Medicina / Fevereiro 2004

Uma sensação de ardor no tórax e na
garganta, um gosto ácido na boca: a subida do conteúdo gástrico para o esófago é uma afecção
frequente e benigna. Mas ela pode
tornar-se
incómoda
no dia-a-dia.

Refluxo Gastroesofágico - A sua incómoda azia

Uma deficiência dos mecanismos anti-refluxo
No estado normal, existem entre o estômago e o esófago alguns mecanismos anti-refluxo que impedem o líquido gástrico de subir. O elemento principal destes mecanismos é um esfíncter situado na parte baixa do esófago. A dilatação deste esfíncter pode ser transitória, principalmente quando o estômago está distendido, ou pode ser permanente. Resultado: os indivíduos afectados têm este problema frequentemente, principalmente em certas posições que o favorecem (ao inclinar-
-se ou ao deitar-se).
A hérnia do hiato, que corresponde na subida permanente ou intermitente da parte alta do estômago até à zona torácica através do orifício do diafragma (o orifício do hiato) está, com frequência, presente e favorece também o refluxo. Todavia, pode-se ter uma hérnia do hiato sem refluxo ou refluxo sem hérnia. Excepto em casos especiais e raros, a hérnia não provoca nenhuma manifestação dolorosa, a dor está exclusivamente ligada à existência do refluxo. A hérnia do hiato não está em causa, a não ser que ela altere os mecanismos anti-refluxo. Ela não leva a nenhuma outra desordem digestiva, tal como peso, flatulência ou a uma digestão lenta.

As manifestações
O refluxo do conteúdo gástrico acontece por episódios, sem provocar vómitos. Ele está presente em quase toda a população: estima-se que 40 a 50% apresentam um episódio de refluxo pelo menos uma vez por mês, 4 a 10% apresentam refluxo diariamente.
O refluxo caracteriza-se por ardores que começam no estômago e sobem ao peito, por vezes com um gosto ácido na boca. Estas dores irradiam nas costas. Em 30% dos casos, os refluxos manifestam-se unicamente por sensação de ardores na parte superior do estômago, sem impressão de subir. Estes ardores, durante muito tempo atribuídos a fenómenos de gastrites, estão com efeito ligados aos refluxos esofágicos.
As consequências são múltiplas. Quando o refluxo se torna frequente e muito incomodativo, a acidez do líquido que reflui pode começar uma inflamação da parte inferior do esófago (esofagite). Esta inflamação é encontrada em metade dos pacientes que vão à consulta. Uma endoscopia é então efectuada. Não existe paralelismo entre a importância da inflamação e a dos sintomas. Nos casos mais frequentes, esta inflamação é moderada, caracteriza-se por algumas erosões da parte inferior do esófago. Todavia, em alguns casos, ela é mais grave. Em certas pessoas, o líquido ácido sobe mesmo até à zona da ORL (otorrinolaringologia) ou respiratória. Neste caso, ele pode desenvolver uma laringite crónica, dores na faringe, uma tosse crónica ou um agravamento dos problemas de bronquite, asma, etc. O refluxo pode também ocasionar dores torácicas constritivas, simulando uma dor do tipo coronária.
 

O que deve saber
Certas manifestações digestivas, tais como a digestão lenta, a
flatulência, a sensação
de peso no momento
das refeições, não estão
ligadas a um problema de refluxo. Elas correspondem frequentemente a problemas de funcionamento de origem gástrica.

 

Problemas estáveis
A gravidade do desconforto derivado do refluxo é muito variável de uma pessoa para outra. Certos pacientes apresentam um incómodo intermitente, geralmente favorecido por um certo número de factores despoletantes, como as pressões, o stress, a ingestão de café ou de álcool, um aumento de peso, a alimentação muito condimentada... Outros têm um desconforto mais significativo, que dura algumas semanas anualmente. Só um pequeno número de doentes é medicado e apresenta refluxos constantes ao longo de todo o ano. Estes não podem passar sem os seus tratamentos. Segundo os dados actuais, e apesar de existirem formas muito diferentes de pessoa para pessoa, parece que não há nenhum agravamento evidente da patologia no decorrer dos anos. A gravidade do refluxo parece determinada de imediato.

