Sociologia do Desporto
Dedicando-lhe muitas dezenas de horas da sua vida, sentem-se orgulhosos
quando a trajectória desse objecto sem destino marcado – tão pouco previsível –
atinge as redes da outra equipa. Sentem-se realizados, buzinam nos carros, fazem
festas e alegram-se copiosamente. Mas nem sempre assim acontece. As
sensibilidades podem ser seriamente afectadas (por uma bola) e as manifestações
descer ao nível do inumano: são os jogadores com jogadas pouco amigáveis, que
levam os árbitros a agirem com pouca clareza, incitando os espectadores ao ódio
e frustração, que são geridos pela perturbação e violência nas ruas e nos
estádios.
Para alguns, os tempos que correm desvirtuam o bom do desporto da bola e,
segundo eles, em épocas passadas as coisas não eram assim!
Será mesmo?
O jogo da bola teve as suas origens recentes em Itália, no século XV. Vive-se
com a guerra (entre os diferentes estados). A classe dominante apropria-se do
jogo, tornando-o exclusivo aos guerreiros, fidalgos e príncipes. É esta selecção
que irá dar mais tarde origem, no século XIX, ao termo amador.
Desde a época medieval até Thomas Arnold (educador britânico que está na origem
do movimento desportivo inglês), o jogo da bola terá sido um dos mais populares,
embora praticado, por vezes, com a proibição das autoridades. Os jogos da bola,
como o calcio e a soule, revestiam-se de extrema violência; o primeiro
degrada-se sob as características sociais e políticas do seu tempo.
Em Inglaterra, o jogo da bola não tinha a aprovação da aristocracia e são os
estratos sociais mais baixos que fazem a sua divulgação. Era uma actividade,
como referimos, de grande perigo e violenta. Por isso, talvez, vem a ser
proibida: interdita em 1574, em Cambridge, e em 1584, em Oxford. O próprio Rei
(da Inglaterra e da Irlanda, Jaime I, 1566-1625) irá intervir, proibindo a sua
prática, pois considerava que causava mais dano do que proveito.
As influências rígidas religiosas, associadas às condições políticas e sociais
prevalecentes, acabaram por impedir o seu cariz recreativo, pois era visto como
atentador contra a moral e a consciência.
Com a melhoria das condições sociais – aumento de tempo livre – e o evoluir dos
sistemas educativos modernos, o filósofo inglês John Lock (1630-1704), introduz
o jogo nas escolas. O seu valor educativo justifica esta decisão. Mas esta
entrada do desporto nas escolas não foi pacífica. E dois termos distintos
surgem: a palavra sport correspondente aos desportos de campo, e a palavra game
referente ao desporto da caça.
A melhoria das condições sociais que se verifica com o avançar da revolução
industrial implica novos padrões comportamentais na poderosa burguesia. Este
desenvolvimento económico estende-se à população em geral, passando esta a
dispor de mais tempo livre.

O Fair-Play: o Renascimento Moderno do Desporto.
Nas escolas públicas, onde se pugna pelo fim das diferenças sociais, luta-se
contra a degradação causada nos alunos pelos jogos de azar – que eram praticados
ao sabor das bebidas alcoólicas. Esta situação levou Thomas Arnold (o
responsável pelo colégio de Rugby) a lançar, nas escolas inglesas, a perspectiva
da prática desportiva, organizada e regulamentada, com objectivos educativos a
que chamou Fair-Play, ou jogo limpo. Assim se associava desporto à educação (com
o desenvolvimento da personalidade, do carácter e da condição física).
Na sequência dos resultados obtidos, esta experiência foi desenvolvida em outros
países. Em Portugal, pela mão de Ramalho Ortigão (1836-1915), é defendida no
parlamento a ideia de que houvesse ginástica nas escolas para raparigas.
Salientava este estadista que
uma recente estatística, feita na Inglaterra, prova quanto
esses exercícios são úteis não só ao desenvolvimento físico, mas ao
desenvolvimento intelectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu
a ginástica, os alunos aprendem mais e em menos tempo, do que naquelas em que a
ginástica não existe (SÉRGIO, Manuel, NORONHA, Feio, Homo Ludens, Lisboa:
Compendium. O Parlamentarismo, in “As Farpas”).
Pierre de Coubertin, o pai dos modernos Jogos Olímpicos (1863-1937), é
influenciado pela acção desenvolvida por Thomas Arnold, e ao sucesso obtido por
esta nova concepção no colégio de Rugby. Levando a ideia para o âmbito das
relações entre estados, ele pretende promover o bom entendimento entre os mesmos
através da prática dos desportos.
Conhecedor da cultura grega, na ideia da reconstituição dos jogos Olímpicos para
a Era Moderna, Pierre de Coubertin anseia ver revitalizados valores e qualidades
humanas que se extinguiam com as condições sociais prevalecentes.
A sua célebre frase: ‘o importante é participar’, dá o mote para o que se
pretendia que viesse a acontecer nos modernos anfiteatros, não de pedra ou
cavados na rocha, mas de betão armado.
Mas este sonho não se concretizou.
Nos estádios, as nações travam batalhas renhidas. Os “soldados”, espectadores
que ganham ou perdem, extravasam em violência digna dos cenários mais
calamitosos de uma guerra. Os mortos e feridos contam-se.
O desporto, tal qual ele se apresenta actualmente, é um fenómeno de alienação. O
comprometimento do Fair-Play, a violência a que assistimos nos pequenos écrãs, a
própria morte, levantam hoje sérias dúvidas sobre a utilidade social do
desporto-espectáculo na sociedade da 2ª modernidade. Mas não terá de ser sempre
assim: nem Portugal deve ser assim em 2004. Por isso, que o momento actual seja
o de uma grande festa entre nações e povos. Façamos a nossa parte para que assim
seja. S&L
Luís Saboga Nunes
Sociólogo da Medicina e da
Saúde,
Mestre em Saúde Pública