Vida Familiar / Agosto 2004


POSIÇÕES!

 

Um dever social é expresso quando assumimos uma posição, quer seja imposta ou escolhida. Entretanto, o simples facto de a ocupar, impõe o dever de desempenhar o papel correspondente. A maioria das posições que ocupamos resulta das escolhas que fazemos. Um exemplo disso é a mulher que escolhe ocupar a posição de mãe. Resolve ter filhos, mas tem a idade avançada, o que pressupõe algumas dificuldades. Além disso, ela não consegue engravidar pelos métodos naturais e começa uma série de tratamentos artificiais. Finalmente, consegue engravidar. Com uma gestação difícil, precisa de repouso absoluto e, por isso, abandona o trabalho e fica na cama. Ainda assim o nascimento do bebé precisa de ser antecipado quase quatro semanas. Então, a criança nasce e o desejo é satisfeito.
Agora, ela deve enfrentar a realidade de ter um filho; na verdade, nasceu uma filha mais morena do que imaginava. Foi decepcionante. Dado o desejo de ter um filho e as dificuldades pelas quais passou durante a gestação, ela não se lembrou de que o papel de mãe não corresponde só a engravidar, conceber e dar à luz. Junto com os privilégios estão as obrigações. Ela não contava com a obrigação de amamentar, com o sacrifício de dar banho à criança, com o cuidado quando ela chorava, com o mudar as fraldas, etc.. Nessa atmosfera, não foi fácil dizer-lhe que a filha precisava de carinho tanto quanto precisava de colostro. Pelo colostro, o bebé fortalece o sistema imunitário. Pelo carinho, robustece o sistema emocional.

A Missão de Cada Um
Quando escolhemos uma posição, não podemos fazer só o que queremos, mas o que é preciso fazer. Quanto mais livre for a escolha, mais claras e definidas são as obrigações correspondentes. Portanto, uma vez feita a escolha da posição, cumpre-nos o desempenho do papel. Quando aprendemos a desempenhar apropriadamente os papéis, os nossos relacionamentos tornam-se mais vibrantes e calorosos. O cônjuge torna-se entusiasmado e saudável. A vida enche-se de esperança e encanto.
Relacionar-se para satisfação mútua é difícil. É tanto mais difícil quanto a incompreensão do nosso papel. Não gostamos de ceder nem de perder; mas, no cômputo geral, é melhor estar acompanhado do que sozinho. A vida a dois é menos doentia do que o sofrimento de estar só.
A família, como parte da estrutura social, tem posições e papéis. Há as posições de pai, mãe, filho, avó, tio, primo, entre outras graduações. A cada posição corresponde um papel com direitos e recompensas. O membro da família é tanto mais estimado quanto melhor desempenha o seu papel dentro das expectativas da estrutura familiar, e desfruta dos privilégios com maior abundância. A família administra os recursos materiais e afectivos entre os seus membros e deveria procurar fazê-lo com justiça. Pode dar-se o caso de um membro não ter cumprido o seu papel e ter os benefícios de quem cumpriu, o que vai provocar um desequilíbrio na estrutura familiar.
A função da família, como uma instituição social, é cumprida quando ela reconhece que existe um relacionamento de membros, governado por regras claras, suposições básicas e fundamentos firmes. A família é maior do que qualquer membro individual. É um todo maior do que a parte. Quando se deixa destruir por causa de um membro, falha na sua função. Não corresponde à posição que ocupa nem cumpre o seu papel. Por causa do individualismo exagerado, sentimos haver um enfraquecimento da família para satisfazer o narcisismo de um dos seus membros. Corremos o risco de a ver envolvida por caprichos individuais. A gravidade da situação aumenta porque não há mais propostas alternativas que socializem melhor o indivíduo. Se analisarmos bem as críticas feitas às posições tradicionais, veremos que são feitas por indivíduos que querem ter privilégios e recompensas, sem pagar o preço das obrigações. Mas qualquer que seja a posição, tradicional ou moderna, ela é regida por regras e normas que precisam de ser cumpridas.

O Êxito Tem um Preço
Todos os noivos querem iniciar a vida familiar no mesmo status dos pais: tendo apartamento, carro, poupança, renda suficiente para uma vida confortável. Não têm consciência de que isso é construído ao longo dos anos. Não se herda uma família nuclear. Ela é formada. A beleza do relacionamento está na luta conjunta rumo a uma família equilibrada, integrada e feliz. Quando os cônjuges se unem em torno dos mesmos objectivos, são lançados os fundamentos de uma família saudável. Não entram na relação por motivos individuais e escusos, para tirar vantagem, mas para crescer juntos. Os conflitos surgem quando, na maioria das vezes, falta compreensão sobre a posição escolhida. Por isso, é recomendável que, antes de ocupar uma posição, nos preocupemos com as exigências do papel a ser desempenhado, e nos preparemos devidamente para ele.
No casamento, nem sempre o problema é só dos noivos ou recém-casados, mas dos pais que contribuem para a ruína do casamento dos filhos. Primeiro, pelo mau exemplo dado, pelas intrigas, mentiras e infidelidade. Por mais que os filhos rejeitem esse modelo, acabam por imitá-lo, às vezes inadvertidamente. Depois, há certos comportamentos antagónicos em busca da harmonia desejada pelo casal. Um desses comportamentos é a rivalidade. A filha sofre mais a influência da mãe, do que o filho a do pai. A mulher, em vez de amiga, torna-se rival e competidora. A filha cresce numa terrível ambivalência, sendo atraída ao homem pelos impulsos biológicos, mas, ao mesmo tempo, sentindo-se repelida por esse homem, porque aprendeu com a mãe que ele é um monstro. É aí que os preconceitos contra o sexo oposto afloram e causam um grande estrago à relação de marido e mulher.
Para evitar decepções, desencanto e frustrações, quando se pensa em ocupar uma posição, é preciso conhecer o papel dela esperado. Depois, é necessário perguntar se é isso mesmo o que se deseja e preparar-se para aprender da melhor forma o papel a desempenhar. Assim, o indivíduo é qualificado para uma vida mais satisfatória e feliz.
Em suma, ocupamos posições, querendo ou não. Algumas são escolhidas por nós mesmos, e outras são-nos atribuídas. Nos dois casos temos obrigações e recompensas. Casar e formar uma família é uma escolha. Devemos ser conscientes e livres para fazer a escolha e assumir as consequências. Os ganhos a longo prazo superam os lucros imediatos. Quem investir a longo prazo terá sempre crédito que, no mais amplo sentido, sustentará a segurança. S&L

Belisário Marques
Doutorado em Psicologia

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