Há muito tempo que o homem iniciou a procura dos materiais mais apropriados
para a confecção de utensílios culinários. Esta preocupação surgiu da
necessidade de melhorar as características sensoriais e sanitárias dos
alimentos, além de factores como praticidade, beleza, disponibilidade do
material e inocuidade. A partir daí, diversos materiais têm sido empregues no
fabrico de panelas: ferro, alumínio, aço inoxidável, cerâmica, cobre, pedra,
vidro, barro, etc.
Na procura do material ideal, descobriu-se que não existe apenas um material, e
sim vários, dependendo da disponibilidade geográfica, do tipo de alimento e da
preparação requerida. Mas é verdade que, durante a elaboração culinária, ocorrem
interacções entre os alimentos e os utensílios. Algumas são benéficas à saúde da
pessoa, outras são inócuas, enquanto algumas podem ser consideradas
prejudiciais.
Panelas de Alumínio
O alumínio tem sido empregue no fabrico de panelas há muito tempo. A leveza e o
brilho são características marcantes desse metal. Por ser o segundo metal mais
abundante do planeta, foi considerado inicialmente atóxico pelo homem, e o seu
uso foi popularizado com produtos de baixo custo.
Há mais de 50 anos, foi verificada a ocorrência de migração do alumínio das
vasilhas para alimentos ácidos ou alcalinos, durante o cozimento. Os valores
encontrados foram elevados (36 mg/l), provavelmente devido às técnicas de
análise utilizadas e também a procedimentos não padronizados.
Indícios da toxicidade do alumínio começaram a surgir por volta de 1970,
relacionando a sua ingestão com o índice de demência, as doenças de Alzheimer e
Parkinson. Posteriormente, verificou-se que, além do sistema nervoso, o alumínio
é tóxico para os sistemas de formação e desenvolvimento das células sanguíneas e
ósseas. Estudos epidemiológicos já estabeleceram um risco maior no
desenvolvimento de doenças neurodegenerativas em populações abastecidas por água
com elevado conteúdo de alumínio. Até ao momento não há um resultado conclusivo
sobre essa relação, mas o alumínio dissolvido na água possui absorção maior no
trato gastrointestinal.
Em 1986, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu o limite provisório
tolerável de ingestão semanal de alumínio em 7 mg/kg de peso corporal. Isso
significa que uma criança de 20 kg pode consumir cerca de 140 mg e um adulto com
60 kg pode ingerir 420 mg de alumínio por semana. A ingestão do metal através de
medicamentos, por si só, extrapola o limite imposto.
O alumínio presente na dieta origina-se basicamente de três fontes: o próprio
alimento, aditivos alimentares usados pelas indústrias e contacto do alimento
com utensílios e embalagens metálicas. O alumínio presente no tecido animal
reflecte o conteúdo de alumínio do alimento e da água por ele consumidos e da
sua capacidade de concentrar o metal. Em vegetais, o conteúdo de alumínio
depende do solo e da capacidade da planta em absorvê-lo. Algumas plantas retêm
mais alumínio do que outras. Os grãos integrais possuem maior teor de alumínio
do que quando refinados. Como aditivo de alimentos, o alumínio é usado para
diversas funções: tampão, emulsificante, estabilizante, entre outras.
A migração de alumínio em formas de bolo é muito pequena e superficial. Nas
panelas, é expressiva. Uma medida preventiva é nunca polir a panela por dentro.
Ferro
Os utensílios de ferro são bastante tradicionais em certos países, especialmente
no Brasil. As suas características principais são o peso e a cor escura. O uso
desses utensílios foi relacionado com a prevenção e o tratamento da anemia
decorrente da carência de ferro, muito antes de que a ciência pudesse comprovar
a eficácia desse procedimento.
Diversos pesquisadores modernos já estabeleceram a ocorrência de migração de
ferro para os alimentos. Para esse utensílio não existe restrição com respeito à
implicação nutricional, salvo em determinadas condições de saúde. O efeito é
muito benéfico, especialmente para vegetarianos, mulheres em idade fértil e
crianças. Factores como acidez, teor de água da preparação e tempo de contacto
afectam positivamente a migração. A quantidade de ferro incorporada ao alimento
é menor nas duas ou três primeiras vezes de uso, permanecendo constante a partir
daí.
Comparando a quantidade média de ferro em alimentos preparados em panelas de
vidro e de ferro, foi encontrada uma contribuição de 1,8 a 2,2 mg/dia nas
refeições preparadas em utensílios de ferro. A quantidade média do acréscimo de
ferro em alguns alimentos preparados em panelas de ferro é mais do dobro, quando
comparada com um utensílio de vidro. Dessa forma, o uso de utensílios de ferro
na culinária pode ser considerado como medida de prevenção e tratamento de
anemia.
