
O século XXI encontra-nos ainda a lutar com doenças que pensávamos poder
erradicar ao longo do século XX. E entre os muitos males que passarão para o
futuro estão as doenças sexualmente transmissíveis, DST.
Com o advento da moderna antibioticoterapia, parecia a princípio que as doenças
como a sífilis e a gonorreia seriam simplesmente varridas do cenário. Os
primeiros anos foram, de facto, animadores. As taxas dessas e doutras doenças
contagiosas foram reduzidas a tal ponto que a eliminação definitiva,
imaginava-se, era apenas uma questão de tempo.
Novas realidades apareceram. Hábitos foram alterados. Nos anos 60 e 70,
assistimos a uma mudança de sociedade, com liberalização de práticas sexuais,
uso de drogas e, com isso, as projecções optimistas foram profundamente
alteradas. Os portadores de doenças sexuais são contados aos milhões, e, apesar
da relativa eficácia dos medicamentos disponíveis, o seu número aumenta sem
cessar.
A gonorreia triplicou nas últimas décadas só nos Estados Unidos, que regista
oficialmente três milhões de novos casos da doença cada ano. Igualmente, os
portadores de sífilis aumentam cada ano que passa. As demais doenças estão em
franco crescimento. Nos últimos anos, o espectro do HIV vem-se sobrepondo a
todas as doenças sexuais já conhecidas, aumentando a preocupação de médicos e
higienistas.
As principais doenças sexualmente transmissíveis dividem-se em dois grupos: 1)
as que provocam lesões e feridas nas áreas genitais; e 2) as que provocam
inflamações e secreções sem lesões aparentes. Essas doenças estão associadas a
componentes emocionais, pois em muitas pessoas há sentimentos negativos, como,
por exemplo, culpa e remorso, que envolvem relações sexuais ilícitas.
Herpes Genital
São seis os tipos de lesões genitais que aparecem com maior frequência. O
principal tipo, e o mais comum, que afecta entre 5% a 10% dos adultos
sexualmente activos, é conhecido como herpes genital. Esta lesão costuma
aparecer entre dois a sete dias após o contacto sexual com a pessoa portadora da
doença, e manifesta-se através de pequenas vesículas ou bolhas avermelhadas e
dolorosas. Pode estar associada a febre e formação de gânglios na região
inguinal. Tem uma duração máxima de duas semanas, mas possui a tendência de
reaparecer espontaneamente, mesmo na ausência de novos contactos sexuais.
A razão desse reaparecimento, independente da abstinência, pode estar
relacionada com a queda de resistência geral e factores emocionais. As novas
manifestações são geralmente menos dolorosas e de menor duração, devido a certo
aumento da imunidade do corpo em relação ao vírus.
Embora não se revista de maior gravidade para o adulto, pode no entanto ser
fatal quando infecta o recém-nascido de uma mãe portadora de herpes genital.
O tratamento existente na actualidade não elimina a doença. Apenas diminui a
recidiva, isso se a medicação específica for usada por um período de quatro a
seis anos.
Sífilis
Secundada pelo herpes genital, está a velha e quase esquecida sífilis. Embora
represente bem menos casos, cerca de 100 mil por ano nos Estados Unidos, tem
aumentado anualmente desde os anos 80. Acredita-se que, em parte, este avanço é
resultado do aumento crescente do uso de drogas, especialmente a cocaína.
A sífilis é potencialmente mais prejudicial nos seus efeitos para o organismo.
Trata-se de uma doença que não se limita apenas à região genital, mas pode
afectar outros órgãos, tais como os vasos sanguíneos e o sistema nervoso
central. Além disso, existe a possibilidade de passar para o feto da futura mãe,
pois o germe pode ultrapassar a barreira da placenta.
A doença é causada pelo chamado Treponema pallidum, que invade a pele ou mucosa
da área genital provocando o aparecimento de uma lesão semelhante a uma úlcera,
cujas bordas são elevadas e relativamente endurecidas. Essa é a fase primária da
sífilis, e acontece cerca de dez a noventa dias após o contacto com o vírus. A
duração dessa ulceração varia de um a dois meses, em média, quando desaparece e
deixa uma pequena cicatriz. Caso não tenha sido tratada adequadamente,
instala-se a sífilis secundária, cerca de dois meses após a primeira fase.
A sífilis secundária já não é localizada na região genital, mas manifesta-se em
todo o organismo. As lesões acontecem na pele e podem ser manchas avermelhadas
um pouco elevadas ou também em forma de pústulas, cujo conteúdo é altamente
contagioso. Mal--estar geral, dores nas articulações, inapetência e febre estão,
muitas vezes, presentes.
Esta fase secundária desaparece espontaneamente, mesmo sem tratamento. O
indivíduo deixa então de ser contaminador, excepto pela doação de sangue.
Como última fase da doença, existe a sífilis tardia, que pode surgir em 10% dos
doentes não tratados, podendo afectar os vasos sanguíneos e o coração. É a
sífilis cardiovascular. Ataca, principalmente, as paredes da maior artéria do
coração, a aorta. Com isso, surgem dilatações (aneurismas) e defeitos na válvula
aórtica.
Outro tipo de sífilis afecta o sistema nervoso, provocando a neurossífilis, e
pode aparecer até 35 anos após o surgimento da sífilis primária. A neurossífilis
altera principalmente os nervos sensitivos, prejudicando a percepção táctil.
