Nutrição / Fevereiro 2004

Combata o Cancro com Fibra

Novas investigações confirmam o que os nutricionistas têm dito durante anos: Comer muitos alimentos ricos em fibras é uma maneira fantástica de proteger a saúde. Isso pode parecer uma afirmação exagerada. Mas, de acordo com os investigadores que estão a fazer o maior estudo de sempre sobre o relacionamento entre a alimentação e o cancro, é a verdade. Durante 15 anos, o European Prospective Investigation of Cancer and Nutricion (EPIC) tem examinado os hábitos alimentares de mais de 400 000 pessoas em nove estados europeus. Os investigadores do EPIC relataram resultados preliminares do seu estudo de grupo a longo prazo numa conferência sobre nutrição levada a efeito, em 2001, em Lion, França.
Entre outras descobertas, os investigadores determinaram que a fibra é particularmente importante para reduzir o risco de cancro colorrectal, a segunda causa mais importante de morte relacionada com o cancro, nos Estados Unidos. “Envolvemos 400 000 pessoas no estudo, separadas em cinco grupos de acordo com a fibra que ingerem,” explica a Professora Sheila Bingham, da Unidade de Dunn de Nutrição Humana, na Universidade de Cambridge. “O grupo que ingeria a maior quantidade de fibra reduziu o seu risco de cancro colorrectal numa percentagem que chegou a atingir os 40 por cento.”
As descobertas do EPIC parecem confirmar o que muitos nutricionistas têm dito, durante décadas, sobre a fibra. Por outro lado, pode ser que se recorde de notícias que, há alguns anos atrás, afirmavam que a fibra era “inútil” como protecção contra o cancro colorrectal. Portanto, em que acreditar?

Mensagens Misturadas
Estes assuntos sobre saúde surgem em resposta a estudos que duvidam do papel protector da fibra. Um dos maiores golpes contra a reputação da fibra surgiu em 1999, quando o New England Journal of Medicine publicou os resultados do Estudo da Enfermeira sobre Saúde. Esta investigação – uma análise dos estilos alimentares e da saúde de 89 000 enfermeiras e enfermeiros – descobriu que os participantes que ingeriam a maior quantidade de fibra não reduziram o seu risco de cancro do cólon.
“Há muito tempo que incentivávamos e acreditávamos no papel protector da fibra, por isso esse estudo foi um pouco desconcertante,” diz Kathleen Zelman, uma nutricionista e porta-voz da Associação Americana de Nutrição. “Contudo, não mudámos as nossas recomendações, porque não se faz isso baseado apenas num ou dois estudos.”
Na realidade, alguns críticos das descobertas “anti-fibra” apontaram certas falhas na forma como a investigação foi feita. Entretanto, outros estudos trouxeram à luz as propriedades protectoras da fibra. Uma equipa da Universidade de Harvard, por exemplo, descobriu que certas enzimas derivadas da fibra têm a capacidade de bloquear o processo do cancro do cólon.
Investigadores pertencentes ao projecto EPIC – que conseguiram os primeiros resultados positivos sobre a fibra num grupo tão grande – dizem que a sua extensão, em si própria, já tem um largo alcance em clarificar a confusão. Esses resultados positivos não surpreenderam Bingham, um especialista importante sobre a fibra. “Há muito bons mecanismos através dos quais a fibra protege contra o cancro colorrectal,” diz.
 

Montes de Benefícios
Alguns podem pensar que o júri ainda não deu a última palavra sobre o papel da fibra no combate ao cancro. Mesmo assim, dado os muitos benefícios dos alimentos ricos em fibras como os grãos integrais, frutas e vegetais, os argumentos para que adicione mais fibra à sua alimentação são esmagadores. Uma alimentação rica em fibra pode reduzir os níveis de colesterol, ajudar a manter a regularidade e a evitar condições gastrointestinais, tais como a diverticulose.
Ao contrário dos seus equivalentes processados, tais como arroz branco ou pão branco, os alimentos integrais retêm a sua fibra original, o farelo e o gérmen ricos em nutrientes, e o amiláceo endosperma. Isso pode soar muito académico, mas do ponto de vista nutricional faz uma grande diferença.
“Processar os grãos integrais para criar grãos refinados remove a maior parte do seu conteúdo nutricional,” diz Verne Varona, um professor de saúde conhecido e autor do livro Nature’s Cancerfighting Foods (Os Alimentos da Natureza que Lutam Contra o Cancro). “As pessoas crêem, erroneamente, que as leis que exigem que a farinha branca seja enriquecida compensam os muitos e valiosos nutrientes que se perdem durante o processamento. É verdade que algumas vitaminas e minerais sintéticos são adicionados à farinha branca, mas isso nem se aproxima sequer de substituir os nutrientes perdidos.”
O trigo integral, por exemplo, contém cálcio, ferro, magnésio, fósforo, sódio, zinco, cobre, manganês e selénio. Também tem ácido ascórbico, tiamina, riboflavina, niacina, ácido pantoténico, vitamina B6, folato e vitamina E. “A maior parte destes nutrientes encontram-se no farelo e no gérmen e são arrancados durante o processamento,” diz Varona. O processo de moagem também remove centenas de fitoquímicos que poderão ajudar a reduzir o risco de cancro, diabetes e doenças cardíacas.