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Recomendações quanto à cerâmica - Evite o uso de utensílios com decorações internas. - Não guarde alimentos nesses utensílios, especialmente os de pH ácido. - Verifique as indicações do fabricante quanto ao utensílio ser decorativo, etc. - Tenha cautela no uso de cerâmicas antigas. - Cuidados extras também com utensílios de fabrico artesanal. |
Cerâmica
Na fabricação de utensílios de cerâmica, a aplicação de verniz a aproximadamente
1300ºC é importante, no sentido de obstruir os poros, facilitando a higienização
do utensílio. Acontece que, muitas vezes, são aplicados sobre o verniz, através
de fusão a aproximadamente 700ºC, decalques coloridos para embelezar o produto.
Esses decalques são compostos de metais pesados como cádmio e chumbo, cuja
toxicidade é notada em vários sistemas orgânicos. Os prejuízos do chumbo são
verificados nos sistemas nervoso, endócrino, esquelético e reprodutivo. Em
crianças, causa deficiência intelectual irreversível. Já o cádmio prejudica os
pulmões, os rins e os ossos.
O pH ácido, a temperatura elevada e o tempo de contacto são factores que
favorecem a migração dos utensílios de cerâmica para os alimentos. Preparações
líquidas também facilitam a dissolução de cádmio e chumbo, sendo que o chumbo
dissolvido em água possui maior absorção do que o eventualmente encontrado nos
alimentos. Quanto mais usado o utensílio, maior será a migração de cádmio e
chumbo.
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Dessa forma, podem ser considerados inócuos à saúde. Não contribuem, mas também não prejudicam o estado nutricional e de saúde dos usuários. |
Vasilhas de Cobre
O cobre é um elemento essencial ao organismo, interferindo no metabolismo e na
absorção do ferro. Além da beleza da cor, possui a capacidade de transmitir
rapidamente o calor. Por isso, os tachos de cobre foram bastante empregues na
culinária. Entretanto, pequenas quantidades desse metal podem produzir náuseas,
vómitos e diarreia. Já o excesso contínuo pode causar prejuízos renais,
alterações osteoarticulares e dores nas articulações. Lesões cerebrais também
podem ser verificadas.
Dos utensílios, o cobre pode migrar para qualquer alimento que entre em contacto
com ele, especialmente os de pH ácido. O tempo de contacto ou de armazenamento
de alimentos em tais utensílios favorece a migração. Os grandes cozinheiros
preferem muitas vezes empregar tachos de cobre, particularmente para molhos
delicados e alimentos que precisam de ser cozidos com precisão e controlo de
temperatura. Se o utensílio for revestido, a migração não ocorrerá. Por outro
lado, usar utensílios de cobre não revestidos, tanto para cocção como para
armazenamento de alimentos, é uma prática perigosa.
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Factores que Afectam a Migração de Alumínio - PH do alimento. Quanto mais ácido, maior será a migração. - Tempo de cocção do alimento. Quanto mais tempo o alimento permanecer em contacto com o utensílio, maior será a migração. - Tempo de uso. Utensílios novos apresentam, inicialmente, uma migração maior do que os usados; provavelmente devido ao resíduo formado durante o polimento do material. - Presença de ácido oxálico no alimento. Alimentos como o espinafre, quando preparados em utensílios de alumínio, adquirem maiores quantidades desse metal. - Concentração de sal e açúcar. Mesmo os sais minerais presentes na água potável favorecem a migração. - Tipo de utensílio. A migração de alumínio é maior em panelas de pressão do que em panelas comuns. Nestas, é maior do que em formas de bolo. - Modo de higienização do utensílio. O polimento do utensílio remove o óxido protector formado durante a cocção. O brilho do utensílio só é recomendável do lado de fora. - Qualidade da liga do alumínio. Embalagens do tipo tetrapak não permitem a migração do alumínio, pois este é revestido com filme plástico não tóxico. Embalagens metálicas permitem a migração do alumínio para bebidas ácidas. Embalagens laminadas para produtos secos não interferem nos níveis de alumínio desses alimentos. |
Aço Inoxidável
O aço inoxidável, ou inox, é composto basicamente por uma liga metálica de três
elementos: ferro, cromo e níquel. Também podem estar presentes manganês e cobre,
mas em quantidades insignificantes.
