Vida Familiar / Março 2004

Como vimos no mês passado, se queremos combater a toxicodependência, um trabalho de fundo deve também ser feito a nível das famílias deste país na correcta gestão dos seus conflitos. Se por um lado é verdade que não existem famílias sem conflitos, o modo como são geridos esses conflitos ensina aos nossos filhos que em vez da demissão e da sua auto-destruição, através da toxicodependência, por exemplo, existe uma maneira de viver que enobrece e gratifica. Depois de termos considerado a caracterização do tipo de conflito (para melhor o poder gerir), este mês continuamos esta abordagem olhando para uma questão fundamental:

 

Identificação da dimensão da vida familiar na qual ocorre o conflito.

Como vimos no mês passado, se queremos combater a toxicodependência, um trabalho de fundo deve também ser feito a nível das famílias deste país na correcta gestão dos seus conflitos. Se por um lado é verdade que não existem famílias sem conflitos, o modo como são geridos esses conflitos ensina aos nossos filhos que em vez da demissão e da sua auto-destruição, através da toxicodependência, por exemplo, existe uma maneira de viver que enobrece e gratifica. Depois de termos considerado a caracterização do tipo de conflito (para melhor o poder gerir), este mês continuamos esta abordagem olhando para uma questão fundamental:

Além de ser importante saber em que fase se encontra determinado conflito, é fundamental perceber em que dimensão da vida familiar ele ocorre. O conceito de saúde familiar apresentado anteriormente identificou quatro dimensões através das quais ela se realiza (física, espiritual, psicológica e social). A ideia fundamental subjacente é a salutogénese que resume a busca dos factores básicos da saúde e felicidade familiares (no lugar de concentrar a atenção na doença, no conflito). Por outras palavras, antes de constatar o pathos (de patológico, o conflito) e estar doente, posso prevenir a doença e melhorar a minha funcionalidade, o meu bem-estar familiar. Quando se instala o conflito entre duas pessoas, um dos aspectos mais preocupantes que se declara é o facto de que certas áreas da vida familiar deixam de funcionar (as relações humanas, a vida sexual, os momentos de lazer em família, etc.).
 

Figura : A Saúde familiar como um espaço de convergência de várias dimensões num contínuo disfuncionalidade (conflito) funcionalidade máxima (comunalidade total). Fonte: Adaptado, Luís S. Nunes, Compreender o Cidadão, Revista Portuguesa de Saúde Pública, vol 16, Nº 4 1998, 4, 25

Regra Nº 3 da resolução de conflitos: não deixes que se ponha o Sol sobre o conflito. Não prolongues por mais do que um dia a ruptura disfuncional de qualquer uma destas áreas de comunalidade, pois isso leva a família para uma crise que o tempo deteriora rapidamente, afectando as outras dimensões. Quebrar esse ciclo pode ser feito com sucesso recordando, por exemplo, os bons momentos do passado da história de vida do casal. Este género de âncoras permitem ao casal não deixar que vá à deriva, numa teia confusa de sentimentos e palavras, a vida familiar numa tempestade destrutiva.
Este modelo para a resolução de conflitos – o modelo salutogénico – baseia-se na busca dos recursos que beneficiam a saúde, fortalecem e permitem ao casal, em cada etapa da sua vida, desenvolver um máximo de satisfação matrimonial. Também coloca em evidência as predisposições dos membros do casal (tais como factores hereditários, sociais, etc.) que, associadas aos recursos gerais de resistência ao conflito familiar (recursos físicos, psicológicos, sociais e espirituais) são responsáveis pela regulação face às perturbações que podem levar os membros de um casal à situação de crise familiar.
Assim, os conflitos podem desenvolver-se em cada uma das quatro áreas mencionadas.

Conflitos de ordem física
Os conflitos físicos podem ser de variada ordem: sexual, simbólica, desempenho, etc.
Para resolver os conflitos de ordem física, devem ter-se em conta recursos físicos. Considere-se como exemplos a actividade física ou uma boa alimentação. Se se desenvolverem estes recursos, tonifica-se o corpo e a doença (o conflito) pode ser evitado. Mas mesmo que se venha a ser vítima da doença, um corpo fortificado com exercício e bem alimentado estará mais apto a combatê-la com sucesso.

Interagindo:
Um conflito latente de ordem física envolvendo o simbólico (a ideia de beleza e do corpo).
A Alexandra e o António2 casaram por amor e tinham as suas coisas comuns: por exemplo, ambos gostavam de doces. Assim a Alexandra tinha por hábito fazer uns bolos maravilhosos que o António se deliciava a comer com a Alexandra quando chegava a casa, depois do trabalho. Num serão eles comiam facilmente um bolo inteiro. Alguns meses depois do seu casamento, começou a surgir desentendimento neste casal, enquanto vários quilos eram acrescentados aos corpos. Ao fim de poucos anos o casal, agora com filhos, queria divorciar-se. Os conflitos emergiram e a Alexandra sentia-se muito infeliz. O António passou a distanciar-se fisicamente do lar cada vez mais e, por último, nem as férias ou refeições já fazia em casa.