- 12% dos indivíduos com mais de 16 anos declaram ter sofrido deste problema de refluxo, no
decurso dos últimos dois anos. Quase metade deles tiveram esse problema mais de 20 vezes nos
últimos dois anos. Mais de metade sofrem desse problema há cinco anos ou mais, 31% há dez anos ou mais. Em 10% da população, o refluxo tem consequências negativas na vida profissional ou pessoal.
- Os principais factores
agravantes ou atenuantes: o stress, a alimentação rica em gordura e o álcool.
- As reacções em presença de refluxo: 50% das pessoas esperam que isso passe, 50% modificam a sua alimentação, 30% bebem água ou leite e 27% começam a fazer uma dieta.
- Apenas um indivíduo em cada dois consultou o médico sobre este problema. Depois de uma consulta, 56% dos pacientes vão para casa com uma receita médica e
conselhos sobre a sua alimentação.
Fonte: inquérito feito junto da população geral, 1992

 


É preferível consultar o médico quando os problemas se tornam frequentes e realmente desconfortáveis. Quer dizer, quando acontecem mais vezes na mesma semana e, especialmente, quando se é acordado de noite por causa disso. Ou quando existem sinais de alarme, tais como as sensações de bloqueio no momento da deglutição, falta de apetite, alteração do estado geral. O maior sinal é a dificuldade em engolir.
O recurso a um médico é necessário quando os problemas não se resolvem através de medidas higieno-dietéticas simples ou com medicamentos contra a acidez (curativos gástricos).

Tratamentos adaptados a cada
situação

Os tratamentos médicos actuais não restauram os mecanismos anti-refluxo defeituosos. No entanto, podem perfeitamente controlar as consequências do refluxo ligadas à acidez do conteúdo gástrico. Com efeito, tratam os sintomas fazendo desaparecer a azia, a inflamação do esófago e as manifestações extra-digestivas quando elas existem. O único meio de que dispomos para tratar os mecanismos anti-refluxo é a cirurgia, que se pratica agora sob a forma de colioscopia. Mas esta está reservada aos pacientes que não recuperam com a acção dos medicamentos. São cerca de 2 a 5% de pessoas que vão ao médico devido a um refluxo que incomoda.

A prevenção
Um certo número de medidas higieno-dietéticas podem ser propostas às pessoas que sofrem de refluxo. Trata-se de evitar refeições excessivamente volumosas, reduzir a ingestão de gorduras que atrasam o esvaziamento do estômago. Certas bebidas ou alimentos estimulam a dor do esófago, tais como o álcool, os alimentos muito açucarados, muito salgados ou muito condimentados.
Os factores de hiperpressão abdominal (cinto, calças ou saias apertadas) são de igual modo uma fonte de refluxo. Finalmente é desaconselhado dormir com almofadas para diminuir os refluxos nocturnos quando eles existem.n

 


Existem dois tipos de medicamentos contra o refluxo: os que neutralizam a acidez do líquido que refluiu, como os analgésicos (água, gás, alginatos, etc.). Têm uma acção eficaz sobre a sensação de azia, mas a duração da sua acção é muito curta – menos de uma hora. Não podem tratar, nem controlar uma eventual inflamação do esófago. Estes medicamentos devem ser tomados no momento da dor e o mais cedo possível a seguir às refeições. Todos os analgésicos/antiácidos são vendidos sem receita médica.

 

No bebé
No recém-nascido ou no bebé, a existência de refluxo está ligada a um problema de maturidade dos mecanismos anti-refluxo. Este geralmente desaparece após os três meses. É o risco de inalação no momento das regurgitações, mais do que a acidez do líquido que reflui, que é o maior problema nesta idade.

 

 

O melhor procedimento
- Se o seu refluxo é pouco frequente, se o desconforto que o incomoda é insignificante e se não apresenta nenhum sinal de alarme, siga as medidas de higiene e de dietética e tome um calmante gástrico (um antiácido) quando lhe doer.
- Se o refluxo persistir ou reincide com frequência, se se torna muito incomodativo e se tem dificuldades em avaliar a gravidade da situação, consulte um médico para que este lhe prescreva um medicamento mais activo. Apenas você pode avaliar a gravidade do seu refluxo e julgar a necessidade ou não de fazer uma endoscopia para procurar uma esofagite e/ou uma hérnia do hiato.


Outros medicamentos reforçam a tonicidade do esfíncter e favorecem o esvaziamento gástrico: medicamentos procinéticos. Ou ainda outros: reduzem a secreção ácida do estômago: medicamentos anti-secretórios, antagonistas H2 e inibidores da bomba de protões. Estes últimos são, actualmente, os anti-secretórios mais fortes. A sua acção prolonga-se por mais de 24 horas. Todos estes medicamentos específicos são prescritos por um médico. Apesar dos tratamentos fortes dos quais já dispomos, um determinado número de doentes são apenas parcialmente aliviados dos seus ardores torácicos e ardores na garganta. Esta aparente resistência ao tratamento médico deve levar a uma revisão do diagnóstico de refluxo ou evocar a possibilidade de um esófago “hipersensível”. Nesse caso, os indivíduos são muito incomodados, enquanto que, quantitativamente, apresentam um refluxo normal sem inflamação do esófago. Certos exames mais específicos, como o registo da acidez esofágica em 24 horas, podem então ajudar a compreender o mecanismo dos sintomas para uma adaptação do tratamento. S&L

Agnès Bodechon,
em colaboração com o Dr. Thierry Vallot, do Hospital Bichat-Bernard, de Paris

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