Estilo de Vida / Setembro 2004

A questão
Segundo a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros –, num estudo divulgado em Março do corrente ano, referente a 2003, 76% dos portugueses entre os 15 e os 65 anos manifestam que tem por hábito ler. Destes, 44% afirmam serem leitores habituais de livros, embora uma grande parte admita não estar a ler nenhum livro à data do estudo. Em média, cada um de nós terá lido, no ano de 2003, 8,5 livros. Ainda segundo o mesmo estudo, as mulheres dedicam mais tempo à leitura de livros, enquanto os homens preferem jornais e revistas, o que levanta – ou confirma – questões interessantes quanto à tendência sensível de umas em oposição ao carácter prático dos outros. Para toda esta vocação de leitura, a média de tempo despendida é de quatro horas semanais para livros e duas horas semanais para jornais e revistas.
Existe uma pequena diminuição na percentagem de “leitores assíduos” em relação ao ano anterior, mas não é muito significativa. Mais preocupante, contudo, é o facto de os portugueses serem os europeus que menos lêem (não contando ainda com os países do alargamento). E podem, ainda, retirar-se ilações interessantes do facto de as preferências de leitura no nosso país serem mais recreativas e culturais do que académicas e de formação profissional: lemos por distracção, mais do que para nos tornarmos melhores alunos ou aumentarmos a nossa produtividade, pela formação.

Mas…
Os números nem parecem decepcionantes. Acreditaria que uma tão grande parte da população afirme ler; que 44% dos portugueses lêem assiduamente livros; e, principalmente, que um português médio leia 8,5 livros por ano? São números, é verdade. Mas o que é que não bate certo: a ideia de que a cultura ocidental da pós-modernidade não é dada a leituras está errada, ou as pessoas estão convencidas de que lêem mais do que o que realmente lêem? É difícil tirar uma conclusão definitiva…
No entanto, há duas ideias que podemos, pela análise da nossa envolvente social, reter com segurança.
Em primeiro lugar, é possível que a noção de que as pessoas lêem menos, ou, pelo menos, não lêem o suficiente, tem sido criada pela crítica que é feita a um sistema de ensino que assenta mais em competências e formação específica, desresponsabilizando de um saber mais teórico, factual, enciclopédico. Passadas as primeiras gerações filhas desta mudança, argumenta-se que se “sabe menos”, pretensamente porque se “lê menos”. Talvez seja conveniente pensar que não pode esperar-se que um adulto vá ser um interessado leitor de Yourcenar, da National Geographic ou do Finantial Times, se na sua formação como indivíduo não lhe foram incutidos hábitos de leitura.
Um segundo aspecto, bastante mais palpável, é o facto de que se percebe, na realidade, novas gerações, que gostam de ler e lêem, mas que alteraram os seus hábitos de leitura. Esta nova geração é aquela que incorpora adolescentes ávidos, que contam os dias até ao lançamento da obra de 500 páginas de um herói improvável; jovens que transportam para romances, cuja efemeridade da sua leve luz lhes desvia o pensamento, os sonhos de uma vida que, em contraste, se lhes mostra pesada e obscura; de universitários que, nos corredores do saber, folheiam e discutem páginas moles sobre uma contratação que confirmam hoje que a notícia dada anteontem não fora verdade na véspera.
Os portugueses lêem. E cada vez mais. Principalmente os jovens. Só que são leituras diferentes. A lei da oferta e da procura haveria um dia de chegar às páginas. Não é errado; mas tem consequências… Lemos mais, mas não significa que melhor.

Depois, há uma componente ambiental: sente-se ou deite-se confortavelmente, relaxado, numa cadeira da sua varanda com um Cd calmo por companhia, ou encostado a uma árvore, embalado por um riacho.


O factor tempo

Um dos maiores obstáculos que tem sido apontado à verdadeira leitura, que se pretende de qualidade e bem maturada no pensamento, é o tempo. A análise às causas da falta de tempo na sociedade moderna está já bem realizada: o esforço profissional cada vez mais exigente, as condições de deslocação e transporte urbanas, a necessidade de assistência à família e as actividades lúdicas alternativas. A tudo isto acresce a falta de motivação e capacidade intelectuais que todo o quadro provoca. Onde encaixar os momentos de leitura? Como torná-los, senão prioritários, essenciais?
Antes de mais, os momentos de leitura têm de ser aprazíveis. É difícil deixar de fazer seja o que for de necessário ou que dê prazer por troca com uma actividade não essencial e, ainda por cima, que implique sacrifício. Por isso, é importante escolher bem a leitura, adequada ao perfil individual, mas que possa trazer um acréscimo de qualidade humana. Depois, há uma componente ambiental: sente-se ou deite-se confortavelmente, relaxado, numa cadeira da sua varanda com um Cd calmo por companhia, ou encostado a uma árvore, embalado por um riacho.
Sei o que está a pensar: Sim, sim, principalmente no intervalo entre deixar o filho na escola e apanhar o autocarro! Aqui entram as prioridades. É verdade que não pode deixar de trabalhar, deslocar-se, acompanhar a família, alimentar-se, vestir-se. Mas não poderá abdicar de uma parte do seu tempo de lazer, dispendido em outras actividades que não contribuam tanto para a sua saúde mental e a sua formação como pessoa?

