Comportamento / Março 2004

Internet: Beneficia ou deteriora as relações sociais?

A Natureza do Vínculo Virtual
Há 15 anos, o computador era, principalmente, um equipamento de cientistas, engenheiros ou empresas importantes. Em 1993, o presidente Bill Clinton enviou a sua primeira mensagem electrónica da Casa Branca, iniciando a era da Internet. Apenas cinco anos depois, em 1998, estimava-se que 40% dos cidadãos dos Estados Unidos tinham o seu computador pessoal, grande parte dos quais navegavam na Internet. Hoje, em todos os países do mundo, o uso do computador pessoal cresce rapidamente, e milhões navegam diariamente pela Internet. Seguramente, este fenómeno constituiu a mais importante revolução das comunicações do fim do século XX, trazendo profundas repercussões em todos os aspectos da vida, especialmente na convivência e na vida social. Os especialistas investigam a natureza dessas transformações, perguntando-se se são para o bem ou para o mal. Há quem assegure que a Internet origina a solidão e prejudica as relações sociais, criando lobos isolados. Por outro lado, há quem argumente que a Internet ajuda as pessoas a integrarem-se mais e a comunicar melhor. Quem tem razão? É benéfica ou prejudicial?

 

PROPRIEDADES DAS RELAÇÕES PELA INTERNET

1. Descorporizada, sem presença física.
2. Em geral, é uma relação anónima, sem identificação
pessoal.
3. É gerida a partir da solidão do escritório, em contacto
directo com o computador.
4. Constrói um mundo virtual, que, por vezes, não tem
aplicações reais.
5. Favorece relações light ou superficiais.
 


Desde que a Internet baixou dos céus para os computadores pessoais, criou-se uma nova forma de comunicação aberta e autogerida, que impôs novos códigos interpessoais. As relações humanas no ciberespaço têm propriedades especiais. É uma relação de corpo ausente, quer dizer, descorporizada, realiza-se à distância, quer seja de forma imediata, com o chat (o diálogo escrito imediato), quer de maneira mediata, como por correio electrónico ou nas redes que distribuem listas. Não existe o olhar, o contacto físico, nem a ternura de um abraço. O outro queda-se circunscrito aos frios sinais linguísticos ou gráficos que aparecem no ecrã.
Outro risco associado é o incremento da despersonalização. Trata-se, em geral, de uma relação anónima, sem reconhecimento da identidade pessoal. No chat, por exemplo, quer seja no modo de texto tradicional via teclado, quer no sistema mais sofisticado de tipo gráfico e tridimensional onde se participa num jogo (como o alpha world), é frequente esconder-se atrás de uma “máscara” electrónica, utilizando um pseudónimo de nomes usuais, personagens famosos, animais (“Daqui fala Cão. Quem está aí?” “A gata negra”), ou o participante pode transmudar-se num ser poderoso, sendo um guerreiro, um mago ou outros seres monstruosos. Nesses “cárceres multiusuários” (multiuser dungeons) pode-se estar a interagir com milhares de pessoas de uma vez, de diferentes países, raças, culturas; contudo, desconhece-se quem são, na realidade, esses outros seres, se são mulheres ou homens, que idade têm, onde vivem e qual é a sua história pessoal.
O tecido da rede é privado, geralmente a partir da solidão e passividade de um escritório. O que se tem à frente é um ecrã, um teclado e os sinais e figuras que vão e vêm, nessa interacção enredante, mas realizada com uma máquina, não com uma pessoa. Tem-se a percepção virtual de estar com muitas pessoas, mas, na realidade, estamos sós e isolados. Há que seguir a mecânica da acção estabelecida pelas normas de funcionamento do sistema, que são diferentes das capacidades que se requerem para manter uma conversa cara a cara, com uma pessoa de corpo presente. Há quem sustente que essa experiência cibernética é um risco característico do nosso tempo, tão caótico, fragmentário e desarraigado.
Há que reconhecer que a Internet constrói uma trama de comunicação que faz e desfaz relações de sentido entre os participantes e produz inúmeros efeitos práticos em terra firme. Os ciberencontros estimulam a realização de congressos, assembleias e reuniões em lugares concretos. Como uma espécie de alquimia pós-moderna, os castelos da rede podem chegar a cristalizar-se em realidades, como disse um anúncio: “Converta negócios virtuais em notas reais”. Por um lado, incentiva novas formas de sociabilidade e, por outro, um crescimento infinito de palavras e um fluxo incomensurável de informação. Os defensores da Internet asseguram que as capacidades de comunicação que se desenvolvem navegando pelo ciberespaço contribuem para se sentirem participantes de uma comunidade e a melhorar as relações sociais. Possibilita superar as limitações geográficas, a solidão e os estigmas culturais ou de doenças, para chegar a outros seres que, de outro modo, nunca conheceriam, beneficiando com os seus conhecimentos. São estes benefícios superiores aos prejuízos? As destrezas que se adquirem com o computador podem transferir-se para a relação cara a cara? Que dizem as investigações?
 

