Na
idade em que se escolhe o futuro, e ao debruçar-me sobre o meu desempenho
escolar, ser professor era uma profissão de grandes expectativas, de muito
sucesso e que dava origem a grandes sonhos. Escolhi, portanto, ser professora e
posso dizer que os primeiros anos foram realmente cheios de sucesso e
auto-realização.
No entanto, e passados mais de vinte anos, constato que as coisas são, hoje,
muito diferentes: os valores sociais mudaram, as famílias já não são como eram,
os adolescentes transformaram-se de tímidos, receosos e respeitadores, em
desinibidos, e, em muitos casos, em rebeldes.
Que muita coisa mudou é também a opinião dos meus colegas de trabalho. Pedi,
portanto, ao elaborar este artigo, a colaboração dos meus colegas efectivos da
Escola Secundária com 3º Ciclo de Carvalhos e do Colégio dos Carvalhos, aos
quais agradeço.
Não fugimos da responsabilidade que é a tarefa de ser professor: planificações
do nosso trabalho a curto e a longo prazo, estratégias diversificadas de ensino,
respeito pelo aluno e pela sua individualidade, tudo isto são coisas a que
procuramos obedecer criteriosamente. É certo que, ao respeitarmos tudo isto,
apenas metade do nosso trabalho está a ser feito, porque não lidamos com
máquinas, mas com seres humanos, que passam apenas uma parte da sua vida dentro
dos muros da escola. Com efeito, os nossos adolescentes trazem para a escola
todas as suas lutas e as suas dores de lá de fora, da casa, da rua, etc.. Esta
é, creio eu, uma das lacunas com a qual nós, professores, sofremos: ninguém nos
preparou para enfrentar gente, seres humanos. As minhas colegas que fazem o seu
estágio nesta escola, enfrentam múltiplas situações para as quais não foram
preparadas na faculdade. Com efeito, o nosso ensino universitário, vertente
ensino, é, acima de tudo, teórico, avaliado por metodólogos(as) com pouca ou
nenhuma experiência no campo.
Mas lá vamos tentando entender e aceitar os alunos, tal como são. Creio que,
nesta era moderna, o respeito pelo aluno é muito importante, para podermos
ensiná-lo a respeitarmo-nos. Conseguir criar empatia com uma turma inteira de
vinte e cinco, trinta alunos não é fácil, especialmente se nela estiverem
incluídos alunos repetentes, perturbados emocional e psiquicamente, alunos que
chegam às nossas mãos sem saberem ler, cuja família está em farrapos, que são
alvo da chacota dos colegas, que no fim das aulas vão vender droga para ajudar
as finanças familiares, ou comprar o vinho com que o pai e a mãe se embebedam à
noite. O que é de lamentar é o facto de haver um imenso distanciamento entre o
legislador e a realidade prática. É necessário que o legislador perceba que o
nosso país é constituído essencialmente por crianças normais, muito pobres, e
gente com problemas, que se levantam de madrugada para deixar os animais
alimentados antes de chegar à escola ou que já deram o pequeno-almoço aos irmãos
mais pequenos, ou que chegam à escola sem suficiente alimentação. É nestes que
temos que pensar, nos nossos alunos do povo, gente esforçada, mas muitas vezes
de grande inteligência, que tem sonhos e esperanças, cortados cerce pela vida,
ou de gente sem sonhos nenhuns porque a vida lhes dá tudo.
| Com feito, os nossos adolescentes trazem para a escola todas as suas lutas e as suas dores de lá de fora, da casa, da rua, etc.. Esta é, creio eu, uma das lacunas com a qual nós, professores, sofremos: ninguém nos preparou para enfrentar gente, seres humanos. |
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Três Pedras Fundamentais
O professor não trabalha sozinho. Ele pode ser um profissional excelente, mas o
seu trabalho não tem resultados positivos se for só dele. Com efeito, além do
professor, há mais pedras neste jogo do ensino: a segunda pedra é o aluno, e o
aluno, neste momento, é um elemento que não faz a sua parte (salvam-se as
excepções). Nos meus primeiros anos de trabalho, o “inimigo” do professor eram
certas leituras: revistas aos quadradinhos, jornais, livros, e que lhes tiravam
tempo para o estudo. Neste momento, temos inimigos muito mais fortes e
poderosos: a falta de concentração na sala de aula, o excesso de televisão, os
jogos de computador, a Internet mal usada, e outros. A nossa era do consumismo
conseguiu destruir até os hábitos de leitura, mesmo que fracos, e roubou-lhes a
concentração, a imaginação, o tempo de estudo, a vontade de saber e aprender
mais sobre as coisas. Apesar de tudo o que se sabe sobre os perigos perniciosos
da televisão, ainda há adolescentes que têm a sua no quarto!
