A
solidão mata: a convivência
cura
Os males da solidão
O facto de se viver só não quer necessariamente dizer que se sofra das
calamidades da solidão, mas é um factor de risco importante. A sociedade está a
experimentar um processo de atomização ou desintegração que, além de diminuir o
nível de convivência no lar, debilita os laços comunitários, as inter-relações e
as diferentes modalidades de partilhar experiências, favorecendo as transacções
mecânicas, anónimas ou com aparelhos como a televisão. Uma sociedade que
considera o indivíduo de maneira isolada, com níveis de relações pobres, está
com a sua saúde ameaçada. As investigações demonstram cientificamente que viver
isolado é um factor de risco elevado que predispõe à doença e à morte.
Um exemplo para ilustrar isso é o caso de Roseto. Trata-se de uma pequena vila
italiana, cujos habitantes praticamente não sofriam de enfartes, em comparação
com outras grandes populações. Os especialistas estudaram ambas as zonas, crendo
que os italianos eram portadores de genes peculiares que protegiam o seu
coração. Anos mais tarde, os investigadores deram com a chave do problema: não
eram os genes, mas sim a convivência. Os residentes de Roseto nunca se sentiam
sós, já que viviam bastante juntos e mantinham relações muito estreitas. Aquele
achado, conhecido mais tarde como “o afecto de Roseto”, é a base do livro
Sobrepor-se à Solidão Cada Dia da Nossa Vida, elaborado por uma equipa de
psiquiatras do Hospital McLean, em que se assegura que a convivência oferece uma
forte protecção contra a doença e a morte. A solidão, pelo contrário, pode
chegar a matar como o tabaco, a obesidade ou a hipertensão.1
Outro estudo extraordinário e de grande impacto – para citar mais um exemplo –
foi realizado na Suécia a mães com filhos menores de 15 anos. Descobriu-se que
as mães que viviam sós, em comparação com as que tinham cônjuge, apresentam 70%
mais de risco de falecer de maneira prematura. Esta é a conclusão assustadora a
que chegaram Gunilla Ringbäck Witoft e a sua equipa do Centro de Epidemiologia
do Laboratório Nacional de Saúde e Bem-Estar de Estocolmo.2 A investigação
analisou a mortalidade total e as causas específicas do falecimento (por
exemplo, do coração, cancro, problemas respiratórios, acidentes, etc.), entre
1991 e 1995, de 90 111 mães solteiras, comparando-as com 622 368 mães que
conviviam com o seu marido. As mulheres tinham entre os 29 e os 54 anos, e as
idades dos filhos oscilavam entre os 0 e os 15 anos. Os autores também tiveram
em conta variáveis como o estatuto socio-económico, o apoio social, o número de
filhos e a história clínica prévia.
“Este risco elevado permanece significativamente alto, inclusivamente depois de
se ter tido em conta o nível socio-económico e o padecimento prévio de alguma
doença psiquiátrica grave ou de outro tipo”. De todas as causas de mortalidade,
a investigação destaca o elevado risco de morrer por suicídio, violência ou em
consequência do álcool, entre as mulheres que estão sós com descendência a seu
cargo. Estas mulheres também tinham muito mais probabilidade de contrair uma
doença psíquica que as que viviam com o companheiro.
Crê-se que isto poderia dever-se ao stresse de que sofrem estas mulheres. As
mães solteiras não só têm que fazer frente a certas desvantagens sociais e
económicas (por exemplo, têm níveis de educação mais baixos e empregos pior
remunerados do que quem convive com o seu cônjuge), mas também, os níveis de
stresse que suportam são mais elevados por terem de enfrentar sozinhas as
exigências e vicissitudes da existência.

Benefícios da Convivência
Outra investigação notável, também realizada na Suécia, estudou a demência em
pessoas da terceira idade. Descobriu que o facto de se ser casado, conviver com
alguém e ter inter-relações sociais satisfatórias são factores que atenuam o
desenvolvimento da demência. A equipa de Laura Fratiglioni explorou um grupo de
1203 pessoas durante um espaço de três anos, focalizando-se no apoio social, se
viviam sós ou acompanhadas e o grau de satisfação que experimentavam nas
relações com os outros.3 Quando se compararam os indivíduos que viviam sós e não
tinham amigos ou relações importantes com o grupo de casados, e os que mantinham
relações sociais satisfatórias, o risco de demência entre os primeiros foi de
60% mais do que os segundos. Concluíram os investigadores: “Uma rede social
extensa parece proteger contra a demência”.
No seu último livro, o escritor argentino Ernesto Sábato declara algo muito belo
e certo. Refere-se aos valores da comunidade, afirmando o “gozo imenso que se
sente ao partilhar o destino” com outra pessoa.4 Lamentavelmente, estas
experiências gratificantes e tão saudáveis vão-se perdendo. Por esse motivo,
Sábato faz um apelo para que se preservem esses valores “sagrados” da
comunicação e do intercâmbio social, conservando a “mesa partilhada com pessoas
de quem gostamos”, as relações com “criaturas que amparamos (...) a gratidão de
um abraço”.5 Certamente que a vida em comum pode apresentar circunstâncias
difíceis, situações de conflito ou discórdias graves, onde se descarreguem
emoções hostis, zangas, ressentimentos ou ódios; mas, apesar de todas essas
vicissitudes desagradáveis, está demonstrado que a convivência faz bem à saúde e
melhora o bem-estar. É evidente que, como diz a Bíblia, o homem não foi feito
para viver só. Necessita de companhia e, melhor ainda, de uma companhia que
proporcione bons momentos, alegria e felicidade.
Não obstante tudo isso, as disputas e relações problemáticas podem deixar algo
de bom se as tomarmos como aprendizagem da arte da convivência, como meio para
descobrir estratégias de cooperação, de negociação e de reconciliação. É um meio
de cultivar a tolerância e o respeito para com aquelas pessoas cujas ideias ou
costumes desaprovamos. Embora as diferenças nos desagradem, a tolerância deve
prevalecer.
| Na realidade, todos necessitamos de descobrir a importância de partilhar; encontrar afinidades secretas com os outros, ler no rosto alheio as mensagens do diálogo, que nos predispõem ao amor e enchem o coração de gratidão. |
Como Sobrepor-se à Solidão?
Paul Simon escreveu uma poesia muito sugestiva, de alguém entrincheirado na
solidão e na insensibilidade. Diz assim: “Construí muros: / uma fortaleza
profunda e poderosa / Que ninguém pode penetrar. / Não necessito da amizade – a
amizade pena –. / O teu riso e o teu amor, eu os desdenho. / Sou uma rocha...
sou uma ilha. / Não fales de amor. / Já ouvi a palavra antes. / Está dormindo na
minha memória. / Não perturbarei o sono com os sentimentos que morreram; / se
nunca tivesse amado, nunca teria chorado. / Sou uma rocha... sou uma ilha. /
Tenho os meus livros. / E a minha poesia para me protegerem. / Estou escudado na
minha armadura. / Escondido no meu quarto, a salvo dentro do meu ventre. / Não
toco ninguém e ninguém me toca. / Sou uma rocha./ Sou uma ilha. / E uma rocha
não sente dor. / E uma ilha nunca chora...”
Como pode o protagonista da poesia sobrepor-se à solidão? Parece uma pessoa
desgostosa, que sofreu uma decepção amorosa muito grande e que agora já não
acredita em ninguém. Optou pelo isolamento e a indiferença para não se expor
nunca mais a outra experiência dolorosa. Dessa forma, muitos enclausuram a sua
vida social por causa do ressentimento por mágoas sofridas. É a melhor medida? É
essa a solução mais adequada? Claro que não. Ficar preso ao rancor é continuar a
sofrer e a reviver sem tréguas o agravo experimentado. Não se está ‘protegido’
nem ‘escudado’ na solidão; pelo contrário. Está-se mais exposto. A forma de
superar a amargura de uma relação quebrada é encontrar outra satisfatória que
recupere o “gozo de partilhar o seu destino”.
É, pois, necessário “sobrepor-se à solidão cada dia na nossa vida”, como
aconselham os psiquiatras do Hospital McLean de Belmont, Estados Unidos. Há
casos graves de pessoas que estão tão perturbadas – ou carecem de recursos para
a comunicação e os encontros sociais – que necessitam urgentemente de ajuda de
um especialista. Da mesma maneira que adoece o corpo e a mente, também adoecem
as relações, precisando de assistência. Há tratamentos específicos para ajudar a
recuperar a auto-estima, as emoções destroçadas e também aprender novas
capacidades sociais.
Na realidade, todos necessitamos de descobrir a importância de partilhar;
encontrar afinidades secretas com os outros, ler no rosto alheio as mensagens do
diálogo, que nos predispõem ao amor e enchem o coração de gratidão. Necessitamos
de desfrutar juntos, como casal, com os filhos, parentes e amigos. É necessário
aprender a entrega sem limites, a divertirmo-nos juntos, com sentido de humor
jovial; a experimentar o regozijo e deleite em companhia. Em definitivo, a
desenvolver a difícil mas a mais satisfatória de todas as artes, a arte da
convivência. S&L
REFERÊNCIAS
1. P. Matley, “La Soledad mata”, El Mundo, Madrid, 5 Setembro de 1996
2. G. Ringbäck Weitoft, B. Haglund e M. Rosén M. “Mortality among lone mothers
in Sweden: a population study”, The Lancet, vol. 355, No. 9211, 8 abril, 2000,
pp 1215-19.
3. L. Fratiglioni, H. Wang, K. Ericsson, M. Maytan e B. Winbland, “Influence of
social network on occurence of dementia: a comunity-based longitudinal study”,
The Lancet, vol. 355, No. 9212, pp 1315-1319.
4. E. Sábato, La resistencia. Buenos Aires: Seix Barral, 2000, p 111.
5. Idem, p. 130
Norberto Pescarmona
Sociólogo