Imagine que um dia coloca o telemóvel no frigorífico ou a carteira no
microondas; no dia seguinte sai de casa, perde-se na sua própria rua e
apercebe-se que não sabe como voltar para casa. Ou que quer telefonar a alguém e
que, além de se esquecer do número de telefone, não conseg
ue decidir o que tem
que fazer primeiro: se levantar o auscultador ou marcar o número. Consegue?!
Provavelmente não; mas estas situações são assustadoramente reais. Enquadram-se
numa pessoa que sofre de doença de Alzheimer.
Esta doença foi descoberta em 1906. Um neurologista alemão, após observar uma
mulher de 51 anos de idade, encontrou sintomas que normalmente existiam em
indivíduos idosos. Mais tarde, ao examinar o cérebro das utentes com esses
sintomas, descobriu emaranhados de fibras de células nervosas. É, portanto, uma
doença neurológica progressiva e irreversível, que afecta as células do cérebro,
levando a uma diminuição do funcionamento intelectual. É a principal causa de
demência – um conjunto de sintomas dos quais fazem parte a perda de memória, do
discernimento e da razão, com alterações do humor e do comportamento.
É uma patologia que tem um início insidioso (quando os sintomas aparecem já a
doença está instalada) e gradual, apresentando um declínio lento e regular. Tem
maior frequência após os 65 anos, sendo a prevalência na ordem dos 5%, e de 20%
depois dos 85 anos. A duração, em média, da evolução é de 8 a 10 anos e abrange
cerca de 50 a 60% das demências. Pode aparecer aos 40 anos e a evolução é tanto
mais rápida quanto mais jovem a idade de aparecimento. No nosso país, estima-se
que existam, pelo menos diagnosticados, cerca de 70 000 pessoas com esta doença.
As causas desta demência são desconhecidas, apesar das várias teorias
existentes. O exame das células cerebrais revela a existência dos já referidos
emaranhados neurofibrilares e placas senis, sendo o único elemento
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Implementar estas medidas vai ajudá-lo(a) a reduzir o sacrifício físico e emocional, porque você é a pessoa mais importante para a vida do doente de Alzheimer de quem cuida. |
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que permite
fazer um diagnóstico credível. No entanto, isto só é confirmado após a morte do
indivíduo, por autópsia. As células mais afectadas são aquelas que utilizam o neurotransmissor acetilcolina, que participa de modo específico no processamento
da memória.
Parece haver uma maior predisposição do aparecimento desta doença nas mulheres e
nas pessoas de raça negra. Há, ainda, outros factores, tais como: a idade,
hereditariedade, história de traumatismo cerebral grave. Através de estudos
detectou-se a presença de maiores concentrações de alumínio nos cérebros de
pessoas com a doença. Por isso, outro factor que se tem em conta é a alimentação
(uso de utensílios de alumínio), o uso de desodorizantes (por libertação de
alumínio) e o abuso de antiácidos. No entanto, ainda nada se provou e a presença
de alumínio parece ser mais um resultado da demência do que uma causa.
Como não existe um teste de diagnóstico específico que permita afirmar se a
pessoa sofre ou não de doença de Alzheimer, faz-se através de uma avaliação
sistemática e por exclusão, eliminando outras causas possíveis. Apesar disto,
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Viver com alguém que tem a doença de
Alzheimer pode ser um desafio, que requer muito do seu tempo e energia.
Existem algumas sugestões que podem aliviar o stresse. |
quando os médicos fazem o diagnóstico “provável doença de Alzheimer”, acertam
entre 80 a 90% das vezes.
Os sintomas variam muito. No início, a pessoa pode apresentar perda de memória,
que é ocultada porque possui ainda uma boa função cognitiva. À medida que a
doença progride, começa a ser impossível esconder as alterações. A conversa
torna-se difícil, porque se esquece das palavras, as actividades do dia-a-dia
transformam-se em problemas complicados. Ocorrem alterações da personalidade
que, normalmente, são negativas, incluindo depressão, desconfiança, hostilidade
e mesmo agressividade. À medida que a doença avança, os sintomas vão-se
intensificando.
Por vezes, as pessoas não reconhecem estes sintomas como algo que está mal,
assumindo que faz parte do envelhecimento normal, evoluindo, assim, gradualmente
e permanecendo ignorados durante muito tempo. Desta forma, existem uma série de
sinais de aviso a que é fundamental estar atento para despistar precocemente
esta situação. É claro que algumas delas podem ser aplicadas a outras formas de
demência.
Perda de memória
São completamente normais os esquecimentos ocasionais, quer de nomes quer de
telefones, e que mais tarde vêm à lembrança. Mas um doente de Alzheimer esquece
as coisas com mais frequência e não se lembra delas mais tarde, principalmente
de factos mais recentes.
Dificuldade na execução de tarefas
Às vezes, as pessoas distraem-se de tal maneira que se esquecem de algo no
forno. Uma pessoa com doença de Alzheimer pode ser incapaz de preparar uma
refeição ou mesmo esquecer que já comeu.