 

O trigo integral, por exemplo, contém
cálcio, ferro, magnésio, fósforo, sódio, zinco, cobre, manganês e selénio. Também tem ácido ascórbico, tiamina, riboflavina, niacina, ácido pantoténico, vitamina B6, folato e
vitamina E.

“Também recomendo arroz integral, que é excelente como entrada, ou cevada, que é maravilhosa nas sopas de vegetais ou misturadas com legumes, tais como lentilhas.”

 

Grãos Integrais: Os Hidratos Perfeitos
O organismo converte todos os hidratos de carbono em glicose. Mas decompõe os grãos processados muito mais rapidamente do que os grãos intactos. A decomposição rápida dos hidratos de carbono processados causam, muitas vezes, grandes oscilações do açúcar no sangue que podem levar a ataques de fome, causar a descarga de hormonas de stresse e iniciar o acumular de placas arteriais. Varona compara os alimentos feitos com grãos refinados com o papel de jornal de fácil queima. Os grãos integrais, por outro lado, são como toros que queimam durante horas e proporcionam um calor contínuo.
Os grãos integrais mais comuns são o arroz integral, cevada, milho, aveia, trigo sarraceno, centeio e trigo integral. Poderá, também, experimentar outros grãos à venda em casas de produtos alimentares. É fácil arranjar boas receitas de alimentos feitos com grãos integrais na Internet. Mas, habituar-se a gostar destes alimentos de grande valor nutritivo poderá requerer alguma paciência – os grãos integrais levam, geralmente, mais tempo para cozer do que os grãos refinados.
 

Adoptar a Alimentação Certa
Portanto, qual é a melhor maneira de aumentar a quantidade de fibra da nossa alimentação? Qual é a quantidade certa? No estudo EPIC, aqueles que beneficiaram da maior protecção contra o cancro colorrectal comiam 50% mais de fibra do que os seus pares. Isso está de acordo com a recomendação actual de aumentar o consumo de fibra em 50 por cento. Seguir a recomendação do Instituto Nacional do Cancro, dos Estados Unidos, “5 por Dia” – que sugere comer cinco doses de fruta e vegetais por dia – é outra forma excelente de aumentar o consumo de fibra.
“Não há gordura nas frutas e nos vegetais, e estão cheios de vitaminas, minerais e fitoquímicos – todas aquelas coisas que são benéficas para prevenir o cancro,” diz Zelman. “Outra forma excelente de aumentar o consumo de fibra é começar o dia com um cereal que tenha a palavra ‘bran’ (farelo) no título. Um cereal baseado no farelo dá-nos, geralmente, mais fibra do que os outros cereais para pequeno almoço.”
Mas tenha cuidado. Muitos pães e cereais para pequeno almoço que contêm pouco ou nenhuns grãos integrais são falsamente etiquetados como tendo “multi-cereais” ou “grãos naturais”. Se a embalagem não indicar “100 por cento grãos integrais por peso” ou 100 por cento trigo integral”, leia a etiqueta com mais cuidado. Os ingredientes de maior percentagem são sempre listados primeiro. Por isso, se o primeiro ingrediente indicado for “aveia integral”, esse alimento é feito de grãos integrais. Se a “aveia integral” for listada em nono lugar da lista, encontrou um impostor.
Para garantir uma fibra alimentar adequada, Varona sugere que se coma pelo menos uma chávena de grãos integrais por dia. “Poderá ser uma chávena de flocos de aveia, cozidos em água, com cobertura de amêndoas tostadas, canela, ou uma pequena quantidade de passas,” diz. “Também recomendo arroz integral, que é excelente como entrada, ou cevada, que é maravilhosa nas sopas de vegetais ou misturadas com legumes, tais como lentilhas.”
O que é importante é ter melhor saúde e ter, simultaneamente, o prazer de comer alimentos com um melhor sabor. Quando tiver provado o sabor rico do pão fresco feito com cereais integrais, guardará o pão branco para os patinhos. S&L














 


 

 

Joel Groover
Escritor freelance sobre assuntos de saúde

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