A
vida decorre agitada para muitas pessoas em muitos lugares. São
diversas as causas dessa
agitação e talvez possamos relembrar aqui algumas delas: as exigências da vida
moderna, as ambições legítimas sob relativo controlo e aquelas das quais podemos
dizer que são excessivas e muitas vezes incontroladas; os problemas maiores ou
menores que daí advêm; a necessidade de lutar, de correr, de procurar vencer.
Daí que encontremos um grande número de pessoas a dizer que o tempo é escasso e
que cada dia devia ter bem mais do que as rotineiras 24 horas. Como o tempo é
escasso e a vida moderna é tão exigente em termos da solicitação desse tempo,
acontece que alguns sectores decisivos da nossa vida são relegados para um plano
mais ou menos secundário, e um desses planos é, sem dúvida, aquele que diz
respeito ao companheirismo regular que havia a esperar dos pais para com os
filhos.
Não há muito tempo, uma menina de 12 anos, chamada Rochelle Joffe, com sobejados
talentos de poesia, escreveu alguns versos que nos devem fazer reflectir e que
foram publicados num livro que fez carreira, intitulado: “O Futuro da Família”.
Dizem esses versos:
Perguntei ao meu Pai
– Paizinho o que é gerir?
Ele só me respondeu
– Tenho pressa de sair!
Perguntei ao meu Pai
– Paizinho o que é juízo?
Só respondeu e depressa
– Maças-me sem ser preciso!
Perguntei ao meu Pai
– Como se escreve flor?
Respondeu muito enfadado
– Deixa-me em paz, por favor.
Perguntei ao meu Pai
– Onde vais tu, paizinho?
Respondeu meio zangado:
– Tira-te do meu caminho!
A mensagem desta jovem é muito clara e precisa e pode ser entendida facilmente
por todos nós. Estamos por certo na presença de um pai extremamente ocupado,
vivamente interessado no seu trabalho, sem tempo para dedicar à sua filha.
Agitado, impaciente, cansado. Ao seu lado está a filha, adolescente de 12 anos,
que sente uma grande vontade de comunicar com o Pai, o que a impele a fazer
perguntas. São questões objectivas de resposta simples e não demorada. Mas o
Pai, agitado, impaciente e cansado, não tem forças nem tem tempo para se sentar
e conversar um pouco com a filha e lhe explicar o que significa “gerir” ou como
se escreve “flor”. Na realidade, muitos filhos são hoje, também, apanhados muito
cedo nas sendas da vida agitada dos nossos dias, filhos aos quais quase
poderíamos chamar, com propriedade, órfãos de pais vivos.
Como é salutar poder referir e sentir, intimamente, que temos dedicado aos
nossos filhos o tempo necessário para que eles tenham podido crescer ou estejam
a crescer duma forma equilibrada e sadia! Talvez alguns de nós sintamos que
estamos em falta neste ponto. Mas não é ele um ponto decisivo, vital, inclusivé,
para a nossa realização pessoal? Ainda estamos a tempo de mudar um pouco o curso
dos acontecimentos e, sentando-nos de quando em vez ao lado dos nossos filhos,
explicar-lhes o que é “gerir” e como se escreve “flor”.S&L
José Manuel de Matos
Licenciado em Humanísticas