Psicologia / Julho 2004

 

 

PSIQUIATRIA

“A minha filha não tem dormido, ultimamente. Fica a deambular pela casa, agitada, e quer ir para a rua durante a madrugada. Não consegue ver programas na televisão, porque acha que os personagens estão a tramar algo contra ela. Diz que ouve vozes do outro lado da sua janela e essas vozes dizem coisas horríveis a seu respeito. Tenta dominar todos e tem crises de ciúmes do namorado...”
Estas palavras são parte do relato de uma mãe a respeito da sua filha, portadora de um quadro esquizofrénico. Estima-se que 1% da população mundial desenvolve esquizofrenia, uma doença muito temida e mal compreendida pelas pessoas em geral. Informações correctas poderão ajudar a eliminar as ideias erróneas e, consequentemente, a diminuir o preconceito, o medo, a vergonha e o desespero que, com muita frequência, acompanham essa doença.

Definição
Por falta de informação, algumas vezes, as pessoas não prestam atenção a certas “esquisitices” de um familiar. Outras vezes, até percebem; mas demoram a procurar ajuda especializada, ou nem sabem a quem procurar. A pretensão deste artigo é apenas chamar a atenção para alguns dados que poderão ser úteis no encaminhamento adequado de alguém que, talvez, o Leitor conheça e seja vítima do problema.
A esquizofrenia é uma doença conhecida há muito tempo e que tem sido encontrada em todos os tipos de sociedade. Um indivíduo que é vítima de esquizofrenia pode apresentar sintomas psicóticos, ou seja, perda do sentido de realidade ou incapacidade para distinguir entre as experiências reais e imaginárias.
Quando o episódio psicótico acontece apenas uma vez, ou de tempos a tempos, o indivíduo pode levar uma vida relativamente normal entre um episódio e outro. No entanto, nos casos de esquizofrenia aguda ou crónica, frequentemente as funções normais não são recuperadas integralmente, exigindo tratamento especializado.
As estatísticas demonstram que os homens são mais susceptíveis à esquizofrenia do que as mulheres. A proporção é de três homens para cada mulher. Os homens também adoecem mais precocemente de esquizofrenia do que as mulheres. Eles tornam-se vítimas da doença na faixa etária entre os vinte e trinta anos. Elas, mais para a metade da vida. No entanto, crianças acima dos cinco anos já podem desenvolver esquizofrenia; porém, essa é uma doença muito rara no período da pré-adolescência.

As Causas
Factores genéticos que produzem uma predisposição a essa doença, aliados a factores ambientais, contribuem para o desenvolvimento de diferentes graus da doença em diferentes indivíduos.
Assim como a personalidade de cada indivíduo é o resultado da interacção de factores culturais, psicológicos, biológicos e genéticos, uma desorganização da personalidade, como a que ocorre na esquizofrenia, pode ser o resultado da interacção de muitos factores.
 

Muitos doentes esquizofrénicos conservam uma enorme dificuldade para estabelecer a manter relações com outros indivíduos. Existem muitas formas de terapia psicossocial concentradas em melhorar a actuação do doente como ser social. Entre elas, estão a reabilitação, psicoterapia individual, terapia familiar, terapia de grupo e grupos de apoio.


Características da Doença
A esquizofrenia é caracterizada por alguns aspectos, tratados a seguir.
Os indivíduos esquizofrénicos têm a sua própria visão do mundo, que é diferente da realidade percebida e partilhada pelas pessoas que os cercam.
A pessoa esquizofrénica pode sentir-se ansiosa e confusa. Pode parecer distante, isolada e preocupada. É capaz de permanecer sentada durante horas, sem se mover, rígida como uma pedra e sem dizer uma só palavra. Ou pode ainda manter-se sempre alerta, vigilante, movendo-se, sempre ocupada.
Alucinações. Elas podem encher o mundo de um indivíduo esquizofrénico. Esse indivíduo pode perceber estímulos ou objectos que, na realidade, não existem. Pode ouvir vozes que lhe ordenam fazer algumas coisas, ver pessoas ou objectos que não estão ali ou sentir dedos invisíveis tocando-lhe no corpo.
Delírios. São falsas crenças de grandeza ou perseguição. Os delírios de perseguição consistem na ideia falsa e irracional de que a pessoa está a ser enganada, agredida, envenenada, ou que é vítima de algum tipo de conspiração.
Distúrbio do pensamento. O pensamento do esquizofrénico é frequentemente afectado pela doença. Ocorre uma dificuldade de pensar de maneira bem estruturada. Os pensamentos mudam aceleradamente de um assunto para o outro.
Tais dificuldades podem favorecer o isolamento social. Elas provocam a incompreensão e o afastamento de quem está ao redor.
Expressão das emoções. Nesse processo, ele pode demonstrar afecto embotado, através de um tom de voz monótono, e diminuição da expressão facial. Também pode manifestar o que se denomina afecto inadequado: isto é, demonstrar uma emoção que não tem relação com o que a pessoa pensa ou diz. Pode apresentar, também, estados extremos de euforia ou depressão.

Como Tratar
A esquizofrenia não é uma doença impossível de ser tratada. Para isso, é necessária a consideração de determinados passos:
Deve procurar-se imediatamente o médico psiquiatra, logo que sejam verificados os sintomas da esquizofrenia.
Infelizmente, as pessoas que não estão devidamente informadas confundem essa doença com problemas de ordem espiritual, como possessão demoníaca, e atrapalham ou retardam a ajuda que se deve prestar às vítimas. Uma série ou combinação de tratamentos tem-se demonstrado bastante útil.
As drogas antipsicóticas apresentam excelentes resultados, melhorando sensivelmente a perspectiva de vida de muitos pacientes. Existe uma tendência actual, na psiquiatria, de se usar a menor dose possível que possibilite ao esquizofrénico uma função mental sem recair na psicose.
Muitos doentes esquizofrénicos conservam uma enorme dificuldade para estabelecer e manter relações com outros indivíduos. Existem muitas formas de terapia psicossocial concentradas em melhorar a actuação do doente como ser social. Entre elas estão a reabilitação, psicoterapia individual, terapia familiar, terapia de grupo e grupos de apoio.
No caso de pacientes que não se dão conta de que estão doentes, os familiares e amigos têm que adoptar um papel activo para conseguir que eles sejam examinados e avaliados por um profissional.
Finalmente, uma atitude positiva, de esperança e fé em Deus, pode potencializar os benefícios dos tratamentos e trazer ao doente e aos seus familiares dias de conforto e paz.S&L
 

Tércia Pepe Barbalho
Psiquiatra

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