Porque existem tantos conflitos nas famílias? É uma pergunta que não nos diz
respeito até que o primeiro estala ou é silenciado com receio das consequências
que pode desencadear.
As reacções variam de pessoa para pessoa perante uma situação de conflito: o
silêncio e a demissão, a violência e a opressão, a negação conseguida com o
auxílio de drogas (socialmente aceites ou rejeitadas, como são o álcool ou o
haxixe), ou ainda outra estratégia qualquer. A toxicodependência é uma das
realidades que acompanham famílias com elevados níveis de conflitualidade.
Por todas estas razões e aquelas que não foram mencionadas, é útil referir o que
pode determinar as reacções que se desencadeiam perante situações de conflito.
Uma destas componentes determinantes é o “génio”, o “temperamento”, a
“personalidade” que cada um de nós possui.
Se, por um lado, todos estamos conscientes que temos esse “geniozinho” dentro de
nós a mandar muito para além do que gostaríamos, raramente temos a oportunidade
de pensar nele, questioná-lo e, até de modo introspectivo, introduzir alterações
“na sua programação de origem”. Surgem então desculpas como “eu sou assim”, “já
nasci assim” e, com frases destas, não percebemos que estamos a abrir o fosso
onde irão cair muitos dos sonhos daqueles que nos rodeiam... se não forem os
nossos a cair primeiro.
Mas, afinal, o que é esse “geniozinho” que, qual lâmpada de aladim, ou está
adormecido condicionando-nos ou, quando é estimulado, nos determina tão
fortemente nos nossos actos e atitudes?
Tecnicamente, há milhares de anos que ele é designado por “temperamento”.
Hipócrates – 460-370 a.C. – considerado o pai da medicina,
compreendeu a
importância dos problemas da “alma”, da personalidade e reconheceu a diferença
de temperamentos entre várias pessoas. Para ele, tratava-se de humores do corpo:
sangue, bílis preta, bílis amarela e fleuma.
H. J. Eysenck atribui a Galen, do sec XVII, o início de um estudo mais minucioso
sobre os temperamentos. Uma das suas descobertas é a de que os temperamentos são
herdados, tal como o património genético que possuímos. Esta será uma das razões
que pode ajudar a perceber porque podem existir nas famílias níveis de
conflitualidade elevados, pois no lugar de complementaridade, a semelhança de
estados temperamentais entre os filhos e pais pode não ser a “mistura
conveniente”. Por isso, quem “casa quer casa”, isto é, a saída de casa dos
filhos é uma característica e exigência para uma vida EQUILIBRADA.
Na verdade, temperamento (palavra cuja origem é temperamentum), significa
justamente “mistura conveniente”. O tempero que damos à comida é um bom exemplo
do que está em causa: o excesso de algo, o DESEQUILÍBRIO de algum ingrediente
não dará à comida o seu sabor ideal: criará repulsa.
O mesmo se pode passar connosco: sem EQUILÍBRIO não há saúde (veja S&L Julho
2003).
Haverá, então, um geniozinho, um temperamento equilibrado? Um temperamento
equilibrado dificilmente existirá naturalmente numa só pessoa. Como veremos,
pessoas com temperamentos diferentes atraem-se. Em vários seminários que temos
realizado envolvendo a promoção da qualidade de vida familiar, tem sido
constante verificar que nunca existe um homem e uma mulher, que se unam
afectivamente, com traços temperamentais semelhantes. Ora, se a diferença que
expressa a lacuna precisa do outro para se completar, a diferença desequilibrada
leva ao desequilíbrio do outro. Assim, não devemos confundir diferença com
equilíbrio temperamental.
Por isso, não existem temperamentos “bons” nem temperamentos “maus”. Existem
antes temperamentos sem EQUILÍBRIO. Aceitar o nosso temperamento é, por isso, o
primeiro passo para conseguir o bem-estar pessoal e familiar. Aqui emerge um
outro problema ao qual voltaremos mais tarde: se no início de uma relação
afectiva a diferença temperamental provoca atracção, a continuidade dessa
relação assenta no pressuposto da aceitação e respeito por essa diferença. Ora é
a este nível que muitas uniões são atingidas, pois a vivência a longo termo com
alguém que manifesta afinal tantas diferenças, é considerado como um factor
negativo, quando na verdade foi ele que convocou essas duas pessoas para o amor.

