Sociologia / Julho 2004

Sociologia do Desporto

MAs afinal para que serve o desporto rei?

Questionado por uns, adulado por outros, a verdade é que as sociedades mobilizam-se em recursos, tantas vezes ausentes para necessidades primárias, para que o desporto rei possa ser senhor.
Se parece ser tão claro que é questionável a utilidade desse dinheiro gasto, como perceber que prevaleça esta realidade?
Para o perceber olhemos para as várias dimensões do desporto.

O desporto profissional
Por um lado, temos o desporto profissional, escravizador, sexista (onde a mulher, quando casa, reduz as possibilidades de sucesso), determinista (onde tudo está regulado, desde as horas para dormir, até ao cardápio do desportista).

O consumidor de desporto
Só existe desporto profissional porque existe um mercado, constituído por milhões de espectadores ávidos de ver a sua equipa – ou qualquer outra – degladiar-se pelo objecto redondo. O desportista consumidor, no mínimo vê a sua saúde ser afectada pelas doenças causadas pela sedentaridade e exposição emocional ao evento desportivo.

O desporto útil
O desporto é considerado – numa perspectiva utilitarista – como bom para a vida e, por isso, para a saúde, pois está incluído na categoria de tudo aquilo que aumenta o potencial de prazer, diminui o grau de sofrimento e limitação na vida futura.
O organismo só melhora se houver regeneração. Assim, mecanismos de compensação e de auto-regeneração permitem o aumento e melhoramento da condição física.
O desporto, característico da nossa civilização, foi relacionado com estes mecanismos de auto-regeneração. Assim se divulgou a ideia de que o desporto faz bem à saúde, e de que é acessível a todas as classes.

O desporto de catarse social
O desporto é a actividade da superação de si próprio e dos outros, sem grandes custos sociais e físicos. É um espaço de resolução controlada dos antagonismos sociais. Na antiga Itália, em lugar de muitas guerras entre aldeias próximas, a rivalidade era gerida pelo acto de colocar a bola no centro da outra aldeia (o jogo do calcio).

A dimensão psicológica
Na nossa civilização, o correr e ver correr atrás da bola é também a resposta à necessidade de excitação: daí talvez a grande atracção pelos desportos radicais. Para Norber Elias, a pessoa precisa de viver ameaçada, mas sem perigo e sem violência: isto é possível experimentar no desporto.
Esta tese defenderia que não fazemos desporto para fazermos exercício físico mas para nos excitarmos, e nos superarmos a nós próprios – daí ser possível compreender desportos como o xadrez e a columbofilia, por exemplo.

Dimensão Funcionalista
Estamos diante de uma ideologia desportiva, que vê no desporto um modelo de virtudes, dedicação, disciplina, higiene, promotora de boas relações sociais e associativismo. A utilidade dos desportos parece ser grande. É na base destes valores que a ideologia desportiva se justificou. Assim podemos distinguir a propaganda desportiva do desporto.
Por outro lado, temos a saúde do desportista praticante que, a estes níveis de performance, deve ser avaliada a priori. São consideradas as condições de que dispõe para satisfazer as pesadas expectativas que sobre ele pendem.
Por mais anacrónica que esta situação possa parecer, um dos adquiridos da nossa sociedade actual articula-se em torno desta imagem da associação entre desporto e saúde!
Os mass-média, quando desejam promover certo produto, fazem-no associando-o (enganosamente, a maior parte das vezes) com a saúde e desporto (muitas vezes de alta competição).
O público sujeito aos estereótipos criados em sua intenção, impondo regras de constituição física associadas com uma puberdade pouco maturada, vê-se assaltado por uma vasta gama de publicações onde as preocupações com a saúde são materializadas através dessa associação.
Grandes mercados se criam, estruturados no equívoco de que desporto dá saúde.
Enquanto uns fazem o seu check-up para saberem quanta saúde vão poder “estragar” (o desportista de alta competição), outros lançam-se aos relvados de vez em quando (uma vez por semana na melhor das hipóteses), numa procura ilusória de uma melhor saúde! As sociedades humanas europeias entraram, assim, numa nova era: a da toxicodependência natural (das endorfinas).

A dependência do desporto
Será que o desporto cria dependência? Não restam dúvidas de que sim: dependência naqueles que ficam extasiados perante o pequeno ecrã e naqueles que irremediavelmente se sentem atraídos pelo grande estádio.
Estar no grande estádio, rodeado por milhares de pessoas, é uma experiência avassaladora e única. O sentimento de pertencer à multidão, de vibrar com o seu brado de vitória ou derrota, engendram no simbólico humano toda a exaltação que se pode conseguir.
Mas há também a dependência do exercício que o desporto faculta. Esta dependência do exercício invade os praticantes, levando-os a aspirar por mais uma dose. A sensação de bem-estar pode não implicar mais saúde, a capacidade eufórica de conquista da vida graças às endorfinas – que aniquilam a sensação de sofrimento (fenómeno do Runner’s High) – levam a um bem-estar enganoso. O limite foi atingido e a saúde é posta em perigo, catapultam assim milhares para um abuso das suas reservas vitais na ilusão de uma publicidade pouco explícita nas consequências a longo prazo de certas actividades físicas.
Somos, assim, obrigados a distinguir da propaganda desportiva o fenómeno desportivo, e nas semanas que correm importa distinguir também actividade física benéfica para a saúde do resto.S&L

Por isso divirta-se, mas faça-o com saúde!
 

Luís Saboga Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde,
Mestre em Saúde Pública

Índice / Julho 2004