Como vimos no mês passado, se queremos combater a toxicodependência, um
trabalho de fundo deve também ser feito a nível das famílias deste país na
correcta gestão dos seus conflitos. Se por um lado é verdade que não existem
famílias sem conflitos, o modo como são geridos esses conflitos ensina aos
nossos filhos que em vez da demissão e da sua auto-destruição, através da
toxicodependência, por exemplo, existe uma maneira de viver que enobrece e
gratifica. Depois de termos considerado a caracterização do tipo de conflito
(para melhor o poder gerir), este mês continuamos esta abordagem olhando para
uma questão fundamental:
Identificação da dimensão da vida familiar na qual ocorre o conflito.
| Como vimos no mês passado, se queremos combater a toxicodependência, um trabalho de fundo deve também ser feito a nível das famílias deste país na correcta gestão dos seus conflitos. Se por um lado é verdade que não existem famílias sem conflitos, o modo como são geridos esses conflitos ensina aos nossos filhos que em vez da demissão e da sua auto-destruição, através da toxicodependência, por exemplo, existe uma maneira de viver que enobrece e gratifica. Depois de termos considerado a caracterização do tipo de conflito (para melhor o poder gerir), este mês continuamos esta abordagem olhando para uma questão fundamental: |
Além de ser importante saber em que fase se encontra determinado conflito, é
fundamental perceber em que dimensão da vida familiar ele ocorre. O conceito de
saúde familiar apresentado anteriormente identificou quatro dimensões através
das quais ela se realiza (física, espiritual, psicológica e social). A ideia
fundamental subjacente é a salutogénese que resume a busca dos factores básicos
da saúde e felicidade familiares (no lugar de concentrar a atenção na doença, no
conflito). Por outras palavras, antes de constatar o pathos (de patológico, o
conflito) e estar doente, posso prevenir a doença e melhorar a minha
funcionalidade, o meu bem-estar familiar. Quando se instala o conflito entre
duas pessoas, um dos aspectos mais preocupantes que se declara é o facto de que
certas áreas da vida familiar deixam de funcionar (as relações humanas, a vida
sexual, os momentos de lazer em família, etc.).
|
|
|
Figura : A Saúde familiar como um espaço de convergência de várias dimensões num contínuo disfuncionalidade (conflito) funcionalidade máxima (comunalidade total). Fonte: Adaptado, Luís S. Nunes, Compreender o Cidadão, Revista Portuguesa de Saúde Pública, vol 16, Nº 4 1998, 4, 25 |
Regra Nº 3
da resolução de conflitos: não deixes que se ponha o Sol sobre o
conflito. Não prolongues por mais do que um dia a ruptura disfuncional de
qualquer uma destas áreas de comunalidade, pois isso leva a família para uma
crise que o tempo deteriora rapidamente, afectando as outras dimensões. Quebrar
esse ciclo pode ser feito com sucesso recordando, por exemplo, os bons momentos
do passado da história de vida do casal. Este género de âncoras permitem ao
casal não deixar que vá à deriva, numa teia confusa de sentimentos e palavras, a
vida familiar numa tempestade destrutiva.
Este modelo para a resolução de conflitos – o modelo salutogénico – baseia-se na
busca dos recursos que beneficiam a saúde, fortalecem e permitem ao casal, em
cada etapa da sua vida, desenvolver um máximo de satisfação matrimonial. Também
coloca em evidência as predisposições dos membros do casal (tais como factores
hereditários, sociais, etc.) que, associadas aos recursos gerais de resistência
ao conflito familiar (recursos físicos, psicológicos, sociais e espirituais) são
responsáveis pela regulação face às perturbações que podem levar os membros de
um casal à situação de crise familiar.
Assim, os conflitos podem desenvolver-se em cada uma das quatro áreas
mencionadas.
Conflitos de ordem física
Os conflitos físicos podem ser de variada ordem: sexual, simbólica, desempenho,
etc.
Para resolver os conflitos de ordem física, devem ter-se em conta recursos
físicos. Considere-se como exemplos a actividade física ou uma boa alimentação.
Se se desenvolverem estes recursos, tonifica-se o corpo e a doença (o conflito)
pode ser evitado. Mas mesmo que se venha a ser vítima da doença, um corpo
fortificado com exercício e bem alimentado estará mais apto a combatê-la com
sucesso.
Interagindo:
Um conflito latente de ordem física envolvendo o simbólico (a ideia de beleza e
do corpo).
A Alexandra e o António2 casaram por amor e tinham as suas coisas comuns: por
exemplo, ambos gostavam de doces. Assim a Alexandra tinha por hábito fazer uns
bolos maravilhosos que o António se deliciava a comer com a Alexandra quando
chegava a casa, depois do trabalho. Num serão eles comiam facilmente um bolo
inteiro. Alguns meses depois do seu casamento, começou a surgir desentendimento
neste casal, enquanto vários quilos eram acrescentados aos corpos. Ao fim de
poucos anos o casal, agora com filhos, queria divorciar-se. Os conflitos
emergiram e a Alexandra sentia-se muito infeliz. O António passou a
distanciar-se fisicamente do lar cada vez mais e, por último, nem as férias ou
refeições já fazia em casa.