EFEITOS SOCIAIS DA INTERNET

1. Diminui as relações e a comunicação em família.
2. Declinam tanto as relações interpessoais próximas
como as distantes.
3. Aumenta o nível de solidão.
4. Incrementa a depressão anímica.
5. Aumenta o nível de stresse, especialmente nos
adolescentes.


Os Resultados das Investigações
Um dos poucos estudos empíricos que compararam a participação social dos utilizadores e não utilizadores da Internet foi realizado por Katz e Aspden. Estes investigadores, depois de controlarem as variáveis demográficas (por exemplo, sexo, idade, educação, raça), não encontraram diferenças entre os que utilizam a Internet e os que não a utilizam no que se refere ao tempo que dedicavam a participar em organizações sociais ou na comunicação com familiares e amigos. Katz e Aspden concluem com entusiasmo, elogiando as vantagens da Internet, uma vez que “está a criar uma nação rica em amigos e em relações sociais”.1
Esse estudo e a sua prematura generalização têm sido questionados por apresentarem pontos débeis, uma vez que não se considerou a qualidade do vínculo, a frequência, a profundidade ou o impacto que têm as relações on-line em comparação com as relações tradicionais. Precisamente, outros estudos posteriores, mais precisos e completos, descobriram dados muito diferentes, que impugnam esses resultados. Um dos mais importantes foi realizado por investigadores da Universidade de Carnegie Mellon, dirigido por Robert Kraut, professor de psicologia social. Esse estudo incluiu 256 pessoas da área de Pittsburg (Pensilvânia, Estados Unidos) pertencentes a escolas e grupos comunitários, que foram investigados com medidas de envolvimento social, bem-estar psicológico (solidão, stresse e depressão) e no uso da Internet (participação em redes, número de e-mails e tempo na rede). Realizaram um seguimento de parte da amostra durante dois anos, e a outra parte durante um ano. Finalmente, os que completaram todas as provam foram 169 pessoas.2
Os resultados mostraram dados muito significativos. Com respeito às relações familiares, constatou-se que os adolescentes usam mais horas de Internet que os adultos, e o mais importante foi que ao maior tempo dedicado à Internet correspondia um maior declínio da comunicação familiar. Outro dado importante foi que, ao se aumentarem as horas de Internet, diminuíam significativamente as inter-relações sociais, tanto no círculo próximo como no distante; noutros termos, todas as relações diminuíam. No que se refere ao sentimento de bem-estar psicológico, quem informou ocupar uma hora ou mais na Internet por dia mostrou um aumento altamente significativo na escala de depressão. Por sua vez, cada hora de navegação na rede traduziu--se numa subida importante na pontuação da escala de solidão. No parâmetro do stresse, o aumento das horas de Internet provocava um pequeno aumento do stresse diário, especialmente nos adolescentes. Os investigadores concluem: “Há fortes evidências de que o uso da Internet causa um declínio na participação social e no bem-estar psicológico da amostra”. Do mesmo modo, acrescentam que, devido à quantidade reduzida de pessoas estudadas e ao facto de esta ser regional, não se poderia afirmar que os resultados são gerais a todas as populações e lugares.