E porquê?
Sim, temos de reconhecer que é necessária motivação para iniciar um caminho que o leve a dedicar-se mais à leitura. Então, em vez de procurar essa motivação nas razões que o levem a fazê-lo, talvez a deva procurar nas suas consequências.
Reformulemos a pergunta:
Para quê?
Antes de mais, para que se sinta melhor como pessoa. No seu livro O Fim da História e o Último Homem, Francis Fukuyama falava do homem da pós-modernidade como um ser amorfo, sem espinha dorsal, desinteressado de si e de tudo, consequência do mundo de mercado que criara. Se ele tem alguma razão, como se impede o prognóstico? Começando pela própria personalidade, procurando ser mais esclarecido, mais preparado, mais atento a nós próprios, aos que nos rodeiam, ao mundo. Passar do existir que nos é dado pelo nascer, para o verdadeiro ser que construímos como pessoas.
Depois, para a sua própria sanidade intelectual. O mundo de hoje é demasiado rápido e vertiginoso para que o possamos acompanhar em todos os desenvolvimentos e notícias. Por mais que tentemos estar ao corrente de tudo em todos os momentos, somos facilmente ultrapassados pela realidade. É verdade que a utilização dos meios de informação que temos hoje ao dispor nos pode ser muito benéfica. Ver um bom documentário na televisão, ouvir notícias de última hora na rádio, conhecer a opinião de pessoas que respeitamos em blogs na Internet – tudo contribui para estarmos mais informados. Mas onde se encontra o tempo e o espaço para assimilar e arquivar toda esta torrente de informação? Como gerir e escolher as informações que queremos receber e verdadeiramente nos fazem falta?
Quando se lê um livro, um jornal, uma revista, principalmente se no seu suporte físico e não virtual, existe o necessário hiato de tempo entre a recepção da mensagem, a sua assimilação e a posterior análise. Não nos são impostas imagens, vozes, cores, nem há possibilidade de os nossos pensamentos, opiniões e reflexões serem condicionados por nada mais, que não por aquilo que emana verdadeiramente de quem somos. A preferência pela leitura de um livro é um grito contra a alienação de um sistema que nos quer controlar a mente e o tempo.
Novos rumos
A capa da revista era assustadora. Revelava que, se não tivéssemos sido criados por Deus, mas sim fruto de uma evolução casuística, os homens de amanhã teriam os polegares bastante mais desenvolvidos, fruto da sua utilização em novos

Quando se lê um livro, um jornal, uma revista, principalmente se no seu suporte físico e não virtual, existe o necessário hiato de tempo entre a recepção da mensagem, a sua assimilação e a posterior análise.

aparelhos tecnológicos como computadores e telemóveis, bem como os cérebros inesteticamente protuberantes na zona frontal, devido à sua utilização desproporcionada em relação às outras zonas cerebrais, em muito devido ao excesso de estímulos visuais e auditivos.
Não vai acontecer… Mas não deixa de ser curiosa a preocupação. Cada vez mais vivemos numa sociedade que privilegia a imagem e o som e coloca de parte a palavra. E isto porque é uma sociedade imediatista, que corre em busca de excitação momentânea e tem horror ao vazio e ao silêncio, ao espaço aberto e ao tempo morto. Porquê? Porque olha para si e não gosta do que vê – e foge de reflectir sobre o assunto.
Não há espaço na mente de uma criança para a reflexão, a imaginação, a aprendizagem em trinta minutos de desenhos animados violentos, como não o há para um jovem em duas horas de discoteca, nem para um adulto num dia a navegar na net. É assim que se nos esvai a capacidade de reflectir, a vontade de modificar e o tempo de actuar – e somos vencidos, porque não parámos… para Ler. S&L

Paulo Sérgio Macedo
Director da revista para adolescentes ‘Zona Y’



 

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