Vida Familiar / Agosto 2004

Porque existem tantos conflitos nas famílias? É uma pergunta que não nos diz respeito até que o primeiro estala ou é silenciado com receio das consequências que pode desencadear.
As reacções variam de pessoa para pessoa perante uma situação de conflito: o silêncio e a demissão, a violência e a opressão, a negação conseguida com o auxílio de drogas (socialmente aceites ou rejeitadas, como são o álcool ou o haxixe), ou ainda outra estratégia qualquer. A toxicodependência é uma das realidades que acompanham famílias com elevados níveis de conflitualidade.
Por todas estas razões e aquelas que não foram mencionadas, é útil referir o que pode determinar as reacções que se desencadeiam perante situações de conflito. Uma destas componentes determinantes é o “génio”, o “temperamento”, a “personalidade” que cada um de nós possui.
Se, por um lado, todos estamos conscientes que temos esse “geniozinho” dentro de nós a mandar muito para além do que gostaríamos, raramente temos a oportunidade de pensar nele, questioná-lo e, até de modo introspectivo, introduzir alterações “na sua programação de origem”. Surgem então desculpas como “eu sou assim”, “já nasci assim” e, com frases destas, não percebemos que estamos a abrir o fosso onde irão cair muitos dos sonhos daqueles que nos rodeiam... se não forem os nossos a cair primeiro.
Mas, afinal, o que é esse “geniozinho” que, qual lâmpada de aladim, ou está adormecido condicionando-nos ou, quando é estimulado, nos determina tão fortemente nos nossos actos e atitudes?
Tecnicamente, há milhares de anos que ele é designado por “temperamento”. Hipócrates – 460-370 a.C. – considerado o pai da medicina, compreendeu a importância dos problemas da “alma”, da personalidade e reconheceu a diferença de temperamentos entre várias pessoas. Para ele, tratava-se de humores do corpo: sangue, bílis preta, bílis amarela e fleuma.
H. J. Eysenck atribui a Galen, do sec XVII, o início de um estudo mais minucioso sobre os temperamentos. Uma das suas descobertas é a de que os temperamentos são herdados, tal como o património genético que possuímos. Esta será uma das razões que pode ajudar a perceber porque podem existir nas famílias níveis de conflitualidade elevados, pois no lugar de complementaridade, a semelhança de estados temperamentais entre os filhos e pais pode não ser a “mistura conveniente”. Por isso, quem “casa quer casa”, isto é, a saída de casa dos filhos é uma característica e exigência para uma vida EQUILIBRADA.
Na verdade, temperamento (palavra cuja origem é temperamentum), significa justamente “mistura conveniente”. O tempero que damos à comida é um bom exemplo do que está em causa: o excesso de algo, o DESEQUILÍBRIO de algum ingrediente não dará à comida o seu sabor ideal: criará repulsa.
O mesmo se pode passar connosco: sem EQUILÍBRIO não há saúde (veja S&L Julho 2003).
Haverá, então, um geniozinho, um temperamento equilibrado? Um temperamento equilibrado dificilmente existirá naturalmente numa só pessoa. Como veremos, pessoas com temperamentos diferentes atraem-se. Em vários seminários que temos realizado envolvendo a promoção da qualidade de vida familiar, tem sido constante verificar que nunca existe um homem e uma mulher, que se unam afectivamente, com traços temperamentais semelhantes. Ora, se a diferença que expressa a lacuna precisa do outro para se completar, a diferença desequilibrada leva ao desequilíbrio do outro. Assim, não devemos confundir diferença com equilíbrio temperamental.
Por isso, não existem temperamentos “bons” nem temperamentos “maus”. Existem antes temperamentos sem EQUILÍBRIO. Aceitar o nosso temperamento é, por isso, o primeiro passo para conseguir o bem-estar pessoal e familiar. Aqui emerge um outro problema ao qual voltaremos mais tarde: se no início de uma relação afectiva a diferença temperamental provoca atracção, a continuidade dessa relação assenta no pressuposto da aceitação e respeito por essa diferença. Ora é a este nível que muitas uniões são atingidas, pois a vivência a longo termo com alguém que manifesta afinal tantas diferenças, é considerado como um factor negativo, quando na verdade foi ele que convocou essas duas pessoas para o amor.

Os quatro traços temperamentais

Não existindo temperamentos “bons” ou “maus”, vejamos então como se caracterizam os temperamentos. A maior parte dos estudos realizados até hoje, embora possam distinguir-se pela designação atribuída aos temperamentos, concordam entre si relativamente ao facto de que existem 4 temperamentos distintos, que passaremos a designar a partir deste momento por “traços temperamentais”: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico.
Não existe ninguém que possua um e somente um destes traços: todos nós possuímos um “tempero” dos quatro, alguns com mais de um e outros com mais de outro. Existe, assim, um traço temperamental predominante em cada um de nós que revela aspectos positivos e negativos.
Tomar consciência desse traço temperamental, permite, tal qual pintor na definição do seu esboço, apagar, corrigir alguma linha que está em desarmonia, fora do seu lugar.
Um exemplo concreto na aplicação destes conceitos refere-se à atitude que se desenvolve muitas vezes para com crianças que parecem ser rebeldes, fazendo só aquilo que querem fazer, sempre prontas a responder. A sua educação é mais complexa porque são crianças extrovertidas (possuindo traços de sanguíneo ou colérico mais acentuados). Neste contexto, os educadores, os pais e todos os que lidam com essas crianças devem tratá-las de acordo com este traço de extroversão. Se não for assim, como a investigação criminal revela, há fortes probabilidades que elas possam engrossar o grupo de criminosos (pois a maior parte destes são de temperamento extrovertido).
Por outro lado, os introvertidos parecem ser de mais fácil educação, mas desenvolvem facilmente problemas com a sua auto-estima e auto-imagem, considerando-se culpados por tudo e por nada. É neste grupo que existe maior sucesso escolar, dada a sua “natural” propensão para a disciplina. Ora, se os introvertidos reagem bem ao elogio, a censura afecta muito os extrovertidos.
Com este simples exemplo referimos a importância de considerar convenientemente este assunto, pois ele tem consequências decisivas sobre o nosso bem-estar e o daqueles que nos rodeiam no dia-a-dia.
 

