Lamento ter de informar V. Excas. que a Senhora D. Maria Cecília faleceu no
dia 2 de Janeiro do ano corrente, motivo por que não se atenderam os vossos
contactos telefónicos.
Foi pena que a entrevista não pudesse ter sido feita, pois teria representado
uma mais valia por duas razões.
A primeira, porque teria dado a D. Maria Cecília o prazer de conversar sobre
qualquer assunto que quisessem abordar. Com efeito, à data do seu falecimento,
estava prestes a completar a idade de 102 anos, com uma lucidez e discernimento
absolutamente invulgares na sua idade e ainda uma espantosa sofreguidão sobre
tudo, incluindo cultura, política… e até futebol!
A segunda, porque a revista merecia beneficiar das opiniões e conhecimentos
invulgares de uma pessoa a quem até ao seu fim recorríamos em caso de dúvidas
sobre assuntos que nos foram ensinados desde a nossa instrução primária.
Desculpem-me a extensão desta carta, que é, por um lado, um desabafo, e, por
outro, uma tentativa de homenagem a uma senhora invulgar nos tempos que correm.
Novembro de 2003.
Na redacção da revista Saúde & Lar, como é habitual em cada mês, reúnem-se os
colaboradores para planear e preparar as edições dos meses seguintes. Sugere-se
que a revista tenha mais entrevistas, não só pela dinâmica que imprimem aos
textos, mas também como forma de nos aproximarmos cada vez mais dos nossos
leitores.
“Que tal uma entrevista com a nossa assinante mais idosa? O seu nome é Srª. D.
Maria Cecília Miguez Baião, tem 101 anos e habita, perfeitamente lúcida, em
Lisboa”, sugere o director. “É uma boa ideia!”, concordamos. Para além de
permitir uma inovação, ao apresentar uma leitora a toda a família da Saúde &
Lar, tem a curiosa vantagem de mostrar como é possível atingir longevidade, quem
sabe levando uma vida saudável e equilibrada. O que terá a senhora a dizer e
ensinar – a todos, colaboradores e leitores – sobre a sua experiência de vida?
Decide-se que cabe a este narrador a honrosa tarefa de entrevistar a Srª D.
Maria Cecília. E então vem a frase que tudo mudou: “Com muito gosto! Só que só o
poderei fazer em Janeiro, dada a planificação de trabalho até ao final do ano.”
E assim seria.
Dia após dia, as tentativas de contacto telefónico com a nossa prezada leitora
sucedem-se. Infrutíferas. “Talvez não tenha ainda regressado a sua casa, após o
período natalício. Ou quem sabe o número mudou. Amanhã voltamos a insistir”. Mas
o prazo aproxima-se e está programado que a entrevista será publicada em Março.
“Pode ser um problema com o telefone. É melhor procurar entrar em contacto
através de carta.” E assim se faz.
Poucos dias depois, a inesperada resposta surge, numa simpática, mas dolorosa,
carta de um senhor, seu genro, que amavelmente deu o testemunho que
transcrevemos no início.
E assim se perdeu a oportunidade de ouvir e apresentar a nossa leitora e
assinante mais idosa… Contudo, obviamente não se perde a oportunidade, justa e
merecida, de a conhecer, lembrar e homenagear. É certo que não poderemos dizer
que relembramos com saudade a nossa fiel leitora. Mas é com respeito e admiração
que, com as palavras de um seu querido na memória, a guardamos como parte da
história da revista Saúde & Lar e nos despedimos da sua vida, mas não do seu
legado.
Leva-nos este episódio a reflectir, caro leitor, no valor da oportunidade.
Quantas palavras morrem por dizer, gestos se guardam sem uso, abraços presos sem
se soltarem de dentro do coração, lágrimas secas sem encontrarem um canal para
um rio de afecto que nos une aos outros. E tudo porque o momento, aquele que
pede que nos demos sem limites ao outro, fica suspenso no ar, sem encontrar
local onde pousar e florir. Como poderia ser o relacionamento humano diferente
se o momento de encontro estivesse em primeiro lugar…
Pulci afirmou que aquele que espera pela oportunidade está a perder o seu tempo.
Que momento de oportunidade teria Pulci deixado escapar para dizer uma frase
sentida, com tanto sentido? Quem vive para e pelos outros, procurando dar sempre
mais de si e receber sempre o que de melhor lhe oferecem, não pode aguardar,
sentado à berma de um rio de oportunidades, que a maré do seu momento surja. O
seu momento, como a água de um rio, passa por si uma só vez…
Por isso, prezado leitor, lhe contamos este episódio. Pretendemos homenagear uma
amiga leitora que nos deixou. E nada melhor do que uma reflexão para o fazer:
não perca um só momento para manifestar aos que ama à sua volta o que de bom
guarda no seu coração! Amanhã pode ser tarde! O que sentimos pelos outros só faz
sentido se o demonstrarmos; o que os outros sentem por nós só se concretiza na
nossa vida quando o recebemos.
Já brincou com o seu filho hoje e lhe colocou um sorriso nos lábios? Dispôs-se a
ouvir a história que o seu pai ou avó lhe querem contar, de um jeito sempre
diferente, pela quinta vez? Disse à sua esposa que a ama e acariciou-lhe o rosto
quando chegou a casa? Se não… este é o momento! S&L
Paulo Sérgio Macedo
Director da Revista para
Adolescentes ZY