Entrevista / Julho 2004

Entrevista

A entrevista que transcrevemos, com os nossos agradecimentos, feita pela nossa congénere Vida Feliz à Dra. Marta Bina, pediatra e professora universitária, pretende responder a perguntas que os estimados Leitores, como mães e pais, fariam a uma especialista.

Vida Feliz: Uma leitora, mãe de três filhos de 7, 4 e 3 anos, diz-nos que eles são muito irrequietos, em especial o de 4 anos. Há alguma coisa que ela possa fazer para os tranquilizar um pouco? Seria conveniente dar-lhes algum sedativo, uma vez que os nota, em certas alturas, irritáveis e de mau génio?
Dra. Marta Bina: Primeiro que tudo, é preciso recordar que as crianças estão a crescer, têm um grande potencial de energia, estão na curva ascendente da vida, e isso manifesta-se no seu comportamento. Só me vou referir às crianças que se supõe estarem saudáveis. Nesse sentido, e antes de indicar qualquer medicação, convém rever os hábitos, o estilo de vida que levam.


V.F.: Que, por outro lado, costumam ser os da família.
Dra. M.B.: É verdade. Não é tarefa fácil modificá-los, mas podemos tentar.

V.F.: Como é que os hábitos influenciam o comportamento?
Dra. M.B.: De diversas formas. Uma medida útil é rever o “dia da criança”, quer dizer, tudo o que faz, como vive ao longo do dia. Comecemos pelas horas de sono: a que horas se levanta e a que horas se deita; isto dir-nos-á quantas horas dorme por noite, e se o faz a horários regulares. Também há que ter em conta se dorme a sesta ou se descansa um pouco a essa hora. Está absolutamente provado que um indivíduo que descansa pouco está, frequentemente, irritado, quer seja criança, quer seja adulto.

V.F.: Recordo-me que, numa conversa que tivemos, falou da necessidade de arejar bem os quartos de dormir e, durante a noite, não os fechar hermeticamente.
Dra. M.B.: Efectivamente. Deve-se sempre permitir que haja oxigénio suficiente durante o sono, para que este seja realmente reparador.

V.F.: Suponho que outro factor importante é a alimentação...
Dra. M.B.: Oh, sim! Além de recomendar uma alimentação apropriada em quantidade, é imprescindível que seja equilibrada e com os nutrientes adequados para o crescimento. Sem me demorar muito sobre este tópico, recordo a importância do consumo diário de frutas, verduras, cereais integrais e produtos lácteos. As proteínas de origem animal estão presentes nestes últimos, nos ovos e na carne. De todos os modos, a criança pode crescer e desenvolver-se perfeitamente tendo uma alimentação ovolactovegetariana, que também inclua legumes. Quanto mais natural for a alimentação, melhor. Deve haver cuidado quando comprarem os alimentos para que estes não contenham conservantes do tipo “E”.

V.F.: Como é que a alimentação influencia o estado nervoso das crianças?
Dra. M.B.: O consumo excessivo de farinhas e açúcares refinados tem uma influência negativa sobre a saúde e o sistema nervoso em particular. O açúcar pode ser consumido como tal, contido em preparados culinários ou fazendo parte da composição de molhos ou de diversos alimentos de conserva. Em qualquer destes casos, e com diversa intensidade, causa a irritação da mucosa gástrica (do estômago), com a consequente estimulação do sistema nervoso. Já se sabe que quando se está mal ou dolorido, ou com alterações digestivas, o humor não é dos melhores.
 

De todos os modos, a criança pode crescer e desenvolver-se perfeitamente tendo uma alimentação ovolactovegetariana, que também inclua legumes. Quanto mais natural for a alimentação, melhor.


V.F.: A mensagem é, portanto, clara: evitar as guloseimas e bebidas açucaradas.
Dra. M.B.: Sim, mas, de vez em quando, uma ou duas vezes por semana, pode permitir-se à criança algum doce.

V.F.: E para beber? Sei que o melhor é água, mas os sumos e as bebidas com gás causam algum mal?
Dra. M.B.: Ao serem açucaradas, diminuem o apetite e tomam o lugar dos alimentos que são necessários. O agravante é que as bebidas tipo cola são estimulantes e, como tal, põem as crianças muito nervosas e dificultam-lhes o sono.

