A Alimentação e a Doença de Parkinson
A doença de Parkinson é uma doença que causa a degeneração dos neurónios
cerebrais. A sua incidência anual é de 1% das pessoas com mais de 65 anos, e
tende a aumentar com o fenómeno mundial de envelhecimento populacional.
Desenvolve--se igualmente em homens e mulheres. O seu início é mais comum entre
pessoas com 50 e 60 anos. As causas são desconhecidas, mas infecções virais,
envelhecimento prematuro, toxinas ambientais e factores genéticos parecem ser
algumas delas.
É uma doença caracterizada por tremor, lentidão na execução de movimentos,
rigidez e instabilidade da postura corporal. Também apresenta outros sintomas
como: oscilações da cabeça, tiques na face e língua, oscilações e movimentos
giratórios dos braços, pernas e tronco, bem como distúrbios de comportamento
(depressão emocional, paranóia, manias). Esses e outros sintomas da doença podem
acarretar a redução na ingestão de alimentos e/ou acelerar a perda de peso.
Manifestações Nutricionais
Danos em determinada região do cérebro (tálamo e hipotálamo) afectam a
velocidade de movimentos e o tonos muscular, provocando, também, tremor de
músculos da mastigação e deglutição, interferindo indirectamente no acto da
alimentação. O paciente apresenta dificuldades de mastigação, ausência de
deglutição espontânea. Isso leva ao excesso de produção de saliva e falta de
controlo motor da língua para formar e fazer avançar o bolo alimentar.
A falta de apetite, chamada anorexia, é frequente nesses casos. Os doentes ainda
manifestam redução da sensibilidade do paladar e do olfacto, falta de
coordenação motora para corte, apreensão e condução do talher à boca, problemas
digestivos (indigestão, intestinos presos). O uso de vários medicamentos acentua
a obstipação. Os sintomas da indigestão são agravados pelo tratamento com
levodopa, que promove refluxo, provocando náuseas e vómitos.
A alteração da postura, devido à rigidez nos músculos flexores, provoca
dificuldades do paciente em se manter direito à mesa e, nos casos mais
adiantados, há tendência a quedas frequentes.
Drogas com efeitos anticolinérgicos podem causar confusão mental, especialmente
em doentes idosos, alterando a capacidade de percepção. Mais de 40% dos
Parkinsónicos apresentam algum grau de demência. A depressão é comum e afecta
40% a 60% deles.
Os indivíduos com doença de Parkinson tendem a ser mais magros do que as outras
pessoas. Ocorre um aumento das necessidades energéticas, devido à agitação
muscular anormal. Assim, a doença, associada com a idade avançada, torna o
paciente susceptível à perda de peso e com risco aumentado para doenças e
mortalidade, diminuindo, dessa forma, a sua qualidade de vida.
Intervenções Nutricionais
A alimentação deve ser sempre individualizada de acordo com os sintomas
apresentados, considerando outras doenças associadas, hábitos alimentares e
culturais. No caso de haver alguém que cuide do doente, ele deve ser bem
orientado sobre todos os detalhes da alimentação.
Prevenção da perda de peso. O incentivo familiar é muito importante para
melhorar a ingestão alimentar do paciente. A perda de peso maior que 10% num
período de três meses é preocupante, pois pode apresentar risco de desnutrição e
infecções. Deve-se, portanto, cuidar da apresentação das refeições; oferecer
alimentos calóricos em quantidade moderada; usar produtos integrais, aveia, pão,
mel, frutas, arroz integral, tubérculos, etc.
Prevenção e controlo do intestino preso. Esse é um distúrbio frequente nos
indivíduos com doença de Parkinson. Entretanto, pode ser controlado ou evitado a
partir das seguintes recomendações:
- Evitar o uso indiscriminado de laxantes.
- Consumir diariamente alimentos com “poder laxante”, tais como: iogurte
natural, ameixas, mel, laranja, papaia, tangerina, manga, abacate e milho.
- Consumir alimentos ricos em fibras alimentares, incluindo frutas frescas
(mínimo de três por dia) ao pequeno almoço, como sobremesas, além de verduras e
legumes crus ao almoço e jantar (pelo menos dois pires cheios). Substituir o pão
refinado por integral, consumir diariamente leguminosas (feijão, lentilhas,
grão-de-bico, ervilha-seca).
- Ingerir bastante água, num total de dois litros por dia, no mínimo.
- Praticar exercícios físicos orientados, fisioterapia, caminhadas, trabalhos
domésticos, deslocamento e mudanças de posição, de acordo com a possibilidade
individual. O importante é movimentar-se, mesmo com limitações.
- Mastigar muito bem os alimentos.
- Não adiar a hora de ir à casa de banho.
- Beber um copo de água em que foi posta uma ameixa seca de molho de um dia para
o outro (aproveitando para comer a ameixa).
- Evitar o consumo excessivo de alimentos constipantes (que prendem o
intestino): arroz branco, massas, farinhas, limão, banana, maçã, enchidos
(presuntos, salsichas), bolachas, batatas, cenoura, preparados ricos em amido
(papa de maizena e outras).
- Se houver flatulência (formação e eliminação de gases intestinais), evitar o
consumo dos alimentos que geralmente podem ser os possíveis causadores: repolho,
couve-flor, brócolos, nabo, rabanete, cebola, alho, queijos condimentados e
curados.
A causa da flatulência também pode ser a ansiedade na hora das refeições,
fazendo com que o doente degluta pedaços grandes de alimentos, muito
rapidamente, e até mesmo ar.