O Espírito e o Computador
Os estudiosos discutem (Putnam, Kraut, etc.) quais são os mecanismos responsáveis pela diminuição das interacções sociais que a Internet produz.3 Entre as causas possíveis, duas são as mais factíveis:
Tira o lugar à actividade social. Quanto mais tempo se dedica à Internet, menos tempo real se tem para partilhar com a família e os amigos. É como ver televisão: quanto mais absorvido se está, menos se dedica ao diálogo.
Debilita os vínculos. Este é o paradoxo da Internet: uma tecnologia ao serviço do intercâmbio que, em lugar de o enriquecer, o empobrece. Na prática, a comunicação cibernética expande as relações em quantidade, mas diminui-as em qualidade.
Os “amigos” on-line não participam das peripécias e dramas da vida diária, desconhecem as experiências concretas dos seus interlocutores e família, tratam, normalmente, de questões superficiais e imediatas, transitam pelos espaços comuns, com pouca incidência na interioridade e destino pessoal. São intercâmbios que não têm uma base firme na identidade mas nas modas e no consumismo. Suplanta a autenticidade por imagens, que desembocam no isolamento e na perda de conexão com os sentidos pessoais. Desconhece a experiência genuína do verdadeiro encontro, esse “terno instante supremo”, como disse uma poetisa. Carece da procura do olhar, das bondades do amor, do abraço que provém da profundidade do espírito, da sensação de aventura e surpresa.
 

...os seres humanos necessitam de usar os seus sentidos para estabelecer uma união genuína com os outros...

TESTEMUNHO DE JOSÉ SARAMAGO,
PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA DE 1998:

Quando se encontrava, em Dezembro de 2000, na Argentina, para dar uma série de conferências, o prémio Nobel da Literatura referiu-se à Internet da seguinte maneira: “Tudo o que está na rede, já estava antes. Os computadores não comunicam nada. Eles fazem parte desta nova ordem. Estamos a assistir à dissolução do Estado: 225 empresas multinacionais têm 46% da riqueza mundial. Na minha novela A Caverna, as pessoas não têm nome, porque ao computador só interessa o número do cartão de crédito. Como nos campos de concentração: apagando o nome de uma pessoa, começa a apagar-se essa pessoa”.

Não se trata de negar a tecnologia nem de cair numa crítica generalizada absurda, mas também não se deve esquecer que os seres humanos necessitam de usar os seus sentidos para estabelecer uma união genuína com os outros, especialmente se esta for uma relação profunda e intensa. Cada encontro humano desfrutado é insondável, quando é feito de frente e sem mediadores tecnológicos. É muito diferente dos reflexos de figuras que brilham no espelho do ecrã. Exige destrezas no manejo do idioma, recursos fluidos de intercâmbio, um controlo adequado do ritmo, um lugar em cena, uma construção inteligente, que não parecem ser atitudes que provenham de um teclado. Sócrates sustinha que o diálogo humano, interactivo e presente, era como um deslumbramento, um procedimento de fazer nascer as ideias, uma ferramenta que conduz à verdade. Pode a Internet oferecer essa experiência profunda do espírito?
Talvez estas considerações sobre a Internet necessitem de ser ajustadas ou rectificadas com a generalização dos programas de voz e a câmara de vídeo, que permite transmitir imagens de si mesmo enquanto escreve. Quando a tecnologia proporcionar um sentido de presença pessoal, produzir-se-á, sem dúvida, um novo salto, uma mudança qualitativa, na natureza das formas actuais do intercâmbio cibernético. Entretanto, nada substitui o “terno instante supremo” do encontro pessoal.S&L

BIBLIOGRAFIA
1. J.E. Katz e K. L. Kraemer, “A Nation of Strangers?”, Communications of the ACM, 1995, 40, 12, pp. 81-86
2. R. Kraut, V. Lundmark, M. Patterson, S. Kiesler, T. Mukopadhyay e W. Scherlis, “Internet Paradox. A Social Technology That Reduces Social Involvement and Psychological Well-Being?” American Psychologist, Outubro, 2000.
3. R. D. Putnam, “Bowling Alone: America’s Declining Social Capital”, Journal of Democracy, 6, 1, 1995, pp. 65-78.

Mario Pereyra
Psicólogo

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