
Vida familiar
Noutros tempos, era claro para os pais que os adultos falavam e as crianças
deviam ficar em silêncio, que nunca se podia tolerar que um filho lhes
respondesse ou não cumprisse uma ordem dada pelo papá ou pela mamã. Depois
vieram mudanças radicais e tornou-se moda, pela lei do pêndulo que tende a
passar de um pólo a outro, ser mais liberal e cultivar uma educação laissez
faire, onde os pequenos deviam fazer e dizer o que quisessem, e qualquer limite
era visto como autoritário.
Há já alguns anos os pais vivem numa procura de equilíbrio. O pêndulo já foi de
um pólo a outro, e já se viu que nenhum dos extremos era bom. Mas, como saber
quando um limite é bom e ajuda a criança a crescer, e quando não o é? Não é
fácil apercebermo-nos e há que procurar o próprio equilíbrio numa época em que
muitos segmentos da vida social da humanidade estão em discussão. Mas, como
acontece com muitos temas importantes do nosso dia-a-dia, há que procurar
caminhos alternativos, ser mais criativo do que de costume, para chegar a bom
porto.
Crianças mal-educadas
Um casal entra num restaurante com os seus dois filhos e pede uma mesa. Minutos
depois de ter entrado, um dos miúdos grita que quer que lhe tragam a comida já;
não pode esperar, tem fome.
Não é um bebé, tem cinco anos, mas reage como se estivesse há dias sem comer, e
sem a mínima capacidade de espera. Os outros comensais inquietam--se e olham
para o casal, que se envergonha mas não consegue fazer nada com o seu filho
mal-educado, que continua a gritar: “Quero comer!” A sua irmã mais velha não
grita, mas está de braços cruzados e com cara de poucos amigos, porque também
não sabe esperar. E quando o empregado os encaminha para a mesa, as crianças
perguntam--lhe: “Porque demoraste tanto?”, embora tivessem passado apenas cinco
minutos. Durante o jantar houve molhos a voar, pedidos a gritos, comida que caía
no chão e “não gosto disto, está frio” ou “não pedi isto, quero ir-me embora,
estou aborrecido, és mau...”
A psicoterapeuta infantil Asha Phillips, formada na Tavistock Clinic, em
Inglaterra, é mãe de dois filhos e autora do livro Dizer “Não” (porque é tão
importante pôr limites aos filhos). Tem trabalhado em programas de
aconselhamento infantil, no departamento de Pediatria do hospital e é professora
na Associação Britânica de Psicoterapeutas. O jornal The Guardian comentou:
“Essa pequena palavra, ‘não’, é a mais difícil de pronunciar quando se trata dos
nossos filhos, mas Asha Phillips adverte-nos que, se não o fizermos de vez em
quando, seremos responsáveis pelas desvantagens que os nossos filhos terão no
futuro”. E assim é; muitos pais têm grandes dificuldades para dizer não aos seus
filhos e sentem que se o fizerem estão a ser autoritários, que lhes cortam as
asas, que não os deixam expressar-se livremente.
No seu capítulo acerca do sentido do tempo, a especialista explica que quando as
crianças começam a escola primária, o tempo adquire maior significado para elas.
Os bebés e as que têm menos de cinco anos vivem o tempo como inseparável (não
conseguem objectivá-lo) da sua experiência. A um pequeno esfomeado que espera
pela comida, cinco minutos pode parecer-lhe uma eternidade. Uma criança de três
anos que passa a tarde a brincar com um amigo, fará uma birra quando tiver de
voltar para casa, porque para ela é como se tivesse acabado de chegar. Na
escola, no entanto, o dia está organizado em segmentos razoáveis de tempo:
lições, recreio, almoço. Algumas das disciplinas poderão parecer levar mais
tempo que as outras; mas a criança sabe que, na realidade, durou o mesmo. Além
disso, habitua-se a cingir-se a um horário. Ir às aulas, jantar, deitar--se, e
muitas outras actividades, enquadram-se numa estrutura específica. Como pais,
começamos a esperar e exigir que o nosso filho se adapte às demandas num período
de tempo limitado. Contudo, as crianças, sobretudo nessa idade, parecem possuir
um sentido selectivo do tempo. Quando querem algo, a palavra chave é “agora”,
quando lhes pedimos que façam alguma coisa, será “depois”, o que costuma
significar nunca. Aqui está outro reflexo da posição ambígua em que se encontra
a criança: não é um bebé mas, no entanto, não se pode valer a si mesma. Está a
adquirir um maior autocontrolo, mas a espera é dura para ela. Os desejos possuem
uma premência imediata. Quando dizemos “espera”, nesta frase (dizer “não” a um
pedido de resposta imediata) pedimos-lhe que reprima os seus desejos ou encontre
formas de os satisfazer por si mesmo. É importante que não espere até ao ponto
de que o desejo desapareça, já que enfraqueceria o seu gosto pela vida, mas deve
aprender a construir um espaço intermédio. Frequentemente, a espera provoca
irritação, sentimento de perda, ira, desespero. Estes sentimentos difíceis fazem
parte do repertório emocional humano, e o familiarizar-se com isso não é mau.
