Medicina / Setembro 2004

Imagine que um dia coloca o telemóvel no frigorífico ou a carteira no microondas; no dia seguinte sai de casa, perde-se na sua própria rua e apercebe-se que não sabe como voltar para casa. Ou que quer telefonar a alguém e que, além de se esquecer do número de telefone, não consegue decidir o que tem que fazer primeiro: se levantar o auscultador ou marcar o número. Consegue?! Provavelmente não; mas estas situações são assustadoramente reais. Enquadram-se numa pessoa que sofre de doença de Alzheimer.
Esta doença foi descoberta em 1906. Um neurologista alemão, após observar uma mulher de 51 anos de idade, encontrou sintomas que normalmente existiam em indivíduos idosos. Mais tarde, ao examinar o cérebro das utentes com esses sintomas, descobriu emaranhados de fibras de células nervosas. É, portanto, uma doença neurológica progressiva e irreversível, que afecta as células do cérebro, levando a uma diminuição do funcionamento intelectual. É a principal causa de demência – um conjunto de sintomas dos quais fazem parte a perda de memória, do discernimento e da razão, com alterações do humor e do comportamento.
É uma patologia que tem um início insidioso (quando os sintomas aparecem já a doença está instalada) e gradual, apresentando um declínio lento e regular. Tem maior frequência após os 65 anos, sendo a prevalência na ordem dos 5%, e de 20% depois dos 85 anos. A duração, em média, da evolução é de 8 a 10 anos e abrange cerca de 50 a 60% das demências. Pode aparecer aos 40 anos e a evolução é tanto mais rápida quanto mais jovem a idade de aparecimento. No nosso país, estima-se que existam, pelo menos diagnosticados, cerca de 70 000 pessoas com esta doença.
As causas desta demência são desconhecidas, apesar das várias teorias existentes. O exame das células cerebrais revela a existência dos já referidos emaranhados neurofibrilares e placas senis, sendo o único elemento

Implementar estas medidas vai ajudá-lo(a) a reduzir o sacrifício físico e emocional, porque você é a pessoa mais importante para a vida do doente de Alzheimer de quem cuida.

 que permite fazer um diagnóstico credível. No entanto, isto só é confirmado após a morte do indivíduo, por autópsia. As células mais afectadas são aquelas que utilizam o neurotransmissor acetilcolina, que participa de modo específico no processamento da memória.
Parece haver uma maior predisposição do aparecimento desta doença nas mulheres e nas pessoas de raça negra. Há, ainda, outros factores, tais como: a idade, hereditariedade, história de traumatismo cerebral grave. Através de estudos detectou-se a presença de maiores concentrações de alumínio nos cérebros de pessoas com a doença. Por isso, outro factor que se tem em conta é a alimentação (uso de utensílios de alumínio), o uso de desodorizantes (por libertação de alumínio) e o abuso de antiácidos. No entanto, ainda nada se provou e a presença de alumínio parece ser mais um resultado da demência do que uma causa.
Como não existe um teste de diagnóstico específico que permita afirmar se a pessoa sofre ou não de doença de Alzheimer, faz-se através de uma avaliação sistemática e por exclusão, eliminando outras causas possíveis. Apesar disto,

Viver com alguém que tem a doença de Alzheimer pode ser um desafio, que requer muito do seu tempo e energia. Existem algumas sugestões que podem aliviar o stresse.

- Aprenda o mais possível sobre a doença e estratégias de prestação de cuidados, para compreender como a doença afecta o ser humano, de forma a preparar-se melhor.
- Embora difícil, é importante ser realista quanto à doença e seus efeitos. A doença é progressiva e o doente vai piorando. Aceitar isto torna mais fácil a adaptação.
- Seja realista quanto a si próprio. Cuidar de alguém gasta tempo e energia, mas tem que estabelecer limites quanto ao que pode fazer e decidir o que é mais importante para si.
- Ao tratar de alguém, passa por uma mistura de sentimentos, que são normais. Ter sentimentos negativos não significa que não está a cuidar bem da pessoa. Reconheça que está a fazer o melhor.
- Partilhe os seus sentimentos com os outros. Fale daquilo que sente, procurando alguém com quem esteja à vontade.
- Procure ver o lado positivo das coisas e fazer com que cada dia seja importante. Verá que ainda há momentos que valem a pena.
- Cuide de si. Não ignore a sua saúde. Faça refeições adequadas, exercício regular e encontre maneiras de relaxar e repousar. Invista nas coisas que são importantes para si.
- Procure ver com humor algumas situações. Isso não faz com que a honestidade dos seus cuidados seja menor.
- Procure ajuda. Tem que compreender que não é possível tomar conta sozinho de um doente de Alzheimer. Defina o tipo de auxílio que precisa e deixe que os outros ajudem.
- Faça planos para o futuro, pois pode ajudar a diminuir o stresse.

Implementar estas medidas vai ajudá-lo(a) a reduzir o sacrifício físico e emocional, porque você é a pessoa mais importante para a vida do doente de Alzheimer de quem cuida.

quando os médicos fazem o diagnóstico “provável doença de Alzheimer”, acertam entre 80 a 90% das vezes.
Os sintomas variam muito. No início, a pessoa pode apresentar perda de memória, que é ocultada porque possui ainda uma boa função cognitiva. À medida que a doença progride, começa a ser impossível esconder as alterações. A conversa torna-se difícil, porque se esquece das palavras, as actividades do dia-a-dia transformam-se em problemas complicados. Ocorrem alterações da personalidade que, normalmente, são negativas, incluindo depressão, desconfiança, hostilidade e mesmo agressividade. À medida que a doença avança, os sintomas vão-se intensificando.
Por vezes, as pessoas não reconhecem estes sintomas como algo que está mal, assumindo que faz parte do envelhecimento normal, evoluindo, assim, gradualmente e permanecendo ignorados durante muito tempo. Desta forma, existem uma série de sinais de aviso a que é fundamental estar atento para despistar precocemente esta situação. É claro que algumas delas podem ser aplicadas a outras formas de demência.

Perda de memória
São completamente normais os esquecimentos ocasionais, quer de nomes quer de telefones, e que mais tarde vêm à lembrança. Mas um doente de Alzheimer esquece as coisas com mais frequência e não se lembra delas mais tarde, principalmente de factos mais recentes.

Dificuldade na execução de tarefas
Às vezes, as pessoas distraem-se de tal maneira que se esquecem de algo no forno. Uma pessoa com doença de Alzheimer pode ser incapaz de preparar uma refeição ou mesmo esquecer que já comeu.

Problemas na linguagem
É comum, quando se conversa com alguém, ter alguma dificuldade em encontrar a palavra correcta. Um doente de Alzheimer não só pode esquecer as palavras mais simples, como substituí-las por outras menos adequadas, tornando difícil uma conversa compreensível.

Perda da noção do tempo e desorientação
É usual acontecer perder a noção do dia da semana ou do mês, ou até esquecer o sítio para onde se vai. Mas, alguém com Alzheimer pode até perder-se na própria rua e não conseguir voltar sozinho para casa.

Discernimento fraco ou diminuído
Quantas vezes não acontece uma pessoa ter uma infecção, ou mesmo um acidente e provocar alguns ferimentos “feios”, e não procurar cuidados médicos?! No entanto, uma pessoa com a doença de Alzheimer pode não reconhecer uma infecção como algo de grave ou, então, vestir-se de forma desajustada, utilizando roupa quente num dia de Verão.

Problemas com o pensamento abstracto
Pode ser difícil fazer as contas das despesas ou festejar um aniversário, mas um doente de Alzheimer pode esquecer completamente o que são os números e o que fazer com eles e pode nem compreender o que é um aniversário.

Trocar o lugar dos objectos
Qualquer um já arrumou as chaves ou o telemóvel fora do sítio normal e esqueceu-se onde os pôs. Mas, alguém com a doença de Alzheimer pode pôr os objectos num local descabido: um relógio de pulso no saleiro e um ferro de engomar na arca frigorífica.

Alterações do humor e do comportamento
São normais os altos e baixos; uma pessoa fica triste ou mal humorada de vez em quando. Mas, alguém com doença de Alzheimer pode apresentar alterações repentinas de humor, desde a serenidade ao choro, sem qualquer razão para isso.

Alterações na personalidade
A personalidade das pessoas pode variar com a idade. No entanto, um doente de Alzheimer pode mudar de forma total, tornando-se extremamente confuso, desconfiado ou calado. Também pode apresentar apatia, medo ou um comportamento inadequado.

Perda de iniciativa
É normal uma pessoa ficar cansada após o trabalho, mas depois recupera a capacidade de iniciativa. Um doente de Alzheimer pode ficar muito passivo, necessitando de estímulos e incentivos para participar nas actividades.
É fundamental estar atento a estes sinais! A pessoa que os apresentar deve consultar o médico, a fim de ser submetida a um exame completo.
Relativamente ao tratamento, as opções que existem são limitadas. A meta do tratamento inclui o alívio de alguns elementos psicossociais que causem stresse e melhorar a saúde geral do indivíduo. Faz-se um tratamento sintomático, com o uso de tranquilizantes, antidepressivos e neurolépticos (se houver agitação e agressividade). Usam-se, também, nootrópicos, que podem melhorar as perturbações da memória, da orientação, da concentração e do pensamento.
Actualmente, segundo as pesquisas, valorizam-se novos medicamentos como a tacrina, que é um inibidor da acetilcolinesterase, e a nimodipina, um bloqueador dos canais de cálcio. No entanto, estes fármacos retardam a evolução, mas não curam.

É fundamental uma consciencialização de que há meios para detectar a doença, cuidados inerentes, terapêuticas susceptíveis de retardar a evolução, de forma a melhorar a qualidade de vida, não só do doente mas também daqueles que lidam com ele diariamente.

A doença de Alzheimer é uma morte em vida, algo que atinge de forma impiedosa o ser humano, reduzindo-o a um estado de absoluta dependência. É extremamente incapacitante, afecta várias funções básicas e exige uma atenção especial quando há consciência de que não é um sinal da idade. Todas as alterações emocionais e comportamentais que se verificam causam, muitas vezes, problemas nas relações pessoais e sociais. É fundamental uma consciencialização de que há meios para detectar a doença, cuidados inerentes, terapêuticas susceptíveis de retardar a evolução, de forma a melhorar a qualidade de vida, não só do doente mas também daqueles que lidam com ele diariamente. S&L


Bibliografia
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DOS FAMILIARES E AMIGOS DOS DOENTES DE ALZHEIMER – Brochuras: “Será Doença de Alzheimer?”, “Diagnóstico” e “Reduzir o Stresse de Quem Cuida do Doente”, adaptado sob licença de Alzheimer Society of Canada.
GATENS, Cindy; HÉBERT, A. René – Cognição e Padrões Comportamentais. In: HOEMAN, Shirley P. – Enfermagem de Reabilitação – processo de aplicação, 2ª edição, Loures: Lusociência, 2000.
HAMILTON, Gail P. – Assistência Médica ao Adulto Idoso. In: SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. – Brunner / Suddarth – Tratado de Enfermagem Médico-cirúrgica, 7ª edição, vol. 1, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A., 1994.
KALTENBACH, G. – A Prevenção do Envelhecimento Patológico, Servir, vol. Nº 49 – Nº 5, 2001.
PEDRO, Dalila Maria S.; SANTOS, Luís Miguel R. - Doença de Alzheimer, Enfermