Entrevista / Abril 2004

A Fronteira da Vida

Como ajudar um paciente terminal a enfrentar o pior momento da vida.

 

Da nossa congénere brasileira, Vida e Saúde, chegou-nos uma entrevista efectuada ao Dr. Luís Alberto Saporetti, médico assistente do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e coordenador do Grupo de Estudos Sobre Cuidados Paliativos do Hospital Albert Einstein. Pelo interesse que achamos que tem para os nossos Leitores, aqui a transcrevemos, com os nossos agradecimentos.

 

Os cuidados paliativos são uma modalidade interprofissional da medicina, que visam cuidar dos doentes portadores de doenças incuráveis em fase avançada sob uma perspectiva global – física, emocional e espiritual. O objectivo é melhorar a qualidade de vida do paciente e dos seus familiares. Actualmente, morrem 52 milhões de pessoas todos os anos, no mundo, 10 milhões dos quais em estado de sofrimento. Estudos americanos recentes mostram que 50% dos pacientes morrem com dor moderada a grave, e que 80% dos médicos não compreendem as decisões que os seus doentes tomam em relação ao fim da vida. Amenizar o sofrimento de doentes terminais é um dos grandes desafios da comunidade médica contemporânea.

Vida e Saúde: O que são cuidados paliativos?
Dr. Luís Alberto Saporetti: A Organização Mundial de Saúde define cuidados paliativos como a “assistência activa e integral a pacientes cuja doença já não responde ao tratamento curativo, sendo o principal objectivo a garantia da melhor qualidade de vida do doente e dos seus familiares”. Os cuidados paliativos reafirmam a vida e consideram a morte um processo natural; não postergam nem aceleram a morte; aliviam os sintomas desagradáveis; integram aspectos psicológicos e espirituais; ajudam o paciente a ter uma vida o mais activa possível até à morte e oferece apoio aos familiares.

VeS: Como se pode definir o doente terminal?
Dr. L.A.S.: Não existe ainda uma definição clara para esse termo. No entanto, o doente terminal pode ser caracterizado como portador de uma doença incurável, avançada, em progressão e com prognóstico estimado de vida menor a seis meses.

VeS: Quais são os principais sintomas e síndromas do doente terminal?
Dr. L.A.S.:
Dor, depressão, astenia, náuseas, vómitos, falta de ar e confusão mental, entre outros.

VeS: De que modo enfrentam, o doente e os seus familiares, a realidade da morte?
Dr. L.A.S.:
A morte na nossa sociedade é muito mal aceite. No passado, a morte era vivenciada dentro dos lares como a consequência final do processo da vida. Tínhamos poucos meios de sustentação artificial da vida e de recursos medicamentosos. Com o desenvolvimento tecnológico, procuramos ardentemente a cura de todos os males e a vitória sobre a morte. Aos poucos, a morte foi sendo escondida dentro dos hospitais e UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e passou a ser um tabu, um enigma. Na nossa sociedade, ou a morte está no ostracismo ou é banalizada pelo cinema, jornais e televisão. Nesta era capitalista e tecnológica, morrer deixou de ser um fenómeno natural para ser encarado como erro, falha ou incapacidade de quem morre ou de quem cuida.

VeS: Os médicos e enfermeiros em geral estão preparados para lidar com pacientes nessas condições?
Dr. L.A.S.:
Não.

VeS: Porquê?
Dr. L.A.S.:
Falta de treino específico para o atendimento a doentes terminais, e são raras as iniciativas no meio universitário a respeito do tema.

VeS: De que forma encaram os médicos tais situações?
Dr. L.A.S.:
Os médicos não são diferentes da sociedade. Há uma grande dificuldade em falar do tema e aceitá-lo. Além disso, os médicos são preparados para manter a vida a todo o custo e vencer a doença e a morte.

VeS: Há casos de negligência nessa área?
Dr. L.A.S.:
A negligência evidencia-se pela falta de cuidado ou de precaução com que se executam certas acções. Caracteriza-se pela inacção, indolência, inércia e passividade. É um acto omissivo por natureza. No caso dos doentes terminais, creio que há uma obstinação terapêutica que não prioriza a qualidade de vida das pessoas.