Faz-nos mais completos.
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Por vezes, os pais sentem que é mais fácil deixar que o seu filho coma como quiser, do que sentar-se, várias vezes, com toda a paciência do mundo, para o ensinar a usar os talheres, a dizer por favor, a comer de boca fechada, a deixar os outros falar... |
Mais adiante, a autora de Dizer “Não” confirma que os pais que cedem a todos os
desejos dos filhos alimentam a ilusão de que são a extensão deles, que só as
suas necessidades contam. À medida que a implicação mútua aumenta, aprendemos a
reconhecer as nossas diferenças como indivíduos: aquilo de que eu gosto não tem
de ser aquilo de que tu gostes. Conforme se desenvolve a capacidade de
tolerância do bebé, aumenta também a sua consciência dos outros e dos seus
sentimentos. Serão capacidades importantes na escola e na vida. Muitos adultos
não assimilaram que a forma de encarar as diferenças não consiste em tentar
transformar a outra pessoa à sua imagem e semelhança, e isso reflecte-se em
muitos problemas matrimoniais. Os alicerces necessários para fugir ao egoísmo
colocam-se na infância.
Vejamos, agora, um exemplo que dá a psicoterapeuta Asha Phillips. O seu filho
pede-lhe que jogue com ele e já há meia hora que se encontram sentados à frente
do Nintendo. Então, decide que quer fazer outra coisa. O menino fica aborrecido
consigo e diz que nunca joga com ele. Responde-lhe que acaba de o fazer. “Isto
não conta, ainda agora começámos”, afirma ele. Os dois pontos de vista são
emocionais. Pede ao seu filho que junte a roupa e a arrume, e ele diz que o fará
mais tarde. Ao chegar a noite, continua no chão. A sua intenção é obedecer; mas
o “depois” dele não significa o mesmo que o seu. Há que negociar. Todos estes
desajustes, componentes da vida quotidiana, nos ajudam a aprender a viver com os
outros. Estamos a falar não só de comportamento, mas também de compreensão
emocional, a descoberta de que a sua experiência e a nossa não coincidem.
Tentamos compreender os outros pondo-nos no seu lugar. É uma maneira útil de
imaginar o que sentem, desejam e comunicam. Contudo, diz Phillips, por vezes
somos muito diferentes dos outros. Os nossos próprios filhos inspiram--nos a
pergunta: “Como podem ser tão diferentes de mim?” É importante observá-los e
compreender o que nos dizem, em vez do que gostaríamos de ouvir ou interpretar.
Acompanhá-los no crescimento
Uma criança educada com os limites necessários é alguém que pode ir a casa de um
amiguinho, partilhar um jantar com os seus pais, estar no trabalho da mãe ou do
pai sem que ninguém se sinta enfadado ou se envergonhe da conduta da criança.
Porque, à medida que cresce, se os seus pais o acompanham nesse crescimento,
ajudando-o a reconhecer a diferença entre um lugar e outro para que saiba o que
pode e o que não pode fazer, ou dizer isto ou aquilo, poderá adaptar-se,
sentir-se mais confortável, mover-se com maior desenvoltura do que se for um mal
educado típico. Por vezes, os pais sentem que é mais fácil deixar que o seu
filho coma como quiser, do que sentar-se, várias vezes, com toda a paciência do
mundo, para o ensinar a usar os talheres, a dizer por favor, a comer de boca
fechada, a deixar os outros falar, a saber esperar e a não querer tudo
imediatamente, a não gritar, a poder partilhar.
Um “não” a tempo, com o seu justo equilíbrio, explicado se necessário e se a
situação o permitir (uma vez que, se uma criança correr perigo, se deverá dizer
que não com firmeza e depois explicar-lhe), é um gesto de amor para com ela. A
questão é ver como alimentar os seus sonhos, como acompanhá-los no crescimento,
pondo-lhe os limites necessários e sem lhe cortar as asas. Não é fácil, mas é
por esse caminho do meio, por esse equilíbrio, que passa a educação saudável,
amorosa e feliz.S&L
Marcela Stieben
Jornalista