Psicologia
Na competição de alto nível, os estados emocionais
poderão provocar uma inibição ou, ao contrário, uma excitação indispensável para
alcançar a vitória, dependendo da capacidade de auto-domínio manifestada pelo
desportista. Para evidenciar essas consequências contraditórias, basta pensar,
por um lado, nos bloqueios que uma “pressão” forte, como se costuma dizer,
poderia criar num jogador de ténis, ou, por outro lado, na formidável dinâmica
que um público de adeptos pode imprimir a um campeão de ciclismo ou a uma equipa
de futebol.
Entre todos esses estados emocionais, um dos mais intensos, um dos mais
prejudiciais, se não for controlado, e um dos melhor estudados, é a ansiedade.
Ansiedade e Competição
Em termos psicológicos, a ansiedade pode definir-se como um estado
específico, desagradável, caracterizado pela antecipação de um acontecimento
ameaçador ou mesmo perigoso, que pode ocorrer no futuro. A ansiedade
distingue-se geralmente do medo, no sentido em que o seu objecto não está
presente; é pressentido e temido. Se um homem me ameaça com uma faca ou com um
revólver, tenho medo. Mas sinto-me ansioso antes de um exame ou de um desafio
importante e de resultado incerto.
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A responsabilidade de ganhar uma medalha
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Alguns psicólogos fazem distinção entre um traço
ansioso e um estado de ansiedade. Um indivíduo apresentará ou não um traço
ansioso, de acordo com a sua maneira de reagir em face de circunstâncias que ele
considera ameaçadoras ou perigosas. O traço ansioso manifesta-se quando a
resposta a essas situações é desproporcionada em relação à importância real do
perigo. Quanto ao segundo, o estado de ansiedade, manifesta-se como uma reacção
ou resposta emocional, que é dada por um indivíduo que percebe uma situação
particular como pessoalmente perigosa ou ameaçadora para ele; é caracterizado
por um sentimento de apreensão, tensão e também por activação do sistema nervoso
vegetativo.
Esta predisposição inata de certas pessoas para responderem com o seu sistema
nervoso autónomo mais intensamente, de modo mais duradouro e rápido do que
outras, a estímulos fortes e dolorosos, tem uma incidência especial sobre os
órgãos dos sentidos. Na prática desportiva, mais especificamente em atletas de
alta competição, gera-se o que se chama um comportamento competitivo. Porém, se
a pessoa ou atleta se envolve muito em determinada tarefa, pelo valor intrínseco
que ela lhe confere ou pelo prestígio que dela decorre, como acontece numa
competição desportiva, então, a não obtenção da recompensa pretendida pode ser
bastante frustrante e desconfortável. A responsabilidade de ganhar uma medalha
ou um título projecta sobre o atleta uma carga psicológica enorme, que este tem
de enfrentar e que, por vezes, é muito difícil de ultrapassar. Essa carga é
amplificada, num contexto mais amplo, pelos meios de comunicação, bem como pelo
público (de maneira pontual mas muito mais intensa).
No entanto, a ansiedade tem, dentro de certos limites, uma acção útil, ao
aumentar a capacidade de esforço e de actividade. Por meio de um estímulo
hormonal, permite uma mobilização de todo o potencial do organismo. É
necessária, portanto, uma certa excitação.
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Sintomas exteriores do estado de ansiedade Sente-se ansioso? Esta
lista de dez sintomas permitir-lhe-á responder e avaliar o seu nível de
ansiedade. Faça esta avaliação uma semana, três dias, uma hora antes da
competição, ou mesmo no intervalo dela. Basta responder a cada questão,
atribuindo a cada resposta uma nota: A (muito pouco), B (pouco), C (médio),
D (muito) e E (muitíssimo). Uma derrota ou insucesso numa competição para a qual o atleta tivesse criado expectativas demasiado altas, poderá levá-lo a estados neuróticos, com os consequentes problemas físicos, implicando a perda da sua boa forma. |
Terapias para diminuir os estados emocionais
Um atleta que queira atingir altas performances, terá de se submeter a um
treino psicológico intensivo, que terá como objectivo ajudar esse atleta a
controlar essas emoções negativas. As técnicas de preparação serão diferentes,
segundo o atleta se encontre em período pré ou pós-competitivo.
