Psicologia / Março 2004

A solidão mata: a convivência cura

Os males da solidão
O facto de se viver só não quer necessariamente dizer que se sofra das calamidades da solidão, mas é um factor de risco importante. A sociedade está a experimentar um processo de atomização ou desintegração que, além de diminuir o nível de convivência no lar, debilita os laços comunitários, as inter-relações e as diferentes modalidades de partilhar experiências, favorecendo as transacções mecânicas, anónimas ou com aparelhos como a televisão. Uma sociedade que considera o indivíduo de maneira isolada, com níveis de relações pobres, está com a sua saúde ameaçada. As investigações demonstram cientificamente que viver isolado é um factor de risco elevado que predispõe à doença e à morte.
Um exemplo para ilustrar isso é o caso de Roseto. Trata-se de uma pequena vila italiana, cujos habitantes praticamente não sofriam de enfartes, em comparação com outras grandes populações. Os especialistas estudaram ambas as zonas, crendo que os italianos eram portadores de genes peculiares que protegiam o seu coração. Anos mais tarde, os investigadores deram com a chave do problema: não eram os genes, mas sim a convivência. Os residentes de Roseto nunca se sentiam sós, já que viviam bastante juntos e mantinham relações muito estreitas. Aquele achado, conhecido mais tarde como “o afecto de Roseto”, é a base do livro Sobrepor-se à Solidão Cada Dia da Nossa Vida, elaborado por uma equipa de psiquiatras do Hospital McLean, em que se assegura que a convivência oferece uma forte protecção contra a doença e a morte. A solidão, pelo contrário, pode chegar a matar como o tabaco, a obesidade ou a hipertensão.1
Outro estudo extraordinário e de grande impacto – para citar mais um exemplo – foi realizado na Suécia a mães com filhos menores de 15 anos. Descobriu-se que as mães que viviam sós, em comparação com as que tinham cônjuge, apresentam 70% mais de risco de falecer de maneira prematura. Esta é a conclusão assustadora a que chegaram Gunilla Ringbäck Witoft e a sua equipa do Centro de Epidemiologia do Laboratório Nacional de Saúde e Bem-Estar de Estocolmo.2 A investigação analisou a mortalidade total e as causas específicas do falecimento (por exemplo, do coração, cancro, problemas respiratórios, acidentes, etc.), entre 1991 e 1995, de 90 111 mães solteiras, comparando-as com 622 368 mães que conviviam com o seu marido. As mulheres tinham entre os 29 e os 54 anos, e as idades dos filhos oscilavam entre os 0 e os 15 anos. Os autores também tiveram em conta variáveis como o estatuto socio-económico, o apoio social, o número de filhos e a história clínica prévia.
“Este risco elevado permanece significativamente alto, inclusivamente depois de se ter tido em conta o nível socio-económico e o padecimento prévio de alguma doença psiquiátrica grave ou de outro tipo”. De todas as causas de mortalidade, a investigação destaca o elevado risco de morrer por suicídio, violência ou em consequência do álcool, entre as mulheres que estão sós com descendência a seu cargo. Estas mulheres também tinham muito mais probabilidade de contrair uma doença psíquica que as que viviam com o companheiro.
Crê-se que isto poderia dever-se ao stresse de que sofrem estas mulheres. As mães solteiras não só têm que fazer frente a certas desvantagens sociais e económicas (por exemplo, têm níveis de educação mais baixos e empregos pior remunerados do que quem convive com o seu cônjuge), mas também, os níveis de stresse que suportam são mais elevados por terem de enfrentar sozinhas as exigências e vicissitudes da existência.

Benefícios da Convivência
Outra investigação notável, também realizada na Suécia, estudou a demência em pessoas da terceira idade. Descobriu que o facto de se ser casado, conviver com alguém e ter inter-relações sociais satisfatórias são factores que atenuam o desenvolvimento da demência. A equipa de Laura Fratiglioni explorou um grupo de 1203 pessoas durante um espaço de três anos, focalizando-se no apoio social, se viviam sós ou acompanhadas e o grau de satisfação que experimentavam nas relações com os outros.3 Quando se compararam os indivíduos que viviam sós e não tinham amigos ou relações importantes com o grupo de casados, e os que mantinham relações sociais satisfatórias, o risco de demência entre os primeiros foi de 60% mais do que os segundos. Concluíram os investigadores: “Uma rede social extensa parece proteger contra a demência”.
No seu último livro, o escritor argentino Ernesto Sábato declara algo muito belo e certo. Refere-se aos valores da comunidade, afirmando o “gozo imenso que se sente ao partilhar o destino” com outra pessoa.4 Lamentavelmente, estas experiências gratificantes e tão saudáveis vão-se perdendo. Por esse motivo, Sábato faz um apelo para que se preservem esses valores “sagrados” da comunicação e do intercâmbio social, conservando a “mesa partilhada com pessoas de quem gostamos”, as relações com “criaturas que amparamos (...) a gratidão de um abraço”.5 Certamente que a vida em comum pode apresentar circunstâncias difíceis, situações de conflito ou discórdias graves, onde se descarreguem emoções hostis, zangas, ressentimentos ou ódios; mas, apesar de todas essas vicissitudes desagradáveis, está demonstrado que a convivência faz bem à saúde e melhora o bem-estar. É evidente que, como diz a Bíblia, o homem não foi feito para viver só. Necessita de companhia e, melhor ainda, de uma companhia que proporcione bons momentos, alegria e felicidade.
Não obstante tudo isso, as disputas e relações problemáticas podem deixar algo de bom se as tomarmos como aprendizagem da arte da convivência, como meio para descobrir estratégias de cooperação, de negociação e de reconciliação. É um meio de cultivar a tolerância e o respeito para com aquelas pessoas cujas ideias ou costumes desaprovamos. Embora as diferenças nos desagradem, a tolerância deve prevalecer.
 