Discute com o teu companheiro/a que soluções poderiam ser equacionadas neste
caso real.
Comentário final: foi aconselhado à Alexandra que não fizesse mais bolos e
diminuísse o consumo de açúcar, pois este é um elemento perturbador do humor e
metabolismo. A Alexandra perdeu mais de 20 quilos e o António fez este ano
alguns dias de férias com ela. O recurso “físico” da alimentação era uma das
chaves para a resolução dos conflitos neste casal.
Interagindo:
Em casa da Elisabete2, os filhos nunca comiam sem que houvesse violência física.
O marido, o Júlio, também achava que eles se portavam mal e batia-lhes. Este
casal tinha formação académica superior, boas profissões, casa própria e uma
vida desafogada. Mas a vida familiar estava envenenada e em casa era o inferno
constante. A Elizabete queria o divórcio pois achava que não havia mais nada a
fazer
Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?
Comentário final: foi aconselhado à Elizabete que deixasse de bater nos filhos e
interrompesse assim o ciclo da violência física que se tinha instalado. Os
filhos, que já eram crescidos, tinham sido habituados a obedecer à força da
violência física. Recuperar esta situação era agora muito mais difícil do que se
a Elizabete e o Júlio tivessem educado os seus filhos com firmeza e amor, sem
violência. Mas ainda era possível inverter a queda no abismo para onde tinha
mergulhado aquela família.
Discute a comunalidade da não violência física, espiritual, psicológica ou
social no teu casamento: é este um valor comum e fortemente implantado em ambos
ou é o uso da violência como um recurso, tolerado. Se sim, em que
circunstâncias, e com que riscos e prejuízos? Se não, o que deve ser feito para
que ela não aconteça?
Conflitos de ordem psicológica
Os conflitos de ordem psicológica interagem com a estrutura mental que cada
membro do casal desenvolve. Para resolver estes conflitos são necessários
recursos psicológicos, pois serão os elementos que podem fortalecer a psique
familiar, isto é, que estruturam o casal como unidade, de um valor inigualável.
Podemos apresentar vários exemplos que intervêm na saúde psicológica familiar,
tais como a auto-estima, o auto conceito, o optimismo, etc. Estes recursos podem
ser desenvolvidos de modo a aumentar a funcionalidade e vitalidade da vida
familiar. Uma pessoa que desenvolva uma visão optimista da vida manifestará uma
energia contagiante afastando o pathos, “o conflito”, da sua vida. Há vários
milhares de anos, o sábio Salomão equacionava este princípio salutogénico num
dos seus memoráveis provérbios: saúde para os ossos é o coração alegre!
Provérbios 17:22. O caso dos temperamentos é disto mesmo um exemplo, como
seguidamente iremos considerar.
Interagindo:
A Luísa e o Joaquim2 estavam casados há três anos. Mas alguma coisa provocava
tristeza e ressentimento na Luísa. Isto estava a afectar as relações do casal
mas, aparentemente, nenhuma das partes tinha uma queixa concreta a apresentar.
Com o passar do tempo, a Luísa começou a desleixar-se, não se arranjando, como
era seu hábito. O Joaquim começou a criticá-la por se sentir com vergonha da
Luísa quando estavam com amigos.
Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?
Comentário final: Um dia o Joaquim leu que a afirmação do amor pela companheira
deve ser um acto constante, pois isso reforça a sua auto-estima. Decidiu nesse
dia – sem nenhuma razão aparente – trazer à Luísa um ramo de flores com um
postal onde tinha escrito: Amo-te como no primeiro dia! A reacção que aquele
gesto teve na Luísa foi inesperado: “Afinal,” disse ela, “tu ainda gostas de
mim.” A Luísa voltou a arranjar-se e a saúde da vida familiar voltava a ser
recuperada.
Conflitos de ordem social
Na vida de um casal surgem, amiúde, conflitos de ordem social. As relações com
os amigos que o casal tinha antes de se unir, as relações com os sogros/pais, as
relações e compromissos laborais, podem ser fontes imprevisíveis de perturbações
profundas na vida do casal. Por isso, o terceiro tipo de recursos que estão ao
nosso dispor e que implicam na manutenção ou melhoramento da saúde familiar são
os factores sociais – fundamentais para se ter uma vida de qualidade. O seu
desenvolvimento depende de boas amizades, boas relações com colegas e
responsáveis no trabalho, a frequência de um clube ou pertença a uma organização
(por exemplo, de apoio voluntário num hospital) são promotores de saúde e são
factores salutogénicos de insuspeitável benefício. Um dos problemas que implica
tanta falta de saúde – o isolamento – muitas vezes tem a sua origem no egoísmo e
individualismo da sociedade actual, marcada pela ambição, espezinhamento dos
seus pares e de competição desenfreada. Aqui se potencia muito sofrimento e
muita falta de saúde familiar evitáveis.
