Vida Familiar / Julho 2004

Vida familiar

Noutros tempos, era claro para os pais que os adultos falavam e as crianças deviam ficar em silêncio, que nunca se podia tolerar que um filho lhes respondesse ou não cumprisse uma ordem dada pelo papá ou pela mamã. Depois vieram mudanças radicais e tornou-se moda, pela lei do pêndulo que tende a passar de um pólo a outro, ser mais liberal e cultivar uma educação laissez faire, onde os pequenos deviam fazer e dizer o que quisessem, e qualquer limite era visto como autoritário.
Há já alguns anos os pais vivem numa procura de equilíbrio. O pêndulo já foi de um pólo a outro, e já se viu que nenhum dos extremos era bom. Mas, como saber quando um limite é bom e ajuda a criança a crescer, e quando não o é? Não é fácil apercebermo-nos e há que procurar o próprio equilíbrio numa época em que muitos segmentos da vida social da humanidade estão em discussão. Mas, como acontece com muitos temas importantes do nosso dia-a-dia, há que procurar caminhos alternativos, ser mais criativo do que de costume, para chegar a bom porto.

Crianças mal-educadas
Um casal entra num restaurante com os seus dois filhos e pede uma mesa. Minutos depois de ter entrado, um dos miúdos grita que quer que lhe tragam a comida já; não pode esperar, tem fome.
Não é um bebé, tem cinco anos, mas reage como se estivesse há dias sem comer, e sem a mínima capacidade de espera. Os outros comensais inquietam--se e olham para o casal, que se envergonha mas não consegue fazer nada com o seu filho mal-educado, que continua a gritar: “Quero comer!” A sua irmã mais velha não grita, mas está de braços cruzados e com cara de poucos amigos, porque também não sabe esperar. E quando o empregado os encaminha para a mesa, as crianças perguntam--lhe: “Porque demoraste tanto?”, embora tivessem passado apenas cinco minutos. Durante o jantar houve molhos a voar, pedidos a gritos, comida que caía no chão e “não gosto disto, está frio” ou “não pedi isto, quero ir-me embora, estou aborrecido, és mau...”
A psicoterapeuta infantil Asha Phillips, formada na Tavistock Clinic, em Inglaterra, é mãe de dois filhos e autora do livro Dizer “Não” (porque é tão importante pôr limites aos filhos). Tem trabalhado em programas de aconselhamento infantil, no departamento de Pediatria do hospital e é professora na Associação Britânica de Psicoterapeutas. O jornal The Guardian comentou: “Essa pequena palavra, ‘não’, é a mais difícil de pronunciar quando se trata dos nossos filhos, mas Asha Phillips adverte-nos que, se não o fizermos de vez em quando, seremos responsáveis pelas desvantagens que os nossos filhos terão no futuro”. E assim é; muitos pais têm grandes dificuldades para dizer não aos seus filhos e sentem que se o fizerem estão a ser autoritários, que lhes cortam as asas, que não os deixam expressar-se livremente.
No seu capítulo acerca do sentido do tempo, a especialista explica que quando as crianças começam a escola primária, o tempo adquire maior significado para elas. Os bebés e as que têm menos de cinco anos vivem o tempo como inseparável (não conseguem objectivá-lo) da sua experiência. A um pequeno esfomeado que espera pela comida, cinco minutos pode parecer-lhe uma eternidade. Uma criança de três anos que passa a tarde a brincar com um amigo, fará uma birra quando tiver de voltar para casa, porque para ela é como se tivesse acabado de chegar. Na escola, no entanto, o dia está organizado em segmentos razoáveis de tempo: lições, recreio, almoço. Algumas das disciplinas poderão parecer levar mais tempo que as outras; mas a criança sabe que, na realidade, durou o mesmo. Além disso, habitua-se a cingir-se a um horário. Ir às aulas, jantar, deitar--se, e muitas outras actividades, enquadram-se numa estrutura específica. Como pais, começamos a esperar e exigir que o nosso filho se adapte às demandas num período de tempo limitado. Contudo, as crianças, sobretudo nessa idade, parecem possuir um sentido selectivo do tempo. Quando querem algo, a palavra chave é “agora”, quando lhes pedimos que façam alguma coisa, será “depois”, o que costuma significar nunca. Aqui está outro reflexo da posição ambígua em que se encontra a criança: não é um bebé mas, no entanto, não se pode valer a si mesma. Está a adquirir um maior autocontrolo, mas a espera é dura para ela. Os desejos possuem uma premência imediata. Quando dizemos “espera”, nesta frase (dizer “não” a um pedido de resposta imediata) pedimos-lhe que reprima os seus desejos ou encontre formas de os satisfazer por si mesmo. É importante que não espere até ao ponto de que o desejo desapareça, já que enfraqueceria o seu gosto pela vida, mas deve aprender a construir um espaço intermédio. Frequentemente, a espera provoca irritação, sentimento de perda, ira, desespero. Estes sentimentos difíceis fazem parte do repertório emocional humano, e o familiarizar-se com isso não é mau. Faz-nos mais completos.