Este problema afecta principalmente os membros inferiores, que perdem a
capacidade de perceber vibrações e a posição relativa das pernas no espaço. O
paciente não sabe ao certo se já pisou ou não o chão.
O tratamento de todas as fases da sífilis continua ainda a ser a penicilina,
embora na fase tardia o resultado não seja a cura total da doença. As sequelas
cardiovasculares ou neurológicas permanecem, apesar do tratamento.

Outras DST
Há ainda mais quatro doenças sexualmente transmissíveis, que provocam lesões
genitais:
Cancro mole, que produz uma ulceração nos órgãos genitais. Como o próprio nome
indica, é de consistência flácida em comparação com a úlcera da sífilis, cujas
bordas são endurecidas.
Linfogranuloma venéreo. Esta doença aparece nas regiões genitais como pequena
vesícula que prontamente desaparece. Surge, em seguida, na região próxima dos
genitais, massas dolorosas que eliminam pus em vários orifícios. Como todas as
doenças infecciosas pode ser acompanhada de febre, dores nas articulações,
conjuntivite e artrite.
Em menor proporção, existem as últimas doenças caracterizadas por lesões
genitais.
Granuloma inguinal, que forma ulcerações que vão crescendo pelas bordas e
cicatrizando no centro; e, finalmente, o condiloma acuminado, que provoca uma
espécie de verruga com aspecto de couve-flor, nas áreas genitais.
Sem Lesões
O segundo grupo de doenças sexualmente transmissíveis inclui as que não formam
lesões, mas se caracterizam por inflamações e corrimentos nos órgãos afectados.
A principal desse grupo é a gonorreia. Embora não sendo a mais frequente, é a
mais conhecida; e, no passado, já foi muito temida. O seu agente causador foi
descoberto em 1897, por um pesquisador chamado Neisser, daí o nome da bactéria –
Neisseria gonorrhoeae. Esta bactéria apresenta-se sempre aos pares, o que
facilita a identificação do agente através do microscópio.
A gonorreia surge poucos dias após o contágio e manifesta-se por corrimento
purulento, dificuldade e dor ao urinar. Nas mulheres, a infecção pode afectar o
útero e as trompas. Após a cicatrização, as trompas podem ser obstruídas,
causando esterilidade. No homem, quando não prontamente tratada, a doença pode
evoluir para a fibrose de certos segmentos da uretra, obstruindo a saída da
urina. Estas complicações exigiam dolorosos processos de dilatação, para
restabelecer o fluxo razoável da urina.
Há pessoas que transmitem a gonorreia a outras, embora elas mesmas não tenham
sintomas da doença. Isso é possível até seis meses após o contágio. Esse
fenómeno está, certamente, relacionado com o grau de resistência do indivíduo
que não contraiu a doença, propriamente dita, e se tornou num portador “sadio”,
mas contaminador.
No passado, o tratamento era praticamente feito apenas através do uso da
penicilina. Actualmente, os germes tornaram-se resistentes, exigindo a aplicação
de outros medicamentos.
Por último, temos infecções como uretrite, causada principalmente pelo vírus
Chlamidia trachomatis e que não é tão contagiosa como a gonorreia. Diferente
desta, a quantidade de pus na uretra é menor, e costuma aparecer em poucas gotas
após o paciente espremer ou “ordenhar” o canal uretral. Há dificuldade para
urinar, e dor no canal.
Sida
A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, Sida, veio aumentar a lista de doenças
capazes de serem transmitidas através de contactos sexuais. Ela é considerada
como resultado de uma Infecção pelo vírus HIV que, como outros vírus, pode ser
transmitido de pessoa para pessoa, através de via parenteral – injecções,
cirurgias, transfusões – ou por via sexual.
O verdadeiro risco é difícil de determinar, pois as pessoas, de maneira geral
sujeitas ao contágio, têm uma vida sexual variada com mudanças frequentes de
parceiros. Estima-se um risco de contrair o HIV por contacto sexual numa
variação de 1:30, que é um risco grande, até 1:10000, que é um risco muito
menor, dependendo da forma de contacto sexual. Isto ainda depende das condições
de saúde dos órgãos genitais da pessoa.
A existência desse risco tem levado as autoridades sanitárias a monumentais
campanhas de esclarecimento e sobre o uso de protecção adequada. Claro que é
difícil de avaliar a eficácia desses programas. Por isso, a atitude mais segura
é evitar por completo os relacionamentos impróprios, bem como o uso de produtos
tóxicos de qualquer natureza. Por si sós, esses produtos são capazes de
comprometer a imunidade do organismo.
A questão que surge, diante do aumento das doenças sexualmente transmissíveis
não é o seu tratamento, mas a profilaxia. Evitar o problema é a meta a ser
atingida, proposta à população. Enquanto os preservativos se tornam as estrelas
da prevenção, a verdadeira prevenção é a abstinência das relações sexuais de
risco. A multiplicação dessas doenças está proporcionalmente direccionada à
queda de restrições a esse tipo de relacionamento. A verdade, porém, é que o
sexo seguro só existe hoje dentro dos padrões considerados “ultrapassados”. O
casamento torna-se, assim, uma garantia na prevenção das DST. S&L
Manfred Krusche
Supervisor Médico da nossa congénere
Vida e Saúde