No período pré-competitivo, podemos utilizar as terapias comportamentais
(técnicas de asserção, de dessensibilização sistemática, técnicas aversivas,
etc.), terapias de auto-regulação (treino autogénio de Schultz, relaxação
progressiva de Jacobsen, etc.), ou ainda terapias, muito na moda, porque muito
poderosas, do tipo cognitivista. Analisemos um pouco estes termos.
● As terapias comportamentais são técnicas de modificação do comportamento
baseadas na teoria da aprendizagem. Não existe interesse pelo interior do
indivíduo, pelo que ele pensa, mas simplesmente pelo seu comportamento exterior,
pela maneira como reage. Procura-se habituá-lo, progressivamente, a situação
exterior geradora de ansiedade.
● A técnica aversiva tem por finalidade a eliminação de comportamentos anormais,
que são tidos como agradáveis. Apresentam-se esses comportamentos de forma
desagradável, de modo a provocar repulsa, ou aversão.
● A técnica assertiva tem como objectivo levar o atleta a um controlo da
inibição e a ganhar confiança em si.
A utilização repetida de uma afirmação tende a imprimir essa ideia no espírito,
atenuando, ao mesmo tempo, a atitude negativa habitual. Cria-se, assim, aquilo a
que poderíamos chamar a “capacidade de se afirmar”.
● As técnicas de relaxação têm como suporte as técnicas de auto-regulação e
visam provocar no atleta uma descontracção muscular e psíquica, através da
tomada de consciência dos mecanismos fisiológicos internos. A mais conhecida é o
treino autogénio de Schultz. Exige uma aprendizagem longa, junto de um
especialista, e é difícil expô-la brevemente aqui. Digamos que os indivíduos
aprendem, por meio de exercícios apropriados, a representar uma série de imagens
mentais correspondentes à tomada de consciência corporal: calor, peso, calma,
etc. Essa descontracção exerce-se, sucessivamente, sobre seis áreas: os
músculos, o sistema vascular, o coração, a respiração, os órgãos abdominais e o
rosto.
Uma das grandes vantagens destas técnicas é a de elas fazerem ressaltar o papel
do atleta como principal agente de intervenção. A relaxação é vista não como uma
descontracção vulgar, mas sim como um estado fisiológico especial, em que uma
modificação profunda do tónus muscular está ligada a uma alteração da tensão
psicológica.
● Falemos agora das terapias cognitivas. Os métodos anteriores partiam do corpo,
embora na relaxação as imagens mentais sejam importantes. A técnica cognitivista
é muito diferente e mais puramente psicológica. A sua fonte é o pensamento,
incluindo tudo o que está relacionado com o conhecimento, com a representação
que fazemos da realidade, ideias, crenças, etc.
Ao contrário do que geralmente se pensa, não é a realidade que nos afecta (que
nos agrada, nos irrita, nos emociona ou nos angustia, etc.), mas sim a ideia que
dela fazemos. Um melhor controlo do nosso sistema de pensamento pode, portanto,
precaver-nos e preparar-nos para enfrentar, de modo muito diverso, as emoções.
Essa preparação pré-competitiva revela toda a sua eficácia no momento da
competição, ou, mais exactamente, imediatamente antes do fogo da acção, ou
durante as pausas, em que é fundamental a capacidade de não se deixar
desconcentrar.
No período pós-competitivo, a preparação psicológica torna-se absolutamente
imprescindível, no caso de atletas que não possuam uma personalidade devidamente
estruturada, isto é, que ainda não conseguem desenvolver mecanismos de defesa
capazes de enfrentar os estados de tensão máxima a que a competição obriga. Uma
derrota ou insucesso numa competição para a qual o atleta tivesse criado
expectativas demasiado altas, poderá levá-lo a estados neuróticos, com os
consequentes problemas físicos, implicando a perda da sua boa forma. S&L
Carlos Alberto S. Dias
Professor de Educação Física
e
Psicólogo do Desporto