VeS: Como lidam os médicos com os princípios religiosos e espirituais dos seus doentes?
Dr. L.A.S.:
Frequentemente, os médicos não se apercebem desses aspectos. Fica então ao critério da família o cuidado relativo à parte espiritual. Creio que é importante que o profissional que cuida de doentes terminais tenha uma ampla visão das religiões e da espiritualidade, de modo a ajudar as pessoas da melhor maneira.
VeS: É possível superar barreiras psicológicas e sociais nessas circunstâncias?
Dr. L.A.S.: Sim, desde que haja uma equipa voltada para o cuidado do doente e dos seus familiares.

VeS: O que diria em relação aos princípios éticos na altura desses cuidados específicos?
Dr. L.A.S.:
Eu ressaltaria os princípios da beneficência, da não-maleficência, da veracidade, do não-abandono e da proporcionalidade. A beneficência refere-se a fazer o bem ao doente e, no caso dos doentes terminais, significa aliviar o seu sofrimento. A não-maleficência refere-se a não causar o mal (não prolongar ou aumentar o sofrimento da pessoa, não a submeter a terapias desnecessárias). A veracidade é dizer a verdade, mas sem causar sofrimento. Na maioria das vezes, o doente não quer saber tudo sobre a sua doença e morte e isso deve ser respeitado. O não-abandono é permanecer ao lado do doente, não importa o que aconteça. Proporcionalidade significa a relação entre uma acção e o seu real benefício, o que implica no conceito de medidas ordinárias, extraordinárias e fúteis. Medidas ordinárias são aquelas que sem dúvida trarão benefícios, como o uso de analgésicos e antibióticos simples. Extraordinárias são aquelas medidas que podem eventualmente trazer benefícios ao doente, como quimioterapias e sondas de alimentação em cancros muito avançados. Medidas fúteis são aquelas que não trarão benefício algum à pessoa. Um exemplo seria colocar um doente, vítima de doença neurológica, ou mesmo de um cancro avançado, num respirador artificial.

VeS: Qual é a sua opinião a respeito da eutanásia?
Dr. L.A.S.:
Sou contra a eutanásia, a morte rápida e indolor, e contra a distanásia, que é a morte longa e agónica. Não cabe ao homem decidir o momento de morrer nem prolongar o sofrimento de outro diante da morte inevitável. Os doentes portadores de doenças terminais devem ter os seus sintomas aplacados, as suas angústias amenizadas. Deve ser-lhes proporcionada a paz. Quando um doente pede para pôr fim à sua dor tirando-lhe a vida, significa que algum sofrimento muito intenso de qualquer esfera – física, social, emocional ou espiritual – está a ocorrer e precisa de ser sanado. Uma vez eliminado esse sofrimento, o doente volta a querer viver.

VeS: A Organização Mundial de Saúde diz que 80% da dor causada pelo cancro pode ser controlada com técnicas simples e 20% com procedimentos mais complexos. Isso acontece nos hospitais?
Dr. L.A.S.: Embora essas estatísticas sejam americanas, creio que o padrão se mantém aqui no Brasil. A maior parte das dores oncológicas é farmacologicamente controlável através de medicações simples, como a morfina oral.

VeS: É lenda ou facto que os médicos e enfermeiros sofrem de opiofobia?
Dr. L.A.S.:
A “opiofobia” é o medo de prescrever ou usar opiáceos fortes como morfina ou fentanila, entre outros. Os médicos, enfermeiros, doentes e pessoas em geral têm esse comportamento. Existe um preconceito quanto ao uso de morfina. As pessoas acreditam que ela vicia e pode até matar. Isso não passa de falta de conhecimento. Os médicos também não estão preparados para a usarem, logo não conseguem vencer o preconceito. Além disso, existem restrições governamentais ao uso, o que dificulta o acesso de médicos e doentes a essas drogas.

VeS: Como pode a terapia da dor ajudar doentes, familiares e médicos a amenizar a chegada da morte?
Dr. L.A.S.:
O controlo de sintomas desagradáveis como a dor é essencial para o ajuste emocional do doente e da família. Só assim podemos trabalhar outras questões referentes ao processo da morte, sejam elas práticas ou espirituais.

VeS: Há consenso no meio médico sobre a importância de um tratamento complementar – alternativo – durante a evolução de uma doença terminal?
Dr. L.A.S.:
Desde que se mantenha o objectivo na qualidade de vida e no controlo dos sintomas do doente, sem expectativas de curas milagrosas, não vejo motivo para não usar.S&L

 

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