Por vezes, os pais sentem que é mais fácil deixar que o seu filho coma como quiser, do que sentar-se, várias vezes, com toda a paciência do mundo, para o ensinar a usar os talheres, a dizer por favor, a comer de boca fechada, a deixar os outros falar...


Mais adiante, a autora de Dizer “Não” confirma que os pais que cedem a todos os desejos dos filhos alimentam a ilusão de que são a extensão deles, que só as suas necessidades contam. À medida que a implicação mútua aumenta, aprendemos a reconhecer as nossas diferenças como indivíduos: aquilo de que eu gosto não tem de ser aquilo de que tu gostes. Conforme se desenvolve a capacidade de tolerância do bebé, aumenta também a sua consciência dos outros e dos seus sentimentos. Serão capacidades importantes na escola e na vida. Muitos adultos não assimilaram que a forma de encarar as diferenças não consiste em tentar transformar a outra pessoa à sua imagem e semelhança, e isso reflecte-se em muitos problemas matrimoniais. Os alicerces necessários para fugir ao egoísmo colocam-se na infância.
Vejamos, agora, um exemplo que dá a psicoterapeuta Asha Phillips. O seu filho pede-lhe que jogue com ele e já há meia hora que se encontram sentados à frente do Nintendo. Então, decide que quer fazer outra coisa. O menino fica aborrecido consigo e diz que nunca joga com ele. Responde-lhe que acaba de o fazer. “Isto não conta, ainda agora começámos”, afirma ele. Os dois pontos de vista são emocionais. Pede ao seu filho que junte a roupa e a arrume, e ele diz que o fará mais tarde. Ao chegar a noite, continua no chão. A sua intenção é obedecer; mas o “depois” dele não significa o mesmo que o seu. Há que negociar. Todos estes desajustes, componentes da vida quotidiana, nos ajudam a aprender a viver com os outros. Estamos a falar não só de comportamento, mas também de compreensão emocional, a descoberta de que a sua experiência e a nossa não coincidem. Tentamos compreender os outros pondo-nos no seu lugar. É uma maneira útil de imaginar o que sentem, desejam e comunicam. Contudo, diz Phillips, por vezes somos muito diferentes dos outros. Os nossos próprios filhos inspiram--nos a pergunta: “Como podem ser tão diferentes de mim?” É importante observá-los e compreender o que nos dizem, em vez do que gostaríamos de ouvir ou interpretar.

Acompanhá-los no crescimento
Uma criança educada com os limites necessários é alguém que pode ir a casa de um amiguinho, partilhar um jantar com os seus pais, estar no trabalho da mãe ou do pai sem que ninguém se sinta enfadado ou se envergonhe da conduta da criança. Porque, à medida que cresce, se os seus pais o acompanham nesse crescimento, ajudando-o a reconhecer a diferença entre um lugar e outro para que saiba o que pode e o que não pode fazer, ou dizer isto ou aquilo, poderá adaptar-se, sentir-se mais confortável, mover-se com maior desenvoltura do que se for um mal educado típico. Por vezes, os pais sentem que é mais fácil deixar que o seu filho coma como quiser, do que sentar-se, várias vezes, com toda a paciência do mundo, para o ensinar a usar os talheres, a dizer por favor, a comer de boca fechada, a deixar os outros falar, a saber esperar e a não querer tudo imediatamente, a não gritar, a poder partilhar.
Um “não” a tempo, com o seu justo equilíbrio, explicado se necessário e se a situação o permitir (uma vez que, se uma criança correr perigo, se deverá dizer que não com firmeza e depois explicar-lhe), é um gesto de amor para com ela. A questão é ver como alimentar os seus sonhos, como acompanhá-los no crescimento, pondo-lhe os limites necessários e sem lhe cortar as asas. Não é fácil, mas é por esse caminho do meio, por esse equilíbrio, que passa a educação saudável, amorosa e feliz.S&L


Marcela Stieben
Jornalista

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