SAÚDE

Há já alguns anos que a obesidade é um tema actual nos países
industrializados, embora ultimamente gere níveis de preocupação maiores do que
em épocas anteriores. Isto relaciona-se, especialmente, com certas doenças
degenerativas, tais como as doenças cardiovasculares, certos tipos de tumores
malignos, a diabetes, a hipertensão arterial, doenças osteoarticulares, etc.. A
obesidade também está condicionada pela estética e a imposição de certas modas e
por certos transtornos da alimentação que apareceram relacionados com eles, como
são a anorexia e a bulimia.
Em primeiro lugar, creio que é necessário esclarecer a definição de obesidade
antes de continuar a falar dela, já que existe uma grande confusão a esse
respeito, e muitas pessoas pensam que são obesas sem realmente o serem, antes
pelo contrário.
‘Obesidade’ significa excesso de tecido adiposo ou de gordura, e traduz-se por
um aumento do peso corporal. Não se deve confundir com o excesso de peso próprio
dos atletas, nos quais existe um aumento do peso corporal, mas sem o aumento
excessivo da gordura corporal.1
Não é fácil precisar o que se entende por excesso de gordura, por isso existe
tanta confusão a esse respeito. Os métodos para medir a gordura corporal são
complicados, pelo que, na prática, recorre-se a certas fórmulas mais simples:
- A mais popular, embora pouco exacta, consiste em expressar a altura em centímetros. Os centímetros que excedem ao metro, com uma margem de mais ou menos uns 10%, equivalem aos quilos que se deveriam ter. Assim, pois, uma pessoa de 170 cm de altura deveria pesar 70 kg +/- 7 kg, quer dizer, entre 63 e 77 kg, segundo a sua constituição, sexo e profissão.
- Uma fórmula mais adequada é a que se denomina índice de massa corporal (IMC),
que consiste em expressar o peso em quilos e dividi-lo pela altura expressa em
centímetros. Por exemplo, uma pessoa que pesa 70 kg e mede 1,70 m, tem um
IMC=70/(1,7)2, quer dizer, 24,22 (normal). É considerada alarmante (magreza
excessiva) abaixo de 15. Normal, entre 16 e 24. Excesso de peso leve, entre 25 e
29. E obesidade acima de 29.
Os leitores ou leitoras desta revista que decidiram ler este artigo, em primeiro
lugar, por se acharem obesos, depois de terem aplicado as fórmulas anteriores
talvez dêem conta de que, na realidade, estão dentro dos parâmetros normais. Não
obstante, recomendo-lhes que continuem a leitura, pois podemos sempre melhorar a
nossa saúde e alimentação.
A massa de tecido adiposo que determina a obesidade depende da idade, do sexo,
da hereditariedade, da constituição física, do equilíbrio hormonal, etc.; todos
eles são factores que não podemos modificar, mas a dita massa depende, além
disso e fundamentalmente, da ingestão calórica ou quantidade e tipo de alimentos
consumidos, e do consumo energético ou exercício que realizamos.2
Em condições normais, o organismo humano precisa, para o seu funcionamento em
repouso absoluto, de um mínimo de 65 calorias por hora ou 1560 calorias por dia.
E, para uma actividade sedentária, umas 1800 kcal/dia. Uma actividade ligeira,
como aquela que é própria de um vendedor, precisa de umas 2300 kcal/dia;
enquanto que uma actividade moderada, como a de um mecânico, requererá umas 2800
kcal/dia. As actividades intensas, como as realizadas pelos desportistas, pelos
mineiros, etc., precisarão de mais de 3500 kcal/dia (ver quadro “Necessidades
diárias de calorias segundo a actividade”)3
Como Podemos Emagrecer Saudavelmente
Existem vários passos que podem ajudar-nos a ter uma melhor saúde em geral e a
emagrecer, se tivermos um certo excesso de peso ou uma obesidade moderada (em
casos de grande obesidade é requerido o controlo médico).
1. Adapte as calorias que ingere ao tipo de actividade física que realiza. Para
isso procure a sua actividade no quadro e veja quantas calorias deveria consumir
diariamente. Se consome mais calorias do que as que a sua actividade física
requer, engordará, a menos que aumente a sua actividade física; e, pelo
contrário, emagrecerá se consumir menos calorias do que as que lhe correspondem.
2. Reduza as calorias que ingere ou, melhor dizendo, a quantidade e tipo
de alimentos consumidos. É importante comer alimentos com pouca densidade calórica,
como os vegetais, na proporção adequada ao nosso tipo de actividade física, e
cozinhados de forma que não aumentemos as suas calorias. Exemplos de alimentos
que contenham poucas calorias temo--los nas saladas, nas verduras, nas
hortaliças, nas frutas, etc.. Mas podemos transformá-los em alimentos muito
calóricos se os fritarmos, tal como acontece com as batatas fritas, o tomate
frito, etc., nos quais podemos triplicar as suas calorias com este tipo de
cozinhado. Reduzir as calorias que consumimos não significa deixarmos de tomar o
pequeno almoço ou qualquer outra refeição, já que o organismo reage economizando
energias ou, o que é o mesmo, diminuindo a termogénese e o esforço realizado não
se traduz em nenhuma perda de peso. Pelo contrário, o conselho 3 tem resultados
muito eficazes, pois aumenta o consumo de calorias.