Interagindo:
A Dora e o João2 estavam casados há vinte e cinco anos. Desde o nascimento do
seu filho que o casal tinha um conflito latente: A Dora achava que o filho tinha
medo de dormir sozinho e habituou o filho a dormir entre o casal, na sua própria
cama. Os anos foram passando e agora havia um problema: com o crescimento do
filho, o espaço na cama familiar foi-se estreitando e desde há alguns anos que o
pai dormia na sala.
O João não aguentava mais. Ele gostava do seu filho, mas achava que aquele
comportamento maternal e altamente protector deveria acabar. Mas como fazê-lo?
Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real?
Comentário final: qualquer criança deveria ser habituada a dormir no seu quarto.
Permanecer algum tempo ao lado da criança no seu quarto pode ser útil, mas não
uma situação permanente. Esta complicada situação social de conflito de papéis
sociais tinha colocado aquele casal num conflito permanente.
Conflitos de ordem espiritual
Muitos casais vivem vidas de grande insatisfação devido a uma conflitualidade
espiritual manifesta. Os conflitos espirituais são aqueles que mais sangue
fizeram correr ao longo da História. Hoje, eles assumem um contorno diferente na
alegada sociedade pós-moderna de respeito por todos os valores e posicionamentos
espirituais. Só que esta não é toda a verdade. Por isso, uma quarta categoria do
modelo salutogénico são os recursos espirituais que podem auxiliar na resolução
de conflitos. Negar estes valores espirituais, não resolver as grandes questões
da vida, deixar de estruturar a existência em função de um código de valores,
trará conflito e infelicidade.
Compreender a saúde familiar, nesta dinâmica, não só garantirá uma vida de maior
e melhor qualidade, como ainda uma saúde menos afectada pelo pathos. É, por
isso, essencial que o casal defina claramente, antes de casar, qual é a sua
comunalidade no âmbito espiritual.
Interagindo:
| Uma pessoa que desenvolva uma visão optimista da vida manifestará uma energia contagiante afastando o pathos, “o conflito”, da sua vida. |
Ela era de um país do hemisfério norte; ele do hemisfério sul! Tinham-se
encontrado numa viagem e gostaram um do outro ao ponto de ela decidir ir viver
com ele para o seu país natal. Embora as diferenças entre ambos fossem muito
grandes, um amor construído na base dessas diferenças nos primeiros anos
ajudou-os a ultrapassarem-nas. Nasceu então a sua primeira filha. Foi a alegria
do casal, que viu nela a concretização da sua decisão. No entanto, e à medida
que os anos passavam, era cada vez mais explícita a influência da família dele
sobre a maneira como a vida familiar deveria ser desenvolvida. Com a chegada da
adolescência da filha, a conflitualidade entre o casal atingiu o seu clímax; uma
das áreas da vida do casal (a área espiritual) era responsável por essa
situação: para o pai, a menina deveria ser submetida ao ancestral ritual da
excisão do clítoris. Para a mãe, esse valor espiritual, que estava na base de um
importante ritual cultural, não passava de uma atroz mutilação, sem nenhum valor
para o desenvolvimento harmonioso da sua filha. A intervenção da sogra, do
curandeiro da tribo, das anciãs, toda a pressão exercida sobre o casal, levaram
a mãe a uma atitude desesperada: pegando na sua filha, sem dizer nada a ninguém,
fugiu com ela para o seu país de origem, na Escandinávia. Neste caso, foi um
valor espiritual que esteve na origem de um final infeliz para a continuação
daquela união. Provavelmente, se o pai tivesse considerado e respeitado os
valores espirituais da sua mulher, aquela situação nunca teria acontecido, e
poderiam continuar a ser uma família. Hoje em dia, muitos dos mais graves
conflitos no casal têm origem nas diferenças que se produzem a nível dos valores
e vivência desses valores por cada um. Por vezes, esta conflitualidade tem os
filhos como factor explosivo, pois cada um dos pais quer o melhor para o seu
filho, acreditando que o seu código de valores é superior a qualquer outro.
Torna-se, por isso, crucial estudar e analisar, antes de duas pessoas partirem
para a aventura conjugal, qual é a comunalidade do casal na área espiritual.
O desenvolvimento da autonomia
O desenvolvimento da autonomia, da capacidade para pensar por si, uma vontade
que não se deixa influenciar por qualquer amigo que ofereça o primeiro cigarro,
a primeira bebida, o primeiro charro..., só se consegue com uma personalidade
forte, que se desenvolveu de um modo equilibrado, nas quatro dimensões
referidas: física, social, psicológica e espiritual. Uma lacuna no
desenvolvimento de qualquer uma destas dimensões será o ponto fraco de uma
muralha que cada ser humano tem de saber construir ao seu redor para viver a sua
vida de modo saudável. S&L
-----
(1) continuação do número anterior
(2) os nomes são fictícios, mas as situações descritas são verdadeiras
Luís S. Nunes
Sociólogo da Medicina e da
Saúde, Mestre em Saúde Pública