V.F.: Se são estimulantes, então entram na mesma categoria do chá e do café, não é verdade?
Dra. M.B.: É verdade. O chá, o café, o mate, o chocolate e as bebidas de cola não deveriam ser dadas às crianças. Menos ainda se elas forem nervosas ou irritáveis. Se assim for, se alguma vez tomarem uma bebida de cola ou comerem um chocolate, já não é tão grave. No entanto, o pior é que o consumo repetido cria hábito; são substâncias aditivas. É fácil compreender a formação do círculo vicioso.


 

Nem quero falar das que assistem,
antes de dormir, a um programa de
terror, violência ou com demasiados
jogos de luzes, imagens em rápida
sucessão ou sons em volume alto.

 


V.F.: A pergunta seguinte é inevitável: que lhes damos ao pequeno-almoço?
Dra. M.B.: Leite simples ou com cereais, leite com cevada ou com alguma infusão de ervas. Também se deve dar frutas frescas, em compota ou secas, duas nozes ou umas seis amêndoas, por exemplo.

V.F.: Que me diz do horário das refeições?
Dra. M.B.:
As refeições devem ser três ou quatro por dia, segundo a idade das crianças; a intervalos regulares de não menos de quatro horas entre uma e outra. É claro que não se deve permitir que ingira coisa alguma, excepto água, entre as refeições. Os líquidos não se devem tomar às refeições, mas longe delas: uma hora antes ou duas horas depois, para não diluir os sucos gástricos e atrasar a digestão.

V.F.: Creio que vale a pena comentar alguma coisa a respeito da actividade física.
Dra. M.B.: Naturalmente, as crianças movimentam--se muito mais do que os adultos. Sem dúvida que, ultimamente, contamos com certos elementos perturbadores dessa actividade e aos quais as crianças se estão a tornar dependentes. Estou a falar da televisão e dos computadores. Não estou a dizer que sejam maus em si mesmos, mas que interferem na vida da criança de forma negativa, quando não são bem controlados e supervisionados por um adulto responsável. Uma pessoa que passa horas em frente do televisor, com jogos electrónicos ou com o computador (normalmente com jogos e entretenimentos, não a fazer trabalhos escolares), está demasiado parada e a sua energia natural terá de transbordar de qualquer maneira. É o que acontece com as crianças que vivem em apartamentos, que não correm o suficiente, a menos que tenham acesso a um clube ou a um espaço aberto. Nem quero falar das que assistem, antes de dormir, a um programa de terror, violência ou com demasiados jogos de luzes, imagens em rápida sucessão ou sons em volume alto.

V.F.: Além disso, as actividades ao ar livre implicam gozar do sol e do ar puro, com todos os seus benefícios...
Dra. M.B.: Tem muita razão. Até este momento não temos falado de doenças. Devo reconhecer que existem algumas capazes de provocar nervosismo e irritabilidade embora, por outro lado, a criança pareça estar saudável.

V.F.: Lembro-me de ter mencionado isso quando falou sobre as crianças anémicas.
Dra. M.B.: Sim, uma das manifestações que a anemia pode ter é a irritabilidade, mas também pode ser que apresente um abatimento. Certas parasitoses, alteração da glândula da tiróide, determinados processos infecciosos, isto só para dar alguns exemplos, produzirão, por vezes, alterações de ânimo, inquietação e nervosismo. Não nos devemos esquecer dos síndromas depressivos e de ansiedade que também se dão em idades pediátricas e que não são nada raros. Cabe mencionar a síndrome de déficit de atenção e hiperactividade, que muitas vezes se torna mais evidente na idade escolar, apesar de poder existir desde muito cedo.

V.F.: Claro que, nesses casos, é sempre o médico o encarregado de indicar a conduta a seguir, não é verdade?

Dra. M.B.: É a sua responsabilidade; e a dos pais é de levarem a criança à consulta. Contudo, parece-me importante recordar estas simples indicações com respeito ao estilo de vida que, sem dúvida, redundarão numa melhor qualidade para ela e para toda a família. E ajudaremos as nossas crianças a crescer saudáveis e felizes! S&L

Marta Bina
Pediatra

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