
POSIÇÕES!
Um dever social é expresso quando assumimos uma posição, quer seja imposta ou
escolhida. Entretanto, o simples facto de a ocupar, impõe o dever de desempenhar
o papel correspondente. A maioria das posições que ocupamos resulta das escolhas
que fazemos. Um exemplo disso é a mulher que escolhe ocupar a posição de mãe.
Resolve ter filhos, mas tem a idade avançada, o que pressupõe algumas
dificuldades. Além disso, ela não consegue engravidar pelos métodos naturais e
começa uma série de tratamentos artificiais. Finalmente, consegue engravidar.
Com uma gestação difícil, precisa de repouso absoluto e, por isso, abandona o
trabalho e fica na cama. Ainda assim o nascimento do bebé precisa de ser
antecipado quase quatro semanas. Então, a criança nasce e o desejo é satisfeito.
Agora, ela deve enfrentar a realidade de ter um filho; na verdade, nasceu uma
filha mais morena do que imaginava. Foi decepcionante. Dado o desejo de ter um
filho e as dificuldades pelas quais passou durante a gestação, ela não se
lembrou de que o papel de mãe não corresponde só a engravidar, conceber e dar à
luz. Junto com os privilégios estão as obrigações. Ela não contava com a
obrigação de amamentar, com o sacrifício de dar banho à criança, com o cuidado
quando ela chorava, com o mudar as fraldas, etc.. Nessa atmosfera, não foi fácil
dizer-lhe que a filha precisava de carinho tanto quanto precisava de colostro.
Pelo colostro, o bebé fortalece o sistema imunitário. Pelo carinho, robustece o
sistema emocional.
A Missão de Cada Um
Quando escolhemos uma posição, não podemos fazer só o que queremos, mas o que é
preciso fazer. Quanto mais livre for a escolha, mais claras e definidas são as
obrigações correspondentes. Portanto, uma vez feita a escolha da posição,
cumpre-nos o desempenho do papel. Quando aprendemos a desempenhar
apropriadamente os papéis, os nossos relacionamentos tornam-se mais vibrantes e
calorosos. O cônjuge torna-se entusiasmado e saudável. A vida enche-se de
esperança e encanto.
Relacionar-se para satisfação mútua é difícil. É tanto mais difícil quanto a
incompreensão do nosso papel. Não gostamos de ceder nem de perder; mas, no
cômputo geral, é melhor estar acompanhado do que sozinho. A vida a dois é menos
doentia do que o sofrimento de estar só.
A família, como parte da estrutura social, tem posições e papéis. Há as posições
de pai, mãe, filho, avó, tio, primo, entre outras graduações. A cada posição
corresponde um papel com direitos e recompensas. O membro da família é tanto
mais estimado quanto melhor desempenha o seu papel dentro das expectativas da
estrutura familiar, e desfruta dos privilégios com maior abundância. A família
administra os recursos materiais e afectivos entre os seus membros e deveria
procurar fazê-lo com justiça. Pode dar-se o caso de um membro não ter cumprido o
seu papel e ter os benefícios de quem cumpriu, o que vai provocar um
desequilíbrio na estrutura familiar.
A função da família, como uma instituição social, é cumprida quando ela
reconhece que existe um relacionamento de membros, governado por regras claras,
suposições básicas e fundamentos firmes. A família é maior do que qualquer
membro individual. É um todo maior do que a parte. Quando se deixa destruir por
causa de um membro, falha na sua função. Não corresponde à posição que ocupa nem
cumpre o seu papel. Por causa do individualismo exagerado, sentimos haver um
enfraquecimento da família para satisfazer o narcisismo de um dos seus membros.
Corremos o risco de a ver envolvida por caprichos individuais. A gravidade da
situação aumenta porque não há mais propostas alternativas que socializem melhor
o indivíduo. Se analisarmos bem as críticas feitas às posições tradicionais,
veremos que são feitas por indivíduos que querem ter privilégios e recompensas,
sem pagar o preço das obrigações. Mas qualquer que seja a posição, tradicional
ou moderna, ela é regida por regras e normas que precisam de ser cumpridas.
O Êxito Tem um Preço
Todos os noivos querem iniciar a vida familiar no mesmo status dos pais: tendo
apartamento, carro, poupança, renda suficiente para uma vida confortável. Não
têm consciência de que isso é construído ao longo dos anos. Não se herda uma
família nuclear. Ela é formada. A beleza do relacionamento está na luta conjunta
rumo a uma família equilibrada, integrada e feliz. Quando os cônjuges se unem em
torno dos mesmos objectivos, são lançados os fundamentos de uma família
saudável. Não entram na relação por motivos individuais e escusos, para tirar
vantagem, mas para crescer juntos. Os conflitos surgem quando, na maioria das
vezes, falta compreensão sobre a posição escolhida. Por isso, é recomendável
que, antes de ocupar uma posição, nos preocupemos com as exigências do papel a
ser desempenhado, e nos preparemos devidamente para ele.
No casamento, nem sempre o problema é só dos noivos ou recém-casados, mas dos
pais que contribuem para a ruína do casamento dos filhos. Primeiro, pelo mau
exemplo dado, pelas intrigas, mentiras e infidelidade. Por mais que os filhos
rejeitem esse modelo, acabam por imitá-lo, às vezes inadvertidamente. Depois, há
certos comportamentos antagónicos em busca da harmonia desejada pelo casal. Um
desses comportamentos é a rivalidade. A filha sofre mais a influência da mãe, do
que o filho a do pai. A mulher, em vez de amiga, torna-se rival e competidora. A
filha cresce numa terrível ambivalência, sendo atraída ao homem pelos impulsos
biológicos, mas, ao mesmo tempo, sentindo-se repelida por esse homem, porque
aprendeu com a mãe que ele é um monstro. É aí que os preconceitos contra o sexo
oposto afloram e causam um grande estrago à relação de marido e mulher.
Para evitar decepções, desencanto e frustrações, quando se pensa em ocupar uma
posição, é preciso conhecer o papel dela esperado. Depois, é necessário
perguntar se é isso mesmo o que se deseja e preparar-se para aprender da melhor
forma o papel a desempenhar. Assim, o indivíduo é qualificado para uma vida mais
satisfatória e feliz.
Em suma, ocupamos posições, querendo ou não. Algumas são escolhidas por nós
mesmos, e outras são-nos atribuídas. Nos dois casos temos obrigações e
recompensas. Casar e formar uma família é uma escolha. Devemos ser conscientes e
livres para fazer a escolha e assumir as consequências. Os ganhos a longo prazo
superam os lucros imediatos. Quem investir a longo prazo terá sempre crédito
que, no mais amplo sentido, sustentará a segurança. S&L
Belisário Marques
Doutorado em Psicologia