos de combinações de hormonas, novas vias de ministração e novas dosagens.
Para refrear o excessivo alarmismo, ergue-se também Umberto Veronesi, director do Instituto Europeu de Oncologia de Milão, que, embora reconhecendo a importância do estudo americano, destaca os seus pontos fracos: 40% das mulheres suspenderam a terapia (ou o placebo) a certa altura; elas tomavam estrogénio e progesterona por via oral (o trânsito pelo fígado altera a composição hormonal) e não via band-aids; 67% das amostras procediam de mulheres com idade superior a 60 anos e 22% tinham mais de 70 anos (elevado risco de patologias cardiovasculares); 35% eram hipertensas; 13% apresentavam altos níveis de colesterol; 33% estavam acima do peso. Segundo Veronesi, é preciso fazer distinção entre os Estados Unidos, onde as hormonas são prescritas generalizadamente às mulheres, e outros países, onde apenas uma parcela está sob terapia hormonal.
Mas, além das avaliações e tabulações, como pode acontecer que milhares sejam impelidos a tomar hormonas sem que antes seja averiguada a sua absoluta inocuidade através de pesquisas sérias? Nenhuma avaliação pessoal pode substituir as experiências científicas.
A Comissão Europeia também está a avaliar a possível periculosidade das hormonas pelos seus efeitos negativos sobre o estado de saúde das pessoas, dos animais e do ambiente. São pesquisadas não apenas as hormonas de síntese inseridas em alimentos, em antiparasitários administrados a animais, nos aditivos de materiais plásticos e fertilizantes, mas também as hormonas naturais produzidas por plantas chamadas fitoestrogénios.
Os fitoestrogénios possuem uma estrutura similar à dos estrogénios, mas com acção muito mais branda, e são extraídos de frutas, verduras, trigo, legumes, centeio e couve-flor, por exemplo. Acredita-se que tenham poder preventivo no combate aos sintomas da menopausa, osteoporose, distúrbios cardiovasculares e cancro da mama. Porém, nenhuma pesquisa verificou ainda a sua eficácia ou inocuidade. É preciso haver controlos para testar os preparados à base de fitoestrogénios, a metodologia de extracção e verificar se as plantas não são geneticamente modificadas. Enquanto isso não acontece, seguir uma alimentação que compreenda os alimentos mencionados só pode fazer bem à saúde.
As hormonas de síntese presentes no ambiente, porém, são uma das mais sérias ameaças à saúde. Os pesquisadores rebaptizaram-nas como “destruidoras endócrinas”, pois modificam negativamente o equilíbrio hormonal interior, comprometendo a fertilidade e abrindo caminho para malformações, diabetes e tumores. Mais uma vez, a alimentação biológica e a escolha de sistemas agrícolas isentos demonstram ser os verdadeiros amigos do nosso planeta. S&L
 

Massimo Llari
Endocrinologista

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