Pode a velhice esperar?
Nas ruas das nossas cidades, quase sempre a meio da manhã, passam com
frequência homens de cabelos esbranquiçados, ainda hirtos na sua coragem e
muitas vezes em trajes leves; levam numa mão um jornal dobrado e na outra um
saco de plástico onde jazem compras de pouca monta.
Avidez de informação, desejo de fazer valer os seus préstimos? Possivelmente nem
uma coisa nem outra. Simplesmente a imagem duma pessoa que chegou a uma certa
idade e que intimamente resolveu render-se ao passar dos anos e que agora se
entrega ao que é vulgar, um tanto ou quanto banal, mesmo que, aqui ou além,
releve do necessário.
Serão, por exemplo, os sessenta ou setenta anos a chegada duma época que
justifique tantos abandonos, solidão e complacência própria? Não haverá uma
outra via, e outra e mais outras para o enobrecimento do velho homem que não tem
necessariamente de ser velho em muitas das suas opções? Podemos pensar agora em
Valery Gircard d’Estaing que, apesar da sua provecta idade, dirigiu a Comissão
Europeia que recentemente elaborou um projecto de Constituição comunitária. De
passagem, lembro que, tanto no domínio nacional como além fronteiras, e em áreas
tão diferentes como a pintura, a gestão de empresas, medicina, literatura,
política e noutros domínios, são muitas as pessoas que, apelidadas de velhas,
realmente se notabilizaram.
É verdade que não podemos ser todos como o Sr. d’Estaing e os seus pares, mas,
na nossa área de conhecimento e de actividade, podemos manter-nos jovens e
produtivos no seio da comunidade onde vivemos.
Com o desenvolvimento da Ciência, com os bens sociais e os cuidados de saúde,
vivemos mais tempo do que em nenhuma outra época da História. Abre-se diante de
nós uma perspectiva de vida aliciante que devemos primeiro planear e depois
desfrutar.
A natureza dos planos que fazemos depende da propensão do nosso carácter, dos
nossos gostos e possibilidades, mas uma ruptura completa com o trabalho não é
para muita gente o plano ideal. Se é verdade que o trabalho cansa, também é
verdade que o ócio causa fadiga e desespero. O descanso que não é o resultante
natural duma actividade torna-se numa espécie de deserto que não tem oásis.
Então temos de projectar acção, objectivos e solidariedade nos planos que
fazemos, apesar dos muitos anos que já passaram na nossa vida. Quem pensa que os
planos são importantes não pode descurar pô-los em prática na realidade da sua
existência.
Consideremos apenas alguns pontos interessantes nos quais podemos investir os
anos em que não somos mais jovens. Tenho uma família amiga em Bruges cujo
responsável anseia pela idade da reforma a fim de se poder entregar a uma
actividade para a qual se sente dotado mas que, devido aos seus afazeres
profissionais, não pode cultivar, a saber: a pintura. Quantos artistas
desconhecidos até de si próprios, não existem por este mundo fora, cujo sentido
artístico só foi conquistado no entardecer da vida!
Penso naqueles “jovens” sexagenários que vão mais longe que uma específica
expressão artística ocasional e se comprometem semanalmente com aulas na
Faculdade.
Imagino uma senhora de cabelos grisalhos que chega apressadamente ao hospital,
veste a sua bata branca, põe o seu crachá, toma em mãos as coisinhas do seu
métier e vai junto dos doentes confortá-los, oferecer--lhes um chazinho, umas
bolachas ou, talvez, muito simplesmente, se senta para ouvir os seus desabafos.
Observo aquele casal ainda jovem que todas as manhãs vai levar o seu filhinho a
casa dos avós, deixando o bebé aos seus cuidados – ciente que ninguém melhor do
que eles pode cuidar com amor e desvelo da sua criança.
Olho pela janela do meu escritório e vejo lá em baixo um desses jovens idosos
que quase todos os dias, no seu quintal, dedica um pouco de tempo a cuidar do
canteiro de flores e das batatas e das cenouras ou do feijão.
Vejo com satisfação naquele estrado que parece não mais ter fim, à beira mar,
algumas pessoas, por vezes sozinhas, outras vezes acompanhadas, caminhando em
marcha acelerada durante incontáveis minutos com o rosto cor de rosa, o corpo
robusto e, certamente, a mente mais clara. Os mais novos passam e parecem gostar
do que vêem, talvez porque nos mais velhos conseguem ler uma mensagem de
esperança para si próprios.
Estas são algumas das fronteiras para alcançar agora que os anos serão curtos
mas o tempo não escasseia. E quantas mais não existirão por aí mesmo à mão de
semear, dependendo muitas vezes somente da nossa criatividade, engenho e gosto
pela vida. Seremos velhos uma só vez e, por isso, é preciso aproveitar esta
época com sabedoria, pois que ela não voltará mais. S&L
José Manuel de Matos
Licenciado em Humanísticas