A Experiência
Existem, infelizmente, muitas condicionantes neste jogo do aluno. Quero
falar-vos do Rui*. Este aluno portava-se muito mal nas aulas, era agressivo para
os colegas e professores e perturbava o bom funcionamento das aulas. Foi
suspenso várias vezes, dada a gravidade do seu comportamento. Era filho de pais
muito cuidadosos, que iam regularmente à escola, era um catequista zeloso, mas,
quando chegava à escola, transformava-se completamente. Acabou por não transitar
de ano como resultado. No ano seguinte, a certa altura, o Rui percebeu. Como já
referi atrás, os alunos são seres humanos, têm maneiras de ser e de sentir
diferentes, e precisamos de saber usar de tolerância e de repreensão na medida
certa para surtir efeito. Numa das aulas em que o Rui se estava a portar
terrivelmente mal, optei por mandar sair a turma toda e ficar com ele na sala de
aula, de castigo. Aí conversámos seriamente. Este castigo, se bem que lhe tenha
custado, surtiu efeito. A partir dali, o Rui percebeu que devia refrear os seus
impulsos perturbadores.
Muitas vezes são os pais que nos vêm pedir para castigarmos os seus filhos. Mas
é um assunto muito delicado, pois não nos sentimos com competência moral para o
fazer. Se o aluno tem um comportamento grave, compete ao conselho executivo e ao
conselho de turma decidir a sanção a aplicar (seja serviço cívico, seja
suspensão), mas é, sobretudo, ao encarregado de educação que compete fazer isso.
E é aqui que entra a terceira pedra neste jogo: o encarregado de educação. O
José* tinha um historial de faltas enorme, muitas delas justificadas com a
conivência da mãe, mas isso levou, evitavelmente, à reprovação do aluno. Como
lhes costumo dizer, falta à aula, perde matéria. No ano seguinte, o aluno
continuou na mesma senda do absentismo. Enviámos todas as comunicações
obrigatórias por lei ao encarregado de educação, convocando-o sem qualquer
êxito. A última carta foi enviada com aviso de recepção e chegou assinada pelo
próprio aluno. Decidimos agir de outra maneira e telefonámos de casa para o
encarregado de educação. A partir desse momento, o aluno não voltou a faltar. É
importantíssimo o papel do encarregado de educação. Se este é ausente, não
contacta a escola, não se interessa, é mais fácil o aluno desinteressar-se da
escola e passar a perturbar. É certo que os encarregados de educação trabalham
num horário que coincide com o do director de turma, mas isso pode ser
resolvido. Ambos devem encontrar um meio de comunicar que seja vantajoso para os
dois lados, seja pelo telefone, Internet, ou num encontro marcado com
antecedência e que não prejudique ninguém. Há sempre maneira de o encarregado de
educação dizer ao filho e à escola “eu estou aqui, e preocupo-me”.
O Meu Testemunho
Um novo ano escolar está prestes a iniciar-se. Espero sinceramente que todos
possamos unir-nos e envidar esforços para que, juntos, consigamos levar a bom
termo esta nossa tarefa de educar jovens para o futuro. Se todos fizermos a
nossa parte, não direi que todos os problemas da educação serão resolvidos, mas
uma boa parte sê-lo-á.
E agora pergunto: será a profissão de professor uma profissão de risco? Eu creio
que é, pelos motivos apresentados, pela falta de condições de trabalho que o
professor tem nas escolas por todo o nosso país, pela falta de apoios, pelas
ausências do lar a que o professor é obrigado por motivos de deslocação, pelo
sentimento de impotência que às vezes sentimos ao depararmos com certas
situações que nos ultrapassam, e as quais somos impotentes para resolver. Mas
quando vamos pela rua e somos cumprimentados por um aluno que nunca se esqueceu
de nós, sinto que, no fundo, alguma coisa boa ficou do meu trabalho. S&L
Ilda Cardoso
Professora do Quadro de Nomeação Definitiva