3. Aumente o seu exercício físico ou gasto energético, com o qual, além de
melhorar o seu rendimento cardio-respiratório, o tono muscular e o estado dos
ossos, conseguirá queimar calorias em proporção ao tipo de exercício, tal como
se pode observar no quadro “Necessidades diárias de calorias segundo a
actividade”2, na pág. 8.
Por outras palavras, podemos conseguir um efeito semelhante reduzindo as
calorias ingeridas, ou gastando mais calorias com um aumento do exercício
físico.
4. Melhore a sua alimentação tendo em conta os seguintes conselhos:
a) Os vegetais proporcionam muito poucas calorias, salvo se levarem preparados,
ou segundo a forma como forem cozinhados; por isso, recomendamos que aumente o
seu consumo.
b) Os princípios imediatos não contêm todos as mesmas calorias. Assim, um grama
de hidratos de carbono (cereais e derivados, massa, batatas, etc.) proporciona
umas 4 calorias; 1 g de proteína (sem acréscimo de gordura) produz 4 calorias; 1
g de álcool, 7 calorias; e 1 g de gordura proporciona 9 calorias. Por isso,
recomendamos que evite o consumo de carnes vermelhas, enchidos, gorduras e
bebidas alcoólicas.
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| Dieta de 1000 calorias diárias
Pequeno almoço |
Dieta de 1500 calorias diárias
Pequeno almoço |
c) A proporção de princípios imediatos recomendada é a seguinte: das calorias
totais que consumimos diariamente, de 55% a 75% devem ser provenientes de
hidratos de carbono; 15%-25%, das gorduras; e uns 10%-15%, das proteínas; é
importante manter estas proporções.
d) Reduza ao máximo o consumo de gorduras, de produtos animais ricos em gordura
(enchidos, carnes vermelhas, queijos curados, nata, gelados, caramelos,
chocolate, etc.), de doces, etc.. Abstenha-se das bebidas alcoólicas e do
costume de petiscar entre as refeições, pois tudo isto proporciona muitas
calorias vazias que não saciam o apetite, mas engordam.
e) Evite comer entre as três refeições, que não deveriam estar espaçadas mais de
cinco horas. Pode beber água ou tomar alguma tisana, ou, no máximo, comer uma
peça de fruta entre as refeições.
f) Procure fazer uma alimentação o mais vegetal possível. Os produtos vegetais,
com excepção dos frutos secos e do azeite e dos óleos, são alimentos com pouca
densidade calórica, contêm menos gordura, não contêm gorduras saturadas e, em
geral, são mais saudáveis que os produtos animais; ajudam, portanto, não só a
emagrecer, mas também a ter melhor saúde. Exemplos de menus adelgaçantes
baseados no regime vegetariano podem ser encontrados na página 8.4

g) Por último, recorde-se do conselho que D. Quixote deu ao seu amigo Sancho:
“Toma o pequeno almoço de um rei, almoça como um príncipe e janta como um
mendigo”.
Para concluir, poderíamos dizer que existem vários estudos clínicos4 que
demonstram claramente que as pessoas que seguem uma alimentação rica em produtos
vegetais, como a que é aqui recomendada, têm menor peso e menor IMC (índice de
massa corporal), em comparação com as que se alimentam fundamentalmente à base
de produtos animais. Este fenómeno deve-se a que a dieta vegetariana é mais
baixa em calorias; como já se disse, os alimentos vegetais, com excepção dos
frutos secos e do azeite e dos óleos, têm uma menor densidade calórica, além de
conterem mais fibra e menos gordura. Por tudo isso, são úteis para o tratamento
da obesidade e para prevenir as doenças degenerativas que afectam os países
ocidentais, como os transtornos cardiovasculares, o cancro, a hipertensão
arterial, alguns tipos de diabetes, a osteoporose, etc..S&L
Bibliografia:
1. M. Díaz-Rubio, Tratado de Medicina Interna, t. 2, págs. 2239-2245,
Panamericana, 1996.
2. Extraído de Jorge D. Pamplona-Roger, Desfruta!, Sabugo, Publicadora
Atlântico, S.A., 2002, pág. 160.
3. Idem, pág. 169.
4. Idem, pág. 159-169; J. Sabaté, Vegetarian Nutrition, págs. 91-106, CRC Press,
2001.
Pere Llorca i Contel
Cirurgião, com mestrado em Nutrição, Epidemiologia e Educação Sanitária