Da casa ao prato / Julho 2004

A árvore era alta e os seus ramos estendiam-se sobre o telhado do pequeno anexo ao fundo do quintal. As folhas verdes-claras chamaram a atenção do meu filho:
– Mãe, não são folhas de amoreira, as dos bichos-da-seda?
– São, filho, mas a amoreira não nos pertence. Por isso, se queres ter os tais bichos-da--seda, tens de ir falar com a dona da casa.
Tínhamo-nos acabado de mudar para a pequena casa com um quintalinho do tamanho de um selo de correio, mas que, para o meu filho de nove anos, quatro dos quais vividos em quartos de pensão, tinha um mundo de possibilidades. E agora, até uma amoreira! Encheu-se de coragem e foi falar com a dona da árvore que prontamente lhe disse que os ramos que estavam sobre o nosso quintal eram “nossos”, folhas e frutos incluídos. Passou a tratar da “nossa” amoreira. À noite, pegava na mangueira, abria a torneira ao máximo e o jorro de água passava sobre o telhado do anexo e regava a amoreira. Tive de ir falar com a vizinha e explicar o que acontecia, não fosse ela levar um banho. Ela riu e disse:
– Deixe lá o miúdo regar a amoreira. Nós nunca cuidamos muito dela, pode ser que venha a dar bons frutos.
E deu! Frutos negros, doces e suculentos. O Paulo subia, com prazer, ao telhado e colhia cestos de frutos que dividíamos com os outros vizinhos. E tivemos bichos-da-seda, casulos e borboletas, para grande alegria do meu filho.
Durante anos comemos amoras, fiz doce e tartes, sem me aperceber bem que, além do prazer que trazia ao nosso palato, estávamos a reforçar o nosso organismo.
As amoras são muito ricas em ferro e são, portanto, muito benéficas para quem esteja a recuperar de uma doença debilitante ou sofra de anemia. A vitamina C que contém torna-as um excelente aliado para um reforço antes do Inverno, e um bom anti-inflamatório para doenças da boca e das gengivas.
Um estudo realizado na Universidade de Tufts, Estados Unidos, revelou que o fitoquímico antocianina, um forte antioxidante, protege contra as perdas de memória relacionadas com o envelhecimento e o declínio das capacidades motoras. Nas amoras, o conteúdo de antocianina – que lhes dá a sua cor quase preta – é apreciável.
As folhas, raízes e casca são laxativas, expectorantes, emolientes, calmantes e diuréticas. Como cicatrizante de ferimentos e úlceras, use o sumo de folhas frescas. Um chá das suas flores frescas, adoçado com mel, ajuda nas afecções renais e diuréticas.

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