Os quatro traços temperamentais
Não existindo temperamentos “bons” ou “maus”, vejamos então como se caracterizam
os temperamentos. A maior parte dos estudos realizados até hoje, embora possam
distinguir-se pela designação atribuída aos temperamentos, concordam entre si
relativamente ao facto de que existem 4 temperamentos distintos, que passaremos
a designar a partir deste momento por “traços temperamentais”: sanguíneo,
colérico, fleumático e melancólico.
Não existe ninguém que possua um e somente um destes traços: todos nós possuímos
um “tempero” dos quatro, alguns com mais de um e outros com mais de outro.
Existe, assim, um traço temperamental predominante em cada um de nós que revela
aspectos positivos e negativos.
Tomar consciência desse traço temperamental, permite, tal qual pintor na
definição do seu esboço, apagar, corrigir alguma linha que está em desarmonia,
fora do seu lugar.
Um exemplo concreto na aplicação destes conceitos refere-se à atitude que se
desenvolve muitas vezes para com crianças que parecem ser rebeldes, fazendo só
aquilo que querem fazer, sempre prontas a responder. A sua educação é mais
complexa porque são crianças extrovertidas (possuindo traços de sanguíneo ou
colérico mais acentuados). Neste contexto, os educadores, os pais e todos os que
lidam com essas crianças devem tratá-las de acordo com este traço de
extroversão. Se não for assim, como a investigação criminal revela, há fortes
probabilidades que elas possam engrossar o grupo de criminosos (pois a maior
parte destes são de temperamento extrovertido).
Por outro lado, os introvertidos parecem ser de mais fácil educação, mas
desenvolvem facilmente problemas com a sua auto-estima e auto-imagem,
considerando-se culpados por tudo e por nada. É neste grupo que existe maior
sucesso escolar, dada a sua “natural” propensão para a disciplina. Ora, se os
introvertidos reagem bem ao elogio, a censura afecta muito os extrovertidos.
Com este simples exemplo referimos a importância de considerar convenientemente
este assunto, pois ele tem consequências decisivas sobre o nosso bem-estar e o
daqueles que nos rodeiam no dia-a-dia.
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Teste dos temperamentos
Marque com um círculo as seguintes |
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Sente que tem |
Sente que |
Sente que é uma |
Sente que |
“Conhece-te a ti mesmo”
Como vimos anteriormente, existem recursos psicológicos que podem ser úteis na
prevenção e resolução de conflitos. Estes recursos têm a ver com as
características da psique, i.e. que dão forma à pessoa não como expressão
física, mas como realidade complexa de ideias e valores que nos constroem.
Os conflitos podem ser originados por diversos temperamentos a trabalhar em
conjunto. A sua correcta gestão permite encontrar soluções criativas, e os
conflitos podem transformar-se em ocasiões de crescimento saudável.
É do senso comum que existem certo tipos de pessoas mais propensas a gerar
conflitos do que outras. Para conseguir um bom ambiente familiar e uma elevada
satisfação é importante conhecermos o nosso temperamento e o daqueles com quem
vivemos. Assim, poderemos antecipar e resolver mesmo os problemas mais graves.
Há qualidades positivas e negativas em todos os temperamentos. As qualidades
positivas, quando são levadas ao extremo, convertem-se em negativas e cada traço
negativo tem, em contrapartida, um traço positivo.
A compreensão do nosso temperamento básico não limita a nossa capacidade de
desenvolvimento e crescimento. Parte do nosso temperamento pode ser reprimido ou
alterado devido a traumas. Além disso, é importante compreender a diferença
entre as tendências do temperamento e o comportamento. Enquanto as tendências
básicas permanecem por toda a vida, os comportamentos específicos podem ser
controlados, modificados ou eliminados através da renovação dos conceitos
mentais.
Propomos que preencha agora a ficha preliminar de caracterização dos traços de
temperamento. Na página da S&L na Internet estarão disponíveis outros testes
mais detalhados, e na nossa próxima edição iremos analisar em profundidade o que
fazer agora que estão identificados esses traços que nos distinguem uns dos
outros. A aventura da descoberta de si mesmo proporcionará aos que nos rodeiam
momentos de agradável convívio e relações humanas fortes e saudáveis. S&L
Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde, Mestre em Saúde Pública