Na realidade, todos necessitamos de descobrir a importância de partilhar; encontrar afinidades secretas com os outros, ler no rosto alheio as mensagens do diálogo, que nos predispõem ao amor e enchem o coração de gratidão.


Como Sobrepor-se à Solidão?
Paul Simon escreveu uma poesia muito sugestiva, de alguém entrincheirado na solidão e na insensibilidade. Diz assim: “Construí muros: / uma fortaleza profunda e poderosa / Que ninguém pode penetrar. / Não necessito da amizade – a amizade pena –. / O teu riso e o teu amor, eu os desdenho. / Sou uma rocha... sou uma ilha. / Não fales de amor. / Já ouvi a palavra antes. / Está dormindo na minha memória. / Não perturbarei o sono com os sentimentos que morreram; / se nunca tivesse amado, nunca teria chorado. / Sou uma rocha... sou uma ilha. / Tenho os meus livros. / E a minha poesia para me protegerem. / Estou escudado na minha armadura. / Escondido no meu quarto, a salvo dentro do meu ventre. / Não toco ninguém e ninguém me toca. / Sou uma rocha./ Sou uma ilha. / E uma rocha não sente dor. / E uma ilha nunca chora...”
Como pode o protagonista da poesia sobrepor-se à solidão? Parece uma pessoa desgostosa, que sofreu uma decepção amorosa muito grande e que agora já não acredita em ninguém. Optou pelo isolamento e a indiferença para não se expor nunca mais a outra experiência dolorosa. Dessa forma, muitos enclausuram a sua vida social por causa do ressentimento por mágoas sofridas. É a melhor medida? É essa a solução mais adequada? Claro que não. Ficar preso ao rancor é continuar a sofrer e a reviver sem tréguas o agravo experimentado. Não se está ‘protegido’ nem ‘escudado’ na solidão; pelo contrário. Está-se mais exposto. A forma de superar a amargura de uma relação quebrada é encontrar outra satisfatória que recupere o “gozo de partilhar o seu destino”.
É, pois, necessário “sobrepor-se à solidão cada dia na nossa vida”, como aconselham os psiquiatras do Hospital McLean de Belmont, Estados Unidos. Há casos graves de pessoas que estão tão perturbadas – ou carecem de recursos para a comunicação e os encontros sociais – que necessitam urgentemente de ajuda de um especialista. Da mesma maneira que adoece o corpo e a mente, também adoecem as relações, precisando de assistência. Há tratamentos específicos para ajudar a recuperar a auto-estima, as emoções destroçadas e também aprender novas capacidades sociais.
Na realidade, todos necessitamos de descobrir a importância de partilhar; encontrar afinidades secretas com os outros, ler no rosto alheio as mensagens do diálogo, que nos predispõem ao amor e enchem o coração de gratidão. Necessitamos de desfrutar juntos, como casal, com os filhos, parentes e amigos. É necessário aprender a entrega sem limites, a divertirmo-nos juntos, com sentido de humor jovial; a experimentar o regozijo e deleite em companhia. Em definitivo, a desenvolver a difícil mas a mais satisfatória de todas as artes, a arte da convivência. S&L

REFERÊNCIAS
1. P. Matley, “La Soledad mata”, El Mundo, Madrid, 5 Setembro de 1996
2. G. Ringbäck Weitoft, B. Haglund e M. Rosén M. “Mortality among lone mothers in Sweden: a population study”, The Lancet, vol. 355, No. 9211, 8 abril, 2000, pp 1215-19.
3. L. Fratiglioni, H. Wang, K. Ericsson, M. Maytan e B. Winbland, “Influence of social network on occurence of dementia: a comunity-based longitudinal study”, The Lancet, vol. 355, No. 9212, pp 1315-1319.
4. E. Sábato, La resistencia. Buenos Aires: Seix Barral, 2000, p 111.
5. Idem, p. 130

 

Norberto Pescarmona
Sociólogo

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