Discute com o teu companheiro/a que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real.

Comentário final: foi aconselhado à Alexandra que não fizesse mais bolos e diminuísse o consumo de açúcar, pois este é um elemento perturbador do humor e metabolismo. A Alexandra perdeu mais de 20 quilos e o António fez este ano alguns dias de férias com ela. O recurso “físico” da alimentação era uma das chaves para a resolução dos conflitos neste casal.


Interagindo:
Em casa da Elisabete2, os filhos nunca comiam sem que houvesse violência física. O marido, o Júlio, também achava que eles se portavam mal e batia-lhes. Este casal tinha formação académica superior, boas profissões, casa própria e uma vida desafogada. Mas a vida familiar estava envenenada e em casa era o inferno constante. A Elizabete queria o divórcio pois achava que não havia mais nada a fazer

Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?

Comentário final: foi aconselhado à Elizabete que deixasse de bater nos filhos e interrompesse assim o ciclo da violência física que se tinha instalado. Os filhos, que já eram crescidos, tinham sido habituados a obedecer à força da violência física. Recuperar esta situação era agora muito mais difícil do que se a Elizabete e o Júlio tivessem educado os seus filhos com firmeza e amor, sem violência. Mas ainda era possível inverter a queda no abismo para onde tinha mergulhado aquela família.

Discute a comunalidade da não violência física, espiritual, psicológica ou social no teu casamento: é este um valor comum e fortemente implantado em ambos ou é o uso da violência como um recurso, tolerado. Se sim, em que circunstâncias, e com que riscos e prejuízos? Se não, o que deve ser feito para que ela não aconteça?

Conflitos de ordem psicológica

Os conflitos de ordem psicológica interagem com a estrutura mental que cada membro do casal desenvolve. Para resolver estes conflitos são necessários recursos psicológicos, pois serão os elementos que podem fortalecer a psique familiar, isto é, que estruturam o casal como unidade, de um valor inigualável. Podemos apresentar vários exemplos que intervêm na saúde psicológica familiar, tais como a auto-estima, o auto conceito, o optimismo, etc. Estes recursos podem ser desenvolvidos de modo a aumentar a funcionalidade e vitalidade da vida familiar. Uma pessoa que desenvolva uma visão optimista da vida manifestará uma energia contagiante afastando o pathos, “o conflito”, da sua vida. Há vários milhares de anos, o sábio Salomão equacionava este princípio salutogénico num dos seus memoráveis provérbios: saúde para os ossos é o coração alegre! Provérbios 17:22. O caso dos temperamentos é disto mesmo um exemplo, como seguidamente iremos considerar.


Interagindo:
A Luísa e o Joaquim2 estavam casados há três anos. Mas alguma coisa provocava tristeza e ressentimento na Luísa. Isto estava a afectar as relações do casal mas, aparentemente, nenhuma das partes tinha uma queixa concreta a apresentar. Com o passar do tempo, a Luísa começou a desleixar-se, não se arranjando, como era seu hábito. O Joaquim começou a criticá-la por se sentir com vergonha da Luísa quando estavam com amigos.

Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?

Comentário final: Um dia o Joaquim leu que a afirmação do amor pela companheira deve ser um acto constante, pois isso reforça a sua auto-estima. Decidiu nesse dia – sem nenhuma razão aparente – trazer à Luísa um ramo de flores com um postal onde tinha escrito: Amo-te como no primeiro dia! A reacção que aquele gesto teve na Luísa foi inesperado: “Afinal,” disse ela, “tu ainda gostas de mim.” A Luísa voltou a arranjar-se e a saúde da vida familiar voltava a ser recuperada.

Conflitos de ordem social
Na vida de um casal surgem, amiúde, conflitos de ordem social. As relações com os amigos que o casal tinha antes de se unir, as relações com os sogros/pais, as relações e compromissos laborais, podem ser fontes imprevisíveis de perturbações profundas na vida do casal. Por isso, o terceiro tipo de recursos que estão ao nosso dispor e que implicam na manutenção ou melhoramento da saúde familiar são os factores sociais – fundamentais para se ter uma vida de qualidade. O seu desenvolvimento depende de boas amizades, boas relações com colegas e responsáveis no trabalho, a frequência de um clube ou pertença a uma organização (por exemplo, de apoio voluntário num hospital) são promotores de saúde e são factores salutogénicos de insuspeitável benefício. Um dos problemas que implica tanta falta de saúde – o isolamento – muitas vezes tem a sua origem no egoísmo e individualismo da sociedade actual, marcada pela ambição, espezinhamento dos seus pares e de competição desenfreada. Aqui se potencia muito sofrimento e muita falta de saúde familiar evitáveis.

Interagindo:
A Dora e o João2 estavam casados há vinte e cinco anos. Desde o nascimento do seu filho que o casal tinha um conflito latente: A Dora achava que o filho tinha medo de dormir sozinho e habituou o filho a dormir entre o casal, na sua própria cama. Os anos foram passando e agora havia um problema: com o crescimento do filho, o espaço na cama familiar foi-se estreitando e desde há alguns anos que o pai dormia na sala.
O João não aguentava mais. Ele gostava do seu filho, mas achava que aquele comportamento maternal e altamente protector deveria acabar. Mas como fazê-lo?

Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?

Comentário final: qualquer criança deveria ser habituada a dormir no seu quarto. Permanecer algum tempo ao lado da criança no seu quarto pode ser útil, mas não uma situação permanente. Esta complicada situação social de conflito de papéis sociais tinha colocado aquele casal num conflito permanente.

Conflitos de ordem espiritual
Muitos casais vivem vidas de grande insatisfação devido a uma conflitualidade espiritual manifesta. Os conflitos espirituais são aqueles que mais sangue fizeram correr ao longo da História. Hoje, eles assumem um contorno diferente na alegada sociedade pós-moderna de respeito por todos os valores e posicionamentos espirituais. Só que esta não é toda a verdade. Por isso, uma quarta categoria do modelo salutogénico são os recursos espirituais que podem auxiliar na resolução de conflitos. Negar estes valores espirituais, não resolver as grandes questões da vida, deixar de estruturar a existência em função de um código de valores, trará conflito e infelicidade.
Compreender a saúde familiar, nesta dinâmica, não só garantirá uma vida de maior e melhor qualidade, como ainda uma saúde menos afectada pelo pathos. É, por isso, essencial que o casal defina claramente, antes de casar, qual é a sua comunalidade no âmbito espiritual.

Interagindo:

Uma pessoa que desenvolva uma visão optimista da vida manifestará uma energia contagiante afastando o pathos, “o conflito”, da sua vida.  


Ela era de um país do hemisfério norte; ele do hemisfério sul! Tinham-se encontrado numa viagem e gostaram um do outro ao ponto de ela decidir ir viver com ele para o seu país natal. Embora as diferenças entre ambos fossem muito grandes, um amor construído na base dessas diferenças nos primeiros anos ajudou-os a ultrapassarem-nas. Nasceu então a sua primeira filha. Foi a alegria do casal, que viu nela a concretização da sua decisão. No entanto, e à medida que os anos passavam, era cada vez mais explícita a influência da família dele sobre a maneira como a vida familiar deveria ser desenvolvida. Com a chegada da adolescência da filha, a conflitualidade entre o casal atingiu o seu clímax; uma das áreas da vida do casal (a área espiritual) era responsável por essa situação: para o pai, a menina deveria ser submetida ao ancestral ritual da excisão do clítoris. Para a mãe, esse valor espiritual, que estava na base de um importante ritual cultural, não passava de uma atroz mutilação, sem nenhum valor para o desenvolvimento harmonioso da sua filha. A intervenção da sogra, do curandeiro da tribo, das anciãs, toda a pressão exercida sobre o casal, levaram a mãe a uma atitude desesperada: pegando na sua filha, sem dizer nada a ninguém, fugiu com ela para o seu país de origem, na Escandinávia. Neste caso, foi um valor espiritual que esteve na origem de um final infeliz para a continuação daquela união. Provavelmente, se o pai tivesse considerado e respeitado os valores espirituais da sua mulher, aquela situação nunca teria acontecido, e poderiam continuar a ser uma família. Hoje em dia, muitos dos mais graves conflitos no casal têm origem nas diferenças que se produzem a nível dos valores e vivência desses valores por cada um. Por vezes, esta conflitualidade tem os filhos como factor explosivo, pois cada um dos pais quer o melhor para o seu filho, acreditando que o seu código de valores é superior a qualquer outro. Torna-se, por isso, crucial estudar e analisar, antes de duas pessoas partirem para a aventura conjugal, qual é a comunalidade do casal na área espiritual.

O desenvolvimento da autonomia
O desenvolvimento da autonomia, da capacidade para pensar por si, uma vontade que não se deixa influenciar por qualquer amigo que ofereça o primeiro cigarro, a primeira bebida, o primeiro charro..., só se consegue com uma personalidade forte, que se desenvolveu de um modo equilibrado, nas quatro dimensões referidas: física, social, psicológica e espiritual. Uma lacuna no desenvolvimento de qualquer uma destas dimensões será o ponto fraco de uma muralha que cada ser humano tem de saber construir ao seu redor para viver a sua vida de modo saudável. S&L

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(1) continuação do número anterior
(2) os nomes são fictícios, mas as situações descritas são verdadeiras

Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da Saúde, Mestre em Saúde Pública

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