Educação / Setembro 2004

Na idade em que se escolhe o futuro, e ao debruçar-me sobre o meu desempenho escolar, ser professor era uma profissão de grandes expectativas, de muito sucesso e que dava origem a grandes sonhos. Escolhi, portanto, ser professora e posso dizer que os primeiros anos foram realmente cheios de sucesso e auto-realização.
No entanto, e passados mais de vinte anos, constato que as coisas são, hoje, muito diferentes: os valores sociais mudaram, as famílias já não são como eram, os adolescentes transformaram-se de tímidos, receosos e respeitadores, em desinibidos, e, em muitos casos, em rebeldes.
Que muita coisa mudou é também a opinião dos meus colegas de trabalho. Pedi, portanto, ao elaborar este artigo, a colaboração dos meus colegas efectivos da Escola Secundária com 3º Ciclo de Carvalhos e do Colégio dos Carvalhos, aos quais agradeço.
Não fugimos da responsabilidade que é a tarefa de ser professor: planificações do nosso trabalho a curto e a longo prazo, estratégias diversificadas de ensino, respeito pelo aluno e pela sua individualidade, tudo isto são coisas a que procuramos obedecer criteriosamente. É certo que, ao respeitarmos tudo isto, apenas metade do nosso trabalho está a ser feito, porque não lidamos com máquinas, mas com seres humanos, que passam apenas uma parte da sua vida dentro dos muros da escola. Com efeito, os nossos adolescentes trazem para a escola todas as suas lutas e as suas dores de lá de fora, da casa, da rua, etc.. Esta é, creio eu, uma das lacunas com a qual nós, professores, sofremos: ninguém nos preparou para enfrentar gente, seres humanos. As minhas colegas que fazem o seu estágio nesta escola, enfrentam múltiplas situações para as quais não foram preparadas na faculdade. Com efeito, o nosso ensino universitário, vertente ensino, é, acima de tudo, teórico, avaliado por metodólogos(as) com pouca ou nenhuma experiência no campo.
Mas lá vamos tentando entender e aceitar os alunos, tal como são. Creio que, nesta era moderna, o respeito pelo aluno é muito importante, para podermos ensiná-lo a respeitarmo-nos. Conseguir criar empatia com uma turma inteira de vinte e cinco, trinta alunos não é fácil, especialmente se nela estiverem incluídos alunos repetentes, perturbados emocional e psiquicamente, alunos que chegam às nossas mãos sem saberem ler, cuja família está em farrapos, que são alvo da chacota dos colegas, que no fim das aulas vão vender droga para ajudar as finanças familiares, ou comprar o vinho com que o pai e a mãe se embebedam à noite. O que é de lamentar é o facto de haver um imenso distanciamento entre o legislador e a realidade prática. É necessário que o legislador perceba que o nosso país é constituído essencialmente por crianças normais, muito pobres, e gente com problemas, que se levantam de madrugada para deixar os animais alimentados antes de chegar à escola ou que já deram o pequeno-almoço aos irmãos mais pequenos, ou que chegam à escola sem suficiente alimentação. É nestes que temos que pensar, nos nossos alunos do povo, gente esforçada, mas muitas vezes de grande inteligência, que tem sonhos e esperanças, cortados cerce pela vida, ou de gente sem sonhos nenhuns porque a vida lhes dá tudo.
 

Com feito, os nossos adolescentes trazem para a escola todas as suas lutas e as suas dores de lá de fora, da casa, da rua, etc.. Esta é, creio eu, uma das lacunas com a qual nós, professores, sofremos: ninguém nos preparou para enfrentar gente, seres humanos.

Três Pedras Fundamentais
O professor não trabalha sozinho. Ele pode ser um profissional excelente, mas o seu trabalho não tem resultados positivos se for só dele. Com efeito, além do professor, há mais pedras neste jogo do ensino: a segunda pedra é o aluno, e o aluno, neste momento, é um elemento que não faz a sua parte (salvam-se as excepções). Nos meus primeiros anos de trabalho, o “inimigo” do professor eram certas leituras: revistas aos quadradinhos, jornais, livros, e que lhes tiravam tempo para o estudo. Neste momento, temos inimigos muito mais fortes e poderosos: a falta de concentração na sala de aula, o excesso de televisão, os jogos de computador, a Internet mal usada, e outros. A nossa era do consumismo conseguiu destruir até os hábitos de leitura, mesmo que fracos, e roubou-lhes a concentração, a imaginação, o tempo de estudo, a vontade de saber e aprender mais sobre as coisas. Apesar de tudo o que se sabe sobre os perigos perniciosos da televisão, ainda há adolescentes que têm a sua no quarto!