Teste dos temperamentos
Avaliando o teu traço temperamental
 

Marque com um círculo as seguintes
características multiplicando por 5 o número encontrado em cada célula

Sente que tem
• Bom senso de humor
• Emotivo e demonstrativo
• Entusiasta
• Procura agradar às pessoas
• Gosta de participar em tudo
• Faz amigos com facilidade
• Personalidade atraente
• Espontâneo
• Gosta de falar (loquaz)
• Perdoa facilmente
• Esquecido
• Distraído
• Desorganizado
• Impulsivo
• Não se importa com pormenores
• Não escuta com atenção
• Segue a corrente da maioria
• Perde tempo falando
• Demora a terminar os projectos
• Facilmente se aborrece
Total de marcas _____ x 5 = _____
Traço SANGUÍNEO

Sente que
• Tem alvos definidos
• Dinâmico e activo
• Organizador
• Valente e audaz
• Gosta de trabalhar
• Procura soluções práticas
• Sabe delegar responsabilidades
• Independente e auto-suficiente
• Líder nato
• Vontade forte e decisiva
• Impaciente
• Aborrece-se facilmente
• Demasiado impetuoso
• Inflexível
• É difícil dizer: “Sinto muito”
• Decide pelos outros
• Mandão
• Falta de compaixão
• Pouca tolerância com erros
• Não cumprimenta ninguém
Total de marcas _____ x 5 = _____
Traço COLÉRICO

Sente que é uma
• Personalidade suave
• Calmo
• Diplomático e promotor da paz
• Sabe ouvir
• Ama a rotina
• Tranquilo e relaxado
• Humor discreto
• Evita os conflitos
• Trabalha melhor sob pressão
• Faz bem o que gosta de fazer
• Evita ficar preso nas actividades
• Tende a procrastinar
• Demora a tomar decisões
• Procura sempre justificar-se
• Tímido e reticente
• Sarcástico e escarnecedor
• Apático
• Falta de entusiasmo
• Preocupado com as aparências
• Permissivo
Total de marcas _____ x 5 = _____
Traço FLEUMÁTICO

Sente que
• Aprecia a beleza
• Profundo e pensador
• Faz amigos com cautela
• Disposto a sacrificar-se
• Perfeccionista
• Gosta de gráficos e números
• Organizado
• Compassivo
• Fiel e devotado
• Persistente e metódico
• Concentra-se nas coisas negativas
• Socialmente tímido e inseguro
• Suspeita dos motivos das pessoas
• Tendência a sentimentos de culpa
• Baixa estima própria
• Preocupa-se em demasia
• Tem o complexo de mártir
• Teórico e não prático
• Duro para perdoar os outros
• Vive no passado
Total de marcas _____ x 5 = _____
Traço MELANCÓLICO

 

“Conhece-te a ti mesmo”
Como vimos anteriormente, existem recursos psicológicos que podem ser úteis na prevenção e resolução de conflitos. Estes recursos têm a ver com as características da psique, i.e. que dão forma à pessoa não como expressão física, mas como realidade complexa de ideias e valores que nos constroem.
Os conflitos podem ser originados por diversos temperamentos a trabalhar em conjunto. A sua correcta gestão permite encontrar soluções criativas, e os conflitos podem transformar-se em ocasiões de crescimento saudável.
É do senso comum que existem certo tipos de pessoas mais propensas a gerar conflitos do que outras. Para conseguir um bom ambiente familiar e uma elevada satisfação é importante conhecermos o nosso temperamento e o daqueles com quem vivemos. Assim, poderemos antecipar e resolver mesmo os problemas mais graves.
Há qualidades positivas e negativas em todos os temperamentos. As qualidades positivas, quando são levadas ao extremo, convertem-se em negativas e cada traço negativo tem, em contrapartida, um traço positivo.
A compreensão do nosso temperamento básico não limita a nossa capacidade de desenvolvimento e crescimento. Parte do nosso temperamento pode ser reprimido ou alterado devido a traumas. Além disso, é importante compreender a diferença entre as tendências do temperamento e o comportamento. Enquanto as tendências básicas permanecem por toda a vida, os comportamentos específicos podem ser controlados, modificados ou eliminados através da renovação dos conceitos mentais.
Propomos que preencha agora a ficha preliminar de caracterização dos traços de temperamento. Na página da S&L na Internet estarão disponíveis outros testes mais detalhados, e na nossa próxima edição iremos analisar em profundidade o que fazer agora que estão identificados esses traços que nos distinguem uns dos outros. A aventura da descoberta de si mesmo proporcionará aos que nos rodeiam momentos de agradável convívio e relações humanas fortes e saudáveis. S&L

Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde, Mestre em Saúde Pública

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