Tanto o ferro como o cromo são nutrientes essenciais, dos quais a população
parece sofrer mais de carência do que de excesso. Já o níquel é um dos metais
mais tóxicos. Ele está associado a alergias, dermatites de contacto, asma, etc.
Em altas dosagens, em forma pura ou composta, é considerado a maior causa de
dermatites de contacto e de dermatoses atópicas. Não é possível adquirir
sensibilização cutânea ingerindo compostos que o contenham. Mas há relatos de
que a sua ingestão provoca exacerbação e eczema nas mãos de pessoas sensíveis a
esse metal. Entre as principais fontes de níquel estão os seguintes alimentos:
nozes, enlatados de modo geral, gordura vegetal hidrogenada, cacau e derivados.
A migração para os alimentos é afectada pelo pH do alimento, tempo de contacto e
teor de água usada na preparação. A superfície de contacto, temperatura,
agitação, presença de agentes quelantes nos alimentos e a quantidade da liga do
inox também são factores que influenciam, em menor grau, a dissolução dos
metais.
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Vantagens e Desvantagens Veja aqui os pontos positivos e negativos de cada utensílio e faça a melhor aquisição |
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| Material | Prós | Contras |
| Vidro | Beleza, Fácil higienização, Inocuidade, Rápido aquecimento | Custo, Peso, Fragilidade, Aderência |
| Cerâmica | Beleza, Higienização | Libertação de cádmio e chumbo, Fragilidade, Aquecimento lento |
| Aço inoxidável | Libertação de ferro e cromo, Beleza, Higienização fácil, Durabilidade | Custo, Libertação de níquel, Aquecimento lento |
| Alumínio | Leveza, Higienização fácil, Rápido aquecimento, Custo | Aparência, Libertação de alumínio, Aderência |
| Ferro | Libertação de ferro, Durabilidade | Peso, Interfere na cor, Aderência |
| Cobre | Beleza, Rápido aquecimento | Libertação de cobre |
| Pedra-sabão | Anti-aderente, Libertação de cálcio, magnésio, ferro e manganês, Mantém o aquecimento | Peso, Fragilidade, Libertação de níquel, Aquecimento lento |
Vidro
Há algumas décadas, o vidro tem sido empregue na confecção de utensílios de
cozinha. O facto de permitir a visualização dos alimentos enquanto são
preparados e, depois, à mesa, é considerado uma vantagem. Em contrapartida, o
peso, a fragilidade e o custo financeiro são tidos como desvantagens.
Em diversas pesquisas de avaliação de migração de elementos dos utensílios
culinários feitos com outros materiais, os de vidro têm sido empregues como
padrão comparativo, uma vez que não interferem na migração. Dessa forma, podem
ser considerados inócuos à saúde. Não contribuem, mas também não prejudicam o
estado nutricional e de saúde dos usuários.
Pedra-sabão
Embora não seja material que usemos no nosso País, decidimos inserir estas
panelas neste artigo para benefício dos nossos muitos leitores brasileiros, uma
vez que são usadas tradicionalmente em Minas Gerais onde são fabricadas.
O esteatito é uma rocha abundante no solo de Minas Gerais, sendo muito utilizado
na produção de talco para a indústria cosmética e cerâmica, na fabricação de
borracha, papel, isoladores e meios de polimento. Devido à pouca dureza, recebeu
o nome de pedra--sabão, pelos artistas da época barroca. Actualmente, os
trabalhos em pedra-sabão vão desde panelas de pedra até obras de arte.
Os dados disponíveis sobre a migração de metais desse utensílio são recentes,
embora o conhecimento popular mineiro indique o uso desse material no tratamento
da prevenção da anemia provocada por carência de ferro.
Foi detectada e quantificada a migração de vários elementos da pedra-sabão para
os alimentos; entre eles, cálcio, magnésio, ferro e manganês. Quantidades
elevadas de níquel ocorreram quando a panela usada não recebia o tratamento
térmico tradicional, denominado cura. Elementos como o chumbo, cádmio e arsénico
foram pesquisados em amostras aleatórias, porém os níveis apresentados foram
baixos, especialmente nas panelas curadas, não representando toxicidade ao
homem.
Diante do que foi considerado, a verdade é que talvez não exista ainda um
utensílio culinário ideal, que apresente só vantagens. Porém, existem alguns que
oferecem mais benefícios do que outros. Cabe a quem os usa levar em conta os
prós e os contras, na escolha do melhor utensílio, com relação ao tipo de
alimentação adoptada, aos requerimentos nutricionais, ao tipo de preparação a
ser efectuada, entre outros aspectos. S&L
Késia Diego Quintaes
Doutorada em Ciências da
Nutrição