
Não foram poucas as crianças que em Portugal ficaram e ainda ficarão
impressionadas com a excitação que vêem nos seus pais, amigos e familiares em
torno do acontecimento desportivo do ano, o Euro 2004.
Esta exuberância exibida no pequeno ecrã ou nos estádios, pode levar os mais
novos a aspirar a serem a origem de tais arrebatamentos. Assim, colocam na mira
da sua vida tornarem-se estrelas de futebol.
Antes de se decidir a apoiar a aspiração do seu filho/a, deixe-me contar-lhe a
história do João1! Verdadeira: passou-se há alguns anos atrás numa cidade de
Portugal. O João era irmão de uma amiga minha. Tinha cerca de 14 anos. Um dia,
começou a ter fortes dores e foi ao médico: foi-lhe diagnosticado envelhecimento
precoce dos ossos e lesões musculares graves.
Como é que isso tinha acontecido?
O pai do João queria que ele fosse campeão. Por isso, desde muito cedo que
“dopava” o João, para que ele conseguisse ficar sempre em primeiro lugar na sua
categoria. O João gostava de ser o primeiro e começou a multiplicar as doses de
produtos que o pai lhe comprava. Os produtos que eram usados para o doping
certamente contribuíram para aquele grave problema.
Se pensa que o seu filho vai ser campeão, considere criteriosamente o nível de
exigência física, moral, psicológica e até espiritual – ao nível dos valores de
solidariedade, respeito pelos outros – que tal operação pode custar. A
manifestação natural de certos traços de superioridade perante os amigos e
colegas da idade do seu filho, os “passes” e os truques que ele consegue
resolver com a sua bola, podem ser um indicador promissor de que está ali um
campeão em potência. No entanto, muito há ainda a fazer. Ficam aqui os três
primeiros passos a dar, como sugestão para a ponderação do nível de campeão que
quer que o seu filho seja:
– ensine a disciplina: não há campeões sem terem aprendido a disciplinar-se
rigorosamente. Tal começa desde tenra idade, e é preciso muito bons educadores
para que a disciplina seja uma característica positiva e facilitadora dos mais
altos níveis de sucesso;
– eduque para a autonomia: ser disciplinado é só uma parte da questão: ensinar o
seu filho a tomar decisões, dar-lhe o “equipamento” necessário para o ajudar a
tomar decisões sábias e corajosas, sem estar dependente de outros para decidir
“que direcção” tomar, é condição sine qua non dos campeões. Uma boa educação,
uma formação sólida no respeito dos valores da pessoa humana, são os
ingredientes essenciais de um verdadeiro campeão. E lembre-se... autonomia
desregulada cria os déspotas e tiranos;
– eduque para a humildade: o seu “futuro” campeão não irá ganhar sempre! Um dia
chegará o início do pôr do sol da sua carreira, e a preparação para aceitar esse
dia também depende muito de si, hoje. A humildade aprende-se: a respeitar as
limitações naturais do seu corpo, por exemplo. É aqui que a questão do doping,
praga destrutiva de tantos jogadores, se resolve: não favoreça no seu filho a
aspiração a ser o melhor “a qualquer custo”.
O doping é um problema muito comum do desporto, mas não é só de hoje. Na
antiguidade já se praticava “doping”, muitas vezes de forma natural: os atletas
na antiga Grécia abstinham-se de alguns alimentos e antes das provas comiam mais
de outros.
Um exemplo disto é o que se passou no último campeonato do mundo de futebol na
Coreia do Sul. Na véspera da final entre o Brasil e a Alemanha, estalou o
escândalo: de acordo com o médico da selecção da Coreia do Sul, uma das razões
que permitiu trazer a sua equipa até ao 4º lugar no ranking mundial deveu-se a
uma dieta especial, à base de Ginseng, que forneceu uma resistência fora do
vulgar aos seus jogadores.
Os escândalos de atletas de alta competição envolvidos em exames que acusaram
substâncias dopantes, não deixam de lançar uma suspeita da real capacidade
física dos mesmos. Não deixou de ser notória a resistência e rapidez
demonstradas pela equipa da Coreia do Sul. Quando os adversários se encontravam
exaustos, estes jogadores continuavam a demonstrar uma resistência fora do
vulgar. Sabe-se agora que a dieta à base de ginseng dos futebolistas foi um dos
factores que lhes deu esta resistência... no entanto, sabe-se também que o
consumo excessivo de Ginseng pode estar na origem do cancro da próstata.
É porque muitas das técnicas e substâncias dopantes utilizadas são prejudiciais
à saúde, que muitas organizações impuseram regras que, se não forem respeitadas,
levam à eliminação dos atletas.
O Comité Olímpico Internacional tem identificadas uma série de substâncias (a
maior parte de síntese laboratorial) que foram excluídas da dieta dos atletas. A
razão que está por detrás desta proibição não se encontra numa qualquer
perseguição, tentando diminuir os níveis de desempenho dos atletas, mas nos
efeitos nocivos que tais substâncias têm sobre a saúde humana.
Por isso, quando lhe soar o canto de sereia que se ele tomar “isto” ou “aquilo”
ficará com muito mais vigor, correrá mais e mais depressa, SERÁ O MAIOR,
lembre-se que isso pode ser sol de pouca dura... e que depois virá o reverso da
medalha!
Não se deixe iludir, nem queira iludir os outros: ser o melhor não merece todos
os sacrifícios. Há alguns que não vale a pena e o “doping” é um deles.
E... se o seu filho não vier a ser um desses “campeões” dos relvados, isso não o
impede que faça dele um campeão na vida, ao ensinar-lhe disciplina, autonomia e
humildade.S&L
Para Saber Mais
| Doping: Considera-se dopagem a administração,
aos praticantes desportivos, ou o uso por estes, de classes farmacológicas
de substâncias ou de métodos constantes das listas aprovadas pelas
organizações desportivas nacionais e internacionais competentes. São também consideradas como dopantes as substâncias ou métodos de dopagem que, embora não sendo susceptíveis de alterar o rendimento desportivo do praticante, sejam usadas para impedir ou dificultar a detecção de substâncias dopantes. |
Consulta www.saudelar.com http://www.fpam.pt/nacional/anti-doping/ListaSubstanciasDopantes.html Decreto nº 2/94, de 20 de Janeiro - Aprova, para ratificação, a Convenção contra o Doping. Código Antidopagem do Movimento Olímpico: Lista das Classes de Substâncias e Métodos Interditos Agência Mundial Antidopagem |
Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da
Saúde,
Mestre em Saúde Pública