Vida Familiar / Fevereiro 2004

Catapultando a vontade

Caracterização do tipo de conflito
Muitas situações de início de uma vida oferecida às toxicodependências estão relacionadas com situações de conflito vividas dentro da célula familiar. Importa, por isso, entender os tipos de conflito que podem afectar a felicidade da família e definir as quatro vertentes nas quais um conflito pode acontecer. Deste modo, poder-se-á contribuir para a construção de uma personalidade que seja suficientemente equilibrada e autónoma para resistir aos apelos que chegam de todos os lados para enveredar no mundo da toxicodependência.
A gestão dos conflitos deve ser desenvolvida com o auxílio de um mediador. O primeiro mediador deve ser a pessoa com quem se tem o conflito:

Regra Nº 1 para a resolução dos conflitos: não recorras a mais ninguém, a não ser à pessoa com quem tens um conflito, enquanto este não tiver outras testemunhas.
É importante que cada um dos membros do família se comprometa que não irá recorrer, em primeira mão, aos amigos, pais, conselheiro matrimonial, psicólogos, na resolução de conflitos, mas antes adoptará a pessoa com quem teve o conflito como primeiro mediador dos seus conflitos.

O conflito latente
Um conflito, antes de se manifestar nas suas várias dimensões, começa sempre por ser um acontecimento latente. De acordo com o modo como se lida com ele determinará o seu impacto na vida da pessoa.
- Qualquer conflito começa por ser um conflito latente. Uma inconsistência, uma falta de comunalidade, que ainda se situa no foro íntimo, é o primeiro passo do desenvolvimento do conflito. Aqui existem várias possibilidades para se lidar com

Muitas situações de início de uma vida oferecida às toxicodependências estão relacionadas com situações de conflito vividas dentro da célula familiar.

a situação: pode-se negá-la, fazer de conta que não é nada de importante e esperar esquecer o ocorrido. Embora esta seja a estratégia que muitos utilizam, esta maneira de lidar com os conflitos pode levar ao recalcamento, facilitando assim uma complexa situação no futuro, na qual os afectos podem ficar comprometidos pela situação de “negação” do conflito.
Qualquer situação de desconforto deve ser avaliada no seu potencial de perigosidade sobre uma relação. Uma falta de comunalidade sobre um aspecto da vida a dois pode passar pela adaptação, e assim evitar-se o conflito. No entanto, pode, também, passar pela transposição dessa situação latente, para uma situação de conflito emergente.
O conflito latente é caracterizado por forças implícitas que não foram reveladas de forma clara e plena e não chegaram ainda a um conflito extremo. Exemplos de conflitos latentes são as mudanças nos relacionamentos pessoais em que uma das partes não tem consciência da seriedade do conflito ocorrido na outra parte.
Neste tipo de conflitos a transparência pode ajudar os participantes a identificarem as mudanças ou os problemas que preocupam e podem pôr em causa o futuro. Esta transparência permite um processo de educação mútua em volta das questões e dos interesses envolvidos.
O conflito emergente
- Conflitos emergentes, são conflitos em que as posições das partes estão identificadas. Certas situações que causam desconforto não são recalcadas ou mantidas na indiferença. É bom identificá-las e exprimir junto do outro o seu impacto, enquanto elas perturbam. Seguidamente, devem ser negociadas, de modo a evitar que conflitos emergentes não se transformem em conflitos manifestos.
Num conflito emergente é reconhecido que alguma coisa causa desconforto, algumas questões estão claras, no entanto não ocorreu nenhuma negociação cooperativa viável ou um processo de resolução dos problemas. Estes conflitos têm um potencial para crescer, se um procedimento de resolução não for encontrado e implementado. Neste caso, um processo de negociação auxilia as partes para que comecem a comunicar e a chegar a acordos. (ex.: não se deite o sol sobre a vossa ira...)

O conflito manifesto
- Uma união na base de comunalidades identificadas como suficientemente fortes para levar duas pessoas a juntarem as suas vidas, pode ser perturbada gravemente por conflitos manifestos. Neste caso, a aceitação explícita de que existe uma situação de conflito no qual as partes estão envolvidas numa disputa activa e contínua, põe em causa a felicidade do casal. Talvez o casal tenha começado a negociar, mas chegou a um ponto de bloqueio. As feridas estão abertas e, por vezes, extravasa para fora de portas a gravidade da situação de conflito.
Regra Nº 2 não deixes que um conflito latente se transforme num conflito manifesto.
(Em situações extremas o recurso a um mediador pode ser uma necessidade. Devem-se, no entanto, esgotar todas as possibilidades para resolver o conflito no interior do casal.)

Interagindo:
Preenche a ficha da identificação de potenciais fontes latentes, emergentes e manifestas de conflito. Partilha a tua lista e analisa depois cada ponto dessa lista em diálogo franco e aberto com o teu/tua parceiro/a. Define as regras para a gestão de conflitos destes três tipos com as quais vais poder conversar com o teu/tua companheiro/a sobre os problemas.

 

Grelha da identificação de potenciais fontes latentes, emergentes e manifestas de conflito

 

Sugestões: depois de identificares as três primeiras ocorrências relacionadas com as fontes de conflito com o teu/a parceiro/a ocorridas na última semana, procura um momento calmo e de relaxamento para considerar cada uma dessas ocorrências com ele/a (por exemplo, um passeio, uma viagem de carro, um jantar à luz de velas). Falando a “frio” não deixes que as emoções tomem a predominância, mas explica o teu ponto de vista. Ouve depois o ponto de vista oposto e estabelece uma base comum para resolver a situação. Feito regularmente este “check-up” dos conflitos é possível evitar que poucas coisas haja a escrever na terceira linha deste quadro, enquanto a primeira linha (dos conflitos latentes) se enche de detalhes. Depois de estabelecida esta rotina semanal, o casal habituou-se a estabelecer um momento na sua relação de resolução de conflitos a “frio” contribuindo assim para cultivar uma relação saudável na qual a comunicação é mantida. Com o passar dos meses, anos, a comunicação é abundante, enquanto os registos das segunda e terceira linhas se vão esvaziando de conteúdo.

 

  1ª ocorrência 2ª ocorrência 3ª ocorrência
Conflitos Latentes
regista as primeiras 3
ocorrências de alguma
inconsistência, uma falta de comunalidade, considerada de menor importância, em que se fez de conta que “não é nada de importante”, mas que provocaram alguma situação de desconforto

Exemplo:houve alguma mudança no relacionamento pessoal em que uma das partes não tem consciência da perturbação que causou?

     
Conflitos Emergentes
regista as três ocorrências em que as posições das partes estão identificadas sobre alguma coisa que causa desconforto, no entanto não ocorreu
nenhuma negociação
cooperativa viável ou um processo de resolução dos problemas. Neste registo identifica também o seu impacto. Assim é possível, “a frio”, negociar de modo a evitar que conflitos emergentes não se transformem em conflitos manifestos.
     
Conflitos Manifestos
regista as três ocorrências em que ocorreram conflitos manifestos, nos quais as partes reconhecem que existe uma situação de conflito, uma disputa activa e contínua que põe em causa a felicidade do casal.
     

 

Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde,
 Mestre em Saúde Pública

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