A Fronteira da Vida
Como ajudar um paciente terminal a enfrentar o pior momento da vida.
Da nossa congénere brasileira, Vida e Saúde, chegou-nos uma entrevista
efectuada ao Dr. Luís Alberto Saporetti, médico assistente do Hospital das
Clínicas da Universidade de São Paulo e coordenador do Grupo de Estudos Sobre
Cuidados Paliativos do Hospital Albert Einstein. Pelo interesse que achamos que
tem para os nossos Leitores, aqui a transcrevemos, com os nossos agradecimentos.
Os cuidados paliativos são uma modalidade interprofissional da medicina, que
visam cuidar dos doentes portadores de doenças incuráveis em fase avançada sob
uma perspectiva global – física, emocional e espiritual. O objectivo é melhorar
a qualidade de vida do paciente e dos seus familiares. Actualmente, morrem 52
milhões de pessoas todos os anos, no mundo, 10 milhões dos quais em estado de
sofrimento. Estudos americanos recentes mostram que 50% dos pacientes morrem com
dor moderada a grave, e que 80% dos médicos não compreendem as decisões que os
seus doentes tomam em relação ao fim da vida. Amenizar o sofrimento de doentes
terminais é um dos grandes desafios da comunidade médica contemporânea.
Vida e Saúde: O que são cuidados paliativos?
Dr. Luís Alberto Saporetti: A Organização Mundial de Saúde define cuidados
paliativos como a “assistência activa e integral a pacientes cuja doença já não
responde ao tratamento curativo, sendo o principal objectivo a garantia da
melhor qualidade de vida do doente e dos seus familiares”. Os cuidados
paliativos reafirmam a vida e consideram a morte um processo natural; não
postergam nem aceleram a morte; aliviam os sintomas desagradáveis; integram
aspectos psicológicos e espirituais; ajudam o paciente a ter uma vida o mais
activa possível até à morte e oferece apoio aos familiares.
VeS: Como se pode definir o doente terminal?
Dr. L.A.S.: Não existe ainda uma definição clara para esse termo. No entanto, o
doente terminal pode ser caracterizado como portador de uma doença incurável,
avançada, em progressão e com prognóstico estimado de vida menor a seis meses.
VeS: Quais são os principais sintomas e síndromas do doente terminal?
Dr. L.A.S.: Dor, depressão, astenia, náuseas, vómitos, falta de ar e confusão
mental, entre outros.
VeS: De que modo enfrentam, o doente e os seus familiares, a realidade da morte?
Dr. L.A.S.: A morte na nossa sociedade é muito mal aceite. No passado, a morte
era vivenciada dentro dos lares como a consequência final do processo da vida.
Tínhamos poucos meios de sustentação artificial da vida e de recursos
medicamentosos. Com o desenvolvimento tecnológico, procuramos ardentemente a
cura de todos os males e a vitória sobre a morte. Aos poucos, a morte foi sendo
escondida dentro dos hospitais e UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e passou a
ser um tabu, um enigma. Na nossa sociedade, ou a morte está no ostracismo ou é
banalizada pelo cinema, jornais e televisão. Nesta era capitalista e
tecnológica, morrer deixou de ser um fenómeno natural para ser encarado como
erro, falha ou incapacidade de quem morre ou de quem cuida.
VeS: Os médicos e enfermeiros em geral estão preparados para lidar com pacientes
nessas condições?
Dr. L.A.S.: Não.
VeS: Porquê?
Dr. L.A.S.: Falta de treino específico para o atendimento a doentes terminais, e
são raras as iniciativas no meio universitário a respeito do tema.
VeS: De que forma encaram os médicos tais situações?
Dr. L.A.S.: Os médicos não são diferentes da sociedade. Há uma grande
dificuldade em falar do tema e aceitá-lo. Além disso, os médicos são preparados
para manter a vida a todo o custo e vencer a doença e a morte.
VeS: Há casos de negligência nessa área?
Dr. L.A.S.: A negligência evidencia-se pela falta de cuidado ou de precaução com
que se executam certas acções. Caracteriza-se pela inacção, indolência, inércia
e passividade. É um acto omissivo por natureza. No caso dos doentes terminais,
creio que há uma obstinação terapêutica que não prioriza a qualidade de vida das
pessoas.
VeS: Como lidam os médicos com os princípios religiosos e espirituais dos seus
doentes?
Dr. L.A.S.: Frequentemente, os médicos não se apercebem desses aspectos. Fica
então ao critério da família o cuidado relativo à parte espiritual. Creio que é
importante que o profissional que cuida de doentes terminais tenha uma ampla
visão das religiões e da espiritualidade, de modo a ajudar as pessoas da melhor
maneira.
VeS: É possível superar barreiras psicológicas e sociais nessas circunstâncias?
Dr. L.A.S.: Sim, desde que haja uma equipa voltada para o cuidado do doente e
dos seus familiares.
VeS: O que diria em relação aos princípios éticos na altura desses cuidados
específicos?
Dr. L.A.S.: Eu ressaltaria os princípios da beneficência, da não-maleficência,
da veracidade, do não-abandono e da proporcionalidade. A beneficência refere-se
a fazer o bem ao doente e, no caso dos doentes terminais, significa aliviar o
seu sofrimento. A não-maleficência refere-se a não causar o mal (não prolongar
ou aumentar o sofrimento da pessoa, não a submeter a terapias desnecessárias). A
veracidade é dizer a verdade, mas sem causar sofrimento. Na maioria das vezes, o
doente não quer saber tudo sobre a sua doença e morte e isso deve ser
respeitado. O não-abandono é permanecer ao lado do doente, não importa o que
aconteça. Proporcionalidade significa a relação entre uma acção e o seu real
benefício, o que implica no conceito de medidas ordinárias, extraordinárias e
fúteis. Medidas ordinárias são aquelas que sem dúvida trarão benefícios, como o
uso de analgésicos e antibióticos simples. Extraordinárias são aquelas medidas
que podem eventualmente trazer benefícios ao doente, como quimioterapias e
sondas de alimentação em cancros muito avançados. Medidas fúteis são aquelas que
não trarão benefício algum à pessoa. Um exemplo seria colocar um doente, vítima
de doença neurológica, ou mesmo de um cancro avançado, num respirador
artificial.
VeS: Qual é a sua opinião a respeito da eutanásia?
Dr. L.A.S.: Sou contra a eutanásia, a morte rápida e indolor, e contra a
distanásia, que é a morte longa e agónica. Não cabe ao homem decidir o momento
de morrer nem prolongar o sofrimento de outro diante da morte inevitável. Os
doentes portadores de doenças terminais devem ter os seus sintomas aplacados, as
suas angústias amenizadas. Deve ser-lhes proporcionada a paz. Quando um doente
pede para pôr fim à sua dor tirando-lhe a vida, significa que algum sofrimento
muito intenso de qualquer esfera – física, social, emocional ou espiritual –
está a ocorrer e precisa de ser sanado. Uma vez eliminado esse sofrimento, o
doente volta a querer viver.
VeS: A Organização Mundial de Saúde diz que 80% da dor causada pelo cancro pode
ser controlada com técnicas simples e 20% com procedimentos mais complexos. Isso
acontece nos hospitais?
Dr. L.A.S.: Embora essas estatísticas sejam americanas, creio que o padrão se
mantém aqui no Brasil. A maior parte das dores oncológicas é farmacologicamente
controlável através de medicações simples, como a morfina oral.
VeS: É lenda ou facto que os médicos e enfermeiros sofrem de opiofobia?
Dr. L.A.S.: A “opiofobia” é o medo de prescrever ou usar opiáceos fortes como
morfina ou fentanila, entre outros. Os médicos, enfermeiros, doentes e pessoas
em geral têm esse comportamento. Existe um preconceito quanto ao uso de morfina.
As pessoas acreditam que ela vicia e pode até matar. Isso não passa de falta de
conhecimento. Os médicos também não estão preparados para a usarem, logo não
conseguem vencer o preconceito. Além disso, existem restrições governamentais ao
uso, o que dificulta o acesso de médicos e doentes a essas drogas.
VeS: Como pode a terapia da dor ajudar doentes, familiares e médicos a amenizar
a chegada da morte?
Dr. L.A.S.: O controlo de sintomas desagradáveis como a dor é essencial para o
ajuste emocional do doente e da família. Só assim podemos trabalhar outras
questões referentes ao processo da morte, sejam elas práticas ou espirituais.
VeS: Há consenso no meio médico sobre a importância de um tratamento
complementar – alternativo – durante a evolução de uma doença terminal?
Dr. L.A.S.: Desde que se mantenha o objectivo na qualidade de vida e no controlo
dos sintomas do doente, sem expectativas de curas milagrosas, não vejo motivo
para não usar.S&L