Estilo de Vida / Janeiro 2004

Pode a velhice esperar?

Nas ruas das nossas cidades, quase sempre a meio da manhã, passam com frequência homens de cabelos esbranquiçados, ainda hirtos na sua coragem e muitas vezes em trajes leves; levam numa mão um jornal dobrado e na outra um saco de plástico onde jazem compras de pouca monta.
Avidez de informação, desejo de fazer valer os seus préstimos? Possivelmente nem uma coisa nem outra. Simplesmente a imagem duma pessoa que chegou a uma certa idade e que intimamente resolveu render-se ao passar dos anos e que agora se entrega ao que é vulgar, um tanto ou quanto banal, mesmo que, aqui ou além, releve do necessário.
Serão, por exemplo, os sessenta ou setenta anos a chegada duma época que justifique tantos abandonos, solidão e complacência própria? Não haverá uma outra via, e outra e mais outras para o enobrecimento do velho homem que não tem necessariamente de ser velho em muitas das suas opções? Podemos pensar agora em Valery Gircard d’Estaing que, apesar da sua provecta idade, dirigiu a Comissão Europeia que recentemente elaborou um projecto de Constituição comunitária. De passagem, lembro que, tanto no domínio nacional como além fronteiras, e em áreas tão diferentes como a pintura, a gestão de empresas, medicina, literatura, política e noutros domínios, são muitas as pessoas que, apelidadas de velhas, realmente se notabilizaram.
É verdade que não podemos ser todos como o Sr. d’Estaing e os seus pares, mas, na nossa área de conhecimento e de actividade, podemos manter-nos jovens e produtivos no seio da comunidade onde vivemos.
Com o desenvolvimento da Ciência, com os bens sociais e os cuidados de saúde, vivemos mais tempo do que em nenhuma outra época da História. Abre-se diante de nós uma perspectiva de vida aliciante que devemos primeiro planear e depois desfrutar.
A natureza dos planos que fazemos depende da propensão do nosso carácter, dos nossos gostos e possibilidades, mas uma ruptura completa com o trabalho não é para muita gente o plano ideal. Se é verdade que o trabalho cansa, também é verdade que o ócio causa fadiga e desespero. O descanso que não é o resultante natural duma actividade torna-se numa espécie de deserto que não tem oásis. Então temos de projectar acção, objectivos e solidariedade nos planos que fazemos, apesar dos muitos anos que já passaram na nossa vida. Quem pensa que os planos são importantes não pode descurar pô-los em prática na realidade da sua existência.
Consideremos apenas alguns pontos interessantes nos quais podemos investir os anos em que não somos mais jovens. Tenho uma família amiga em Bruges cujo responsável anseia pela idade da reforma a fim de se poder entregar a uma actividade para a qual se sente dotado mas que, devido aos seus afazeres profissionais, não pode cultivar, a saber: a pintura. Quantos artistas desconhecidos até de si próprios, não existem por este mundo fora, cujo sentido artístico só foi conquistado no entardecer da vida!
Penso naqueles “jovens” sexagenários que vão mais longe que uma específica expressão artística ocasional e se comprometem semanalmente com aulas na Faculdade.
Imagino uma senhora de cabelos grisalhos que chega apressadamente ao hospital, veste a sua bata branca, põe o seu crachá, toma em mãos as coisinhas do seu métier e vai junto dos doentes confortá-los, oferecer--lhes um chazinho, umas bolachas ou, talvez, muito simplesmente, se senta para ouvir os seus desabafos.
Observo aquele casal ainda jovem que todas as manhãs vai levar o seu filhinho a casa dos avós, deixando o bebé aos seus cuidados – ciente que ninguém melhor do que eles pode cuidar com amor e desvelo da sua criança.
Olho pela janela do meu escritório e vejo lá em baixo um desses jovens idosos que quase todos os dias, no seu quintal, dedica um pouco de tempo a cuidar do canteiro de flores e das batatas e das cenouras ou do feijão.
Vejo com satisfação naquele estrado que parece não mais ter fim, à beira mar, algumas pessoas, por vezes sozinhas, outras vezes acompanhadas, caminhando em marcha acelerada durante incontáveis minutos com o rosto cor de rosa, o corpo robusto e, certamente, a mente mais clara. Os mais novos passam e parecem gostar do que vêem, talvez porque nos mais velhos conseguem ler uma mensagem de esperança para si próprios.
Estas são algumas das fronteiras para alcançar agora que os anos serão curtos mas o tempo não escasseia. E quantas mais não existirão por aí mesmo à mão de semear, dependendo muitas vezes somente da nossa criatividade, engenho e gosto pela vida. Seremos velhos uma só vez e, por isso, é preciso aproveitar esta época com sabedoria, pois que ela não voltará mais. S&L
 

José Manuel de Matos
Licenciado em Humanísticas

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