Problemas na linguagem
É comum, quando se conversa com alguém, ter alguma dificuldade em encontrar a
palavra correcta. Um doente de Alzheimer não só pode esquecer as palavras mais
simples, como substituí-las por outras menos adequadas, tornando difícil uma
conversa compreensível.
Perda da noção do tempo e desorientação
É usual acontecer perder a noção do dia da semana ou do mês, ou até esquecer o
sítio para onde se vai. Mas, alguém com Alzheimer pode até perder-se na própria
rua e não conseguir voltar sozinho para casa.
Discernimento fraco ou diminuído
Quantas vezes não acontece uma pessoa ter uma infecção, ou mesmo um acidente e
provocar alguns ferimentos “feios”, e não procurar cuidados médicos?! No
entanto, uma pessoa com a doença de Alzheimer pode não reconhecer uma infecção
como algo de grave ou, então, vestir-se de forma desajustada, utilizando roupa
quente num dia de Verão.
Problemas com o pensamento abstracto
Pode ser difícil fazer as contas das despesas ou festejar um aniversário, mas um
doente de Alzheimer pode esquecer completamente o que são os números e o que
fazer com eles e pode nem compreender o que é um aniversário.
Trocar o lugar dos objectos
Qualquer um já arrumou as chaves ou o telemóvel fora do sítio normal e
esqueceu-se onde os pôs. Mas, alguém com a doença de Alzheimer pode pôr os
objectos num local descabido: um relógio de pulso no saleiro e um ferro de
engomar na arca frigorífica.
Alterações do humor e do comportamento
São normais os altos e baixos; uma pessoa fica triste ou mal humorada de vez em
quando. Mas, alguém com doença de Alzheimer pode apresentar alterações
repentinas de humor, desde a serenidade ao choro, sem qualquer razão para isso.
Alterações na personalidade
A personalidade das pessoas pode variar com a idade. No entanto, um doente de
Alzheimer pode mudar de forma total, tornando-se extremamente confuso,
desconfiado ou calado. Também pode apresentar apatia, medo ou um comportamento
inadequado.
Perda de iniciativa
É normal uma pessoa ficar cansada após o trabalho, mas depois recupera a
capacidade de iniciativa. Um doente de Alzheimer pode ficar muito passivo,
necessitando de estímulos e incentivos para participar nas actividades.
É fundamental estar atento a estes sinais! A pessoa que os apresentar deve
consultar o médico, a fim de ser submetida a um exame completo.
Relativamente ao tratamento, as opções que existem são limitadas. A meta do
tratamento inclui o alívio de alguns elementos psicossociais que causem stresse
e melhorar a saúde geral do indivíduo. Faz-se um tratamento sintomático, com o
uso de tranquilizantes, antidepressivos e neurolépticos (se houver agitação e
agressividade). Usam-se, também, nootrópicos, que podem melhorar as perturbações
da memória, da orientação, da concentração e do pensamento.
Actualmente, segundo as pesquisas, valorizam-se novos medicamentos como a
tacrina, que é um inibidor da acetilcolinesterase, e a nimodipina, um bloqueador
dos canais de cálcio. No entanto, estes fármacos retardam a evolução, mas não
curam.
| É fundamental uma consciencialização de que há meios para detectar a doença, cuidados inerentes, terapêuticas susceptíveis de retardar a evolução, de forma a melhorar a qualidade de vida, não só do doente mas também daqueles que lidam com ele diariamente. |
A doença de Alzheimer é uma morte em vida, algo que atinge de forma impiedosa o
ser humano, reduzindo-o a um estado de absoluta dependência. É extremamente
incapacitante, afecta várias funções básicas e exige uma atenção especial quando
há consciência de que não é um sinal da idade. Todas as alterações emocionais e
comportamentais que se verificam causam, muitas vezes, problemas nas relações
pessoais e sociais. É fundamental uma consciencialização de que há meios para
detectar a doença, cuidados inerentes, terapêuticas susceptíveis de retardar a
evolução, de forma a melhorar a qualidade de vida, não só do doente mas também
daqueles que lidam com ele diariamente. S&L
Bibliografia
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DOS FAMILIARES E AMIGOS DOS DOENTES DE ALZHEIMER –
Brochuras: “Será Doença de Alzheimer?”, “Diagnóstico” e “Reduzir o Stresse de
Quem Cuida do Doente”, adaptado sob licença de Alzheimer Society of Canada.
GATENS, Cindy; HÉBERT, A. René – Cognição e Padrões Comportamentais. In: HOEMAN,
Shirley P. – Enfermagem de Reabilitação – processo de aplicação, 2ª edição,
Loures: Lusociência, 2000.
HAMILTON, Gail P. – Assistência Médica ao Adulto Idoso. In: SMELTZER, Suzanne
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Médico-cirúrgica, 7ª edição, vol. 1, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A.,
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KALTENBACH, G. – A Prevenção do Envelhecimento Patológico, Servir, vol. Nº 49 –
Nº 5, 2001.
PEDRO, Dalila Maria S.; SANTOS, Luís Miguel R. - Doença de Alzheimer, Enfermagem
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Maria Elizabete Mota Veríssimo e
Rui Miguel Veríssimo de Oliveira
Enfermeiros Diplomados