Vida Familiar / Janeiro 2004

A resiliência e a saúde  da vida familiar

Introdução
Com o casamento nascem novas oportunidades de bem-estar e felicidade que merecem todo o nosso investimento. No entanto, muitas vezes essa felicidade e bem-estar são postos em causa pela existência de conflitos. Perante o mesmo acontecimento, os parceiros da aventura conjugal são afectados diferentemente, dependendo isso das suas variadas componentes intrínsecas e extrínsecas. Estas diferenças podem conduzir ao conflito. Importa por isso compreender a sua natureza, aprender a preveni-lo e encontrar ferramentas para o gerir convenientemente.

A saúde da vida familiar
A saúde é uma procura constante e universal. Um casal saudável empenhar-se-á em manter condições que proporcionem o máximo bem-estar recíproco. O conflito põe em causa a saúde da vida familiar. No entanto, é imanente e endémico da espécie humana. Só os mortos é que não têm conflitos. Assim, desejamos contribuir para capacitar o casal para lidar com os stressores que causam conflitos, pois:

Na sociedade actual, ninguém pode evitar o confronto com situações adversas e stressantes, e o modo através do qual as pessoas reagem a um tal stresse é um factor decisivo da sua saúde mental. Uma abordagem mais positiva para a saúde mental deve, assim, ser desenvolvida1.

A saúde da vida familiar é algo que se conquista diariamente, e diariamente pode-se progredir ou regredir nessa conquista. Esta importante regra da vida permite considerar o outro sempre como merecedor do investimento e atenção, pois diariamente se pode ir melhorando a relação familiar. É um erro pensar que no início do casamento se está com plena saúde familiar: o casal encontra-se no início da sua caminhada e diariamente serão feitas escolhas que permitirão o seu desenvolvimento e melhoramento.
A existência de um conflito no seio familiar não quer necessariamente dizer que a vida familiar está sem saúde. Deve olhar-se para esse conflito como uma oportunidade, no percurso da história da vida do casal. Neste percurso progride-se de um ponto para outro, de uma condição de dificuldade, de insatisfação, de disfuncionalidade para uma situação de mais vitalidade, de maior satisfação, de funcionalidade. Mas, o inverso também pode acontecer (Figura 1). Assim, o conflito pode ser uma mola que atira o casal para um ponto de maior maturidade e melhor saúde familiar. Tudo depende do modo como ele é gerido.
Podemos progredir nessa linha de um ponto de menor saúde familiar para um ponto de maior saúde. Os casais podem olhar para o futuro com confiança se decidirem fazer diariamente os investimentos necessários na construção de uma relação forte. Assim, as escolhas de cada dia são a capitalização de uma riqueza que será partilhada e que podemos gerir para nosso benefício e para benefício dos que nos rodeiam: o amor.

Noções básicas para a gestão de conflitos.
O que é o conflito conjugal
O conflito conjugal é todo o acto que põe em causa a comunalidade de um casal nas áreas física, espiritual, psicológica e social, sem o acordo e aceitação de ambas as partes.
A comunalidade é um conceito básico para a resolução dos conflitos. Ela resulta do facto de que um enlace matrimonial reside na vontade que os membros do casal têm de viver uma vida comum. Para que tal aconteça, existem compromissos que devem ser conseguidos e garantidos na fase de preparação para o casamento, evitando assim o surgimento posterior de divergências nessa comunalidade.
Nem todos os conflitos são iguais. É possível caracterizar os conflitos de modo tricotómico: existem os
conflitos agudo-catastróficos (consequência de crises ou acontecimentos stressantes que afectam o casal com uma premência que exige uma resposta imediata); conflitos crónicos (resultante de condições stressantes cíclicas); conflitos endémicos (caracterizados por uma condição de mudanças abundantes e constantes, solicitações, ameaças ou privações, usualmente de pouco impacto, mas acompanhando os acontecimentos do dia-a-dia)2.
Enfatizando as diversas origens do conflito nos factos de ordem económica, social, físico-ambiental, psicológica, sexual ou fisiológica (entre outras), é importante ter em conta o seu potencial cumulativo e o impacto consequente, reflectindo-se em alterações do comportamento insuspeitáveis.
Existe assim uma resiliência familiar a ter em conta, que não é o somatório das resiliências de cada um dos membros da família. A resiliência caracteriza as possibilidades que uma pessoa tem de se adaptar a novas circunstâncias depois de ter sido confrontada com situações de risco de qualquer origem (social, ambiental, psicológica, etc.)3.
Numa situação de conflito, existe uma nova realidade que dá corpo a um quadro de referências diferentes das que caracterizavam a relação de alguém com o seu meio ambiente, até nascer essa situação de conflito. É por isso importante perceber qual é a possibilidade de adaptação que existe à nova situação. Muitas famílias não conhecem bem os seus limites – como unidade familiar, nem os limites individuais de cada um dos membros da família. Assim, pode acontecer que o desenvolvimento de uma situação de conflito específico constitua uma “sobrecarga que a ponte” não está preparada para suportar.

O conflito como factor patogénico da vida familiar
Podemos olhar para o conflito de duas maneiras: de modo patogénico ou salutogénico. Para muitos, o conflito é uma doença crónica que se agarra à vida familiar (assumindo contornos patológicos, doentios) e pensam mesmo que só poderão livrar-se dele com a ruptura do casal. Esta situação, no entanto, é evitável.
Os acontecimentos que fogem ao banal e são típicos de condições extremas estão muitas vezes associados ao stresse que origina o conflito. Será útil lembrar aqui Peralim e Schooler ao observarem que não são os problemas fora do vulgar que acontecem raramente, problemas difíceis, que causam maior traumatismo, mas antes as pressões persistentes do meio no contexto das actividades banais4.
Tendo isto em conta, deve ter-se em particular atenção aquilo que não parece merecer grande atenção inicialmente, mas que, consistindo um factor persistente numa relação, provoca um desgaste que pode levar ao desenvolvimento de um conflito.

O conflito como factor salutogénico da vida familiar
Existe, no entanto, um outro modo para olhar para o conflito, que designamos por perspectiva salutogénica.
Todas as pessoas e casais, mesmo com uma vida desafogada e com ambientes optimizados, são expostos a stressores e ao conflito. A pergunta que se impõe é a da compreensão que sustenta a sobrevivência do casal. Esta inquirição leva-nos, então, a olhar para o conflito como algo que pertence à história de vida de qualquer pessoa ou casal, mas que pode ser mediado por recursos generalizados de resistência, permitindo assim a sua resolução, não pondo em causa a sua felicidade. Isto é, existem recursos ao nosso alcance que nos permitem, numa situação de conflito, encontrar a força para superá-lo com dignidade e confiança no futuro.
Assim, devem-se procurar as origens da saúde familiar, do bem-estar. Em vez do casal olhar para o conflito e concentrar nele a sua atenção, deveria procurar os elementos que existem na sua experiência a dois que são fonte de solução desse conflito. Esta é uma abordagem salutogénica (do latim: salus = saúde; e do grego: genesis= origens), uma abordagem positiva na busca das origens da saúde familiar5. S&L

Continua

BIBLIOGRAFIA
1. WHO 1997 Health for all for the twenty-first century: the health policy for Europe, Copenhagen: WHO, 1997, p 67
2. Fried, M. 1982 - The endemic stress: the psychology of resignation and the politics of scarcity. American Journal of Orthopsychiatry, 52, 1982, p.5
3. S&L de Março 2003, p. 7
4. Peralim, L. J. 1978 ; Schooler, C. - The structure of coping. Journal of Health and Social Behavior, 19, 1978, p.3
5. Antonovsky, A. 1979 - Health, stress, and coping; new perspectives on mental and physical well-being. San Francisco: Jossey-Bass, 1979

 

Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde, Mestre em Saúde Pública

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