Cálcio. Como geralmente há redução da ingestão alimentar desse mineral, pode-se
aumentar o seu consumo seguindo-se estas orientações:
- No caso de haver baixa aceitação de produtos lácteos, fazer uso de leites
comercializados com suplementos de cálcio, já que fornecem o dobro da quantidade
do produto comum e a mesma quantidade de proteína.
- Iogurtes e queijos podem ser consumidos, desde que bem distribuídos entre as
refeições, devido ao elevado teor de proteína.
- Se o paciente estiver com falta de apetite e a recomendação de cálcio não
estiver a ser alcançada, será
necessário usar suplementos de cálcio para a
complementar.
- Tomar banhos de sol, diariamente, antes das 10:00h e depois das 16:00h, para
activar a vitamina D, que é necessária e importante para a absorção do cálcio.
- Realizar actividade física.
Alívio da secura da boca. Pode ser comum, pelo uso de vários medicamentos,
incluindo os medicamentos anticolinérgicos. No caso dessa ocorrência, veja as
instruções seguintes:
- Beber dois litros de água por dia.
- Mastigar bem os alimentos.
- Ingerir alimentos duros para estimular a salivação.
- Fazer higiene oral adequada e verificar o estado das próteses dentárias, se
for o caso.
- Ingerir alimentos gelados, além de frutas e sumos cítricos.
- Diminuir o consumo de alimentos muito secos, como farinhas, por exemplo.
- Humedecer alimentos em bebidas ou mastigar com o auxílio delas (água, sumos,
leite, chás).
- Utilizar, à refeição, alimentos mais húmidos (purés, sopas, gelatinas, etc.)
- Evitar alimentos salgados, condimentados.
Em casos de rigidez da face, dificuldades de mastigação e de deglutição.
- Realizar as refeições em lugar calmo, sem barulho e luzes fortes, mas não
escuro; sem movimentos repentinos e bruscos do acompanhante, livre de outras
situações causadoras de ansiedade.
- Subdividir os alimentos em pedaços bem pequenos, para facilitar a mastigação e
realizar esse acto com calma.
- Evitar o consumo de sopas com baixa densidade de nutrientes – se a pessoa
estiver com falta de apetite –, preferindo aquelas com pedaços de vegetais e
alimentos que possam ser mastigados e deglutidos sem grandes dificuldades.
- Se houver sérias dificuldades de deglutição, liquidificar, picar, moer,
amassar os alimentos mais difíceis de ser ingeridos inteiros. Adiar esse
processamento ao máximo, pela importância da mastigação na estimulação labial,
preservação dos dentes, prevenção da obstipação e de engasgamentos.
- Usar palhinhas para facilitar o acto de engolir líquidos, se necessário.
- Visitar o dentista para revisão das próteses que podem estar mal adaptadas,
magoando a boca.
- Usar líquidos para ajudar a engolir alimentos sólidos.
Adaptação nas dificuldades motoras com a mão, os braços, e problemas posturais
durante o processo de alimentação.
- Manter os pés adequadamente apoiados no chão.
- Verificar se a altura da mesa está adequada.
- Manter o doente sentado muito próximo da mesa.
- Os braços devem ser colocados sobre o colo.
- A cabeça e o tronco devem estar o mais vertical possível, estando a cabeça
ligeiramente inclinada para a frente.
- Usar recursos adaptativos (talheres de cabo grosso e encapados com espuma;
protecção para pratos e talheres; copos plásticos grandes e com alças; jogo
individual com base antiderrapante para evitar o deslizamento do prato).
Intervenção nos casos de confusão mental. Alguns doentes podem não se recordar
se já se alimentaram ou não. Algumas rotinas domésticas do acompanhante podem
melhorar essa situação:
- Manter horários regulares para as refeições e comer ao mesmo tempo que o
doente.
- Se o indivíduo que tem confusão mental quiser começar uma refeição após a
outra, deixe algumas louças no lava-louças, mostrando-lhe que já comeu.
- No caso de querer comer só um tipo de alimento, é necessário avaliar a
necessidade de suplementos nutricionais orientados por um nutricionista ou
médico.
- Usar colher, em vez de garfo, pois pode ser mais seguro e fácil de manusear.
- Verificar a temperatura antes de servir os alimentos, para evitar queimaduras.
Melhoria dos sintomas de náuseas. Oferecer, na mesma refeição, alimentos com a
mesma textura para que o doente não se confunda e engasgue com facilidade.
Esses sintomas podem ocorrer devido ao uso de medicamentos à base de levodopa ,
agonistas dopaminérgicos, inibidores da enzima catecol-metil-transferase, COMT e
outros que porventura estejam a ser usados.
Algumas orientações em relação aos seus aspectos, são as seguintes:
- Não comer grandes quantidades de alimentos de uma só vez. Em vez disso, fazer
cinco a seis pequenas refeições diárias.
- Não dormir com o estômago vazio.
- Evitar alimentos que possam aumentar os sintomas: alimentos picantes (pickles,
ketchup, mostarda, pimenta, etc.), café, chá preto, chá mate, enchidos
(presuntos, salsichas), doces muito concentrados em açúcar, bolachas recheadas,
açucaradas e amanteigadas, fritos e alimentos ricos em gordura.
- Evitar tomar medicamentos com o estômago vazio. Usar bolachas e frutas.
- Evitar líquidos em grande quantidade, em horário imediatamente antes e logo
depois das refeições.
Como, até ao momento, não é conhecida a cura para a doença de Parkinson, as
intervenções terapêuticas do indivíduo que é por ela acometido, objectivam o
controlo dos sintomas e dos efeitos colaterais dos medicamentos. S&L
Estefânia Maria Soares Pereira
Nutricionista, doutorada em Saúde Pública