Sociologia / Junho 2004

Sociologia do Desporto

Dedicando-lhe muitas dezenas de horas da sua vida, sentem-se orgulhosos quando a trajectória desse objecto sem destino marcado – tão pouco previsível – atinge as redes da outra equipa. Sentem-se realizados, buzinam nos carros, fazem festas e alegram-se copiosamente. Mas nem sempre assim acontece. As sensibilidades podem ser seriamente afectadas (por uma bola) e as manifestações descer ao nível do inumano: são os jogadores com jogadas pouco amigáveis, que levam os árbitros a agirem com pouca clareza, incitando os espectadores ao ódio e frustração, que são geridos pela perturbação e violência nas ruas e nos estádios.
Para alguns, os tempos que correm desvirtuam o bom do desporto da bola e, segundo eles, em épocas passadas as coisas não eram assim!
Será mesmo?
O jogo da bola teve as suas origens recentes em Itália, no século XV. Vive-se com a guerra (entre os diferentes estados). A classe dominante apropria-se do jogo, tornando-o exclusivo aos guerreiros, fidalgos e príncipes. É esta selecção que irá dar mais tarde origem, no século XIX, ao termo amador.
Desde a época medieval até Thomas Arnold (educador britânico que está na origem do movimento desportivo inglês), o jogo da bola terá sido um dos mais populares, embora praticado, por vezes, com a proibição das autoridades. Os jogos da bola, como o calcio e a soule, revestiam-se de extrema violência; o primeiro degrada-se sob as características sociais e políticas do seu tempo.
Em Inglaterra, o jogo da bola não tinha a aprovação da aristocracia e são os estratos sociais mais baixos que fazem a sua divulgação. Era uma actividade, como referimos, de grande perigo e violenta. Por isso, talvez, vem a ser proibida: interdita em 1574, em Cambridge, e em 1584, em Oxford. O próprio Rei (da Inglaterra e da Irlanda, Jaime I, 1566-1625) irá intervir, proibindo a sua prática, pois considerava que causava mais dano do que proveito.
As influências rígidas religiosas, associadas às condições políticas e sociais prevalecentes, acabaram por impedir o seu cariz recreativo, pois era visto como atentador contra a moral e a consciência.
Com a melhoria das condições sociais – aumento de tempo livre – e o evoluir dos sistemas educativos modernos, o filósofo inglês John Lock (1630-1704), introduz o jogo nas escolas. O seu valor educativo justifica esta decisão. Mas esta entrada do desporto nas escolas não foi pacífica. E dois termos distintos surgem: a palavra sport correspondente aos desportos de campo, e a palavra game referente ao desporto da caça.
A melhoria das condições sociais que se verifica com o avançar da revolução industrial implica novos padrões comportamentais na poderosa burguesia. Este desenvolvimento económico estende-se à população em geral, passando esta a dispor de mais tempo livre.

O Fair-Play: o Renascimento Moderno do Desporto.
Nas escolas públicas, onde se pugna pelo fim das diferenças sociais, luta-se contra a degradação causada nos alunos pelos jogos de azar – que eram praticados ao sabor das bebidas alcoólicas. Esta situação levou Thomas Arnold (o responsável pelo colégio de Rugby) a lançar, nas escolas inglesas, a perspectiva da prática desportiva, organizada e regulamentada, com objectivos educativos a que chamou Fair-Play, ou jogo limpo. Assim se associava desporto à educação (com o desenvolvimento da personalidade, do carácter e da condição física).
Na sequência dos resultados obtidos, esta experiência foi desenvolvida em outros países. Em Portugal, pela mão de Ramalho Ortigão (1836-1915), é defendida no parlamento a ideia de que houvesse ginástica nas escolas para raparigas. Salientava este estadista que

uma recente estatística, feita na Inglaterra, prova quanto esses exercícios são úteis não só ao desenvolvimento físico, mas ao desenvolvimento intelectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu a ginástica, os alunos aprendem mais e em menos tempo, do que naquelas em que a ginástica não existe (SÉRGIO, Manuel, NORONHA, Feio, Homo Ludens, Lisboa: Compendium. O Parlamentarismo, in “As Farpas”).

Pierre de Coubertin, o pai dos modernos Jogos Olímpicos (1863-1937), é influenciado pela acção desenvolvida por Thomas Arnold, e ao sucesso obtido por esta nova concepção no colégio de Rugby. Levando a ideia para o âmbito das relações entre estados, ele pretende promover o bom entendimento entre os mesmos através da prática dos desportos.
Conhecedor da cultura grega, na ideia da reconstituição dos jogos Olímpicos para a Era Moderna, Pierre de Coubertin anseia ver revitalizados valores e qualidades humanas que se extinguiam com as condições sociais prevalecentes.
A sua célebre frase: ‘o importante é participar’, dá o mote para o que se pretendia que viesse a acontecer nos modernos anfiteatros, não de pedra ou cavados na rocha, mas de betão armado.
Mas este sonho não se concretizou.
Nos estádios, as nações travam batalhas renhidas. Os “soldados”, espectadores que ganham ou perdem, extravasam em violência digna dos cenários mais calamitosos de uma guerra. Os mortos e feridos contam-se.
O desporto, tal qual ele se apresenta actualmente, é um fenómeno de alienação. O comprometimento do Fair-Play, a violência a que assistimos nos pequenos écrãs, a própria morte, levantam hoje sérias dúvidas sobre a utilidade social do desporto-espectáculo na sociedade da 2ª modernidade. Mas não terá de ser sempre assim: nem Portugal deve ser assim em 2004. Por isso, que o momento actual seja o de uma grande festa entre nações e povos. Façamos a nossa parte para que assim seja. S&L
 

Luís Saboga Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde,
Mestre em Saúde Pública

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