A Experiência
Existem, infelizmente, muitas condicionantes neste jogo do aluno. Quero falar-vos do Rui*. Este aluno portava-se muito mal nas aulas, era agressivo para os colegas e professores e perturbava o bom funcionamento das aulas. Foi suspenso várias vezes, dada a gravidade do seu comportamento. Era filho de pais muito cuidadosos, que iam regularmente à escola, era um catequista zeloso, mas, quando chegava à escola, transformava-se completamente. Acabou por não transitar de ano como resultado. No ano seguinte, a certa altura, o Rui percebeu. Como já referi atrás, os alunos são seres humanos, têm maneiras de ser e de sentir diferentes, e precisamos de saber usar de tolerância e de repreensão na medida certa para surtir efeito. Numa das aulas em que o Rui se estava a portar terrivelmente mal, optei por mandar sair a turma toda e ficar com ele na sala de aula, de castigo. Aí conversámos seriamente. Este castigo, se bem que lhe tenha custado, surtiu efeito. A partir dali, o Rui percebeu que devia refrear os seus impulsos perturbadores.
Muitas vezes são os pais que nos vêm pedir para castigarmos os seus filhos. Mas é um assunto muito delicado, pois não nos sentimos com competência moral para o fazer. Se o aluno tem um comportamento grave, compete ao conselho executivo e ao conselho de turma decidir a sanção a aplicar (seja serviço cívico, seja suspensão), mas é, sobretudo, ao encarregado de educação que compete fazer isso.
E é aqui que entra a terceira pedra neste jogo: o encarregado de educação. O José* tinha um historial de faltas enorme, muitas delas justificadas com a conivência da mãe, mas isso levou, evitavelmente, à reprovação do aluno. Como lhes costumo dizer, falta à aula, perde matéria. No ano seguinte, o aluno continuou na mesma senda do absentismo. Enviámos todas as comunicações obrigatórias por lei ao encarregado de educação, convocando-o sem qualquer êxito. A última carta foi enviada com aviso de recepção e chegou assinada pelo próprio aluno. Decidimos agir de outra maneira e telefonámos de casa para o encarregado de educação. A partir desse momento, o aluno não voltou a faltar. É importantíssimo o papel do encarregado de educação. Se este é ausente, não contacta a escola, não se interessa, é mais fácil o aluno desinteressar-se da escola e passar a perturbar. É certo que os encarregados de educação trabalham num horário que coincide com o do director de turma, mas isso pode ser resolvido. Ambos devem encontrar um meio de comunicar que seja vantajoso para os dois lados, seja pelo telefone, Internet, ou num encontro marcado com antecedência e que não prejudique ninguém. Há sempre maneira de o encarregado de educação dizer ao filho e à escola “eu estou aqui, e preocupo-me”.

O Meu Testemunho
Um novo ano escolar está prestes a iniciar-se. Espero sinceramente que todos possamos unir-nos e envidar esforços para que, juntos, consigamos levar a bom termo esta nossa tarefa de educar jovens para o futuro. Se todos fizermos a nossa parte, não direi que todos os problemas da educação serão resolvidos, mas uma boa parte sê-lo-á.
E agora pergunto: será a profissão de professor uma profissão de risco? Eu creio que é, pelos motivos apresentados, pela falta de condições de trabalho que o professor tem nas escolas por todo o nosso país, pela falta de apoios, pelas ausências do lar a que o professor é obrigado por motivos de deslocação, pelo sentimento de impotência que às vezes sentimos ao depararmos com certas situações que nos ultrapassam, e as quais somos impotentes para resolver. Mas quando vamos pela rua e somos cumprimentados por um aluno que nunca se esqueceu de nós, sinto que, no fundo, alguma coisa boa ficou do meu trabalho. S&L

Ilda Cardoso
Professora do Quadro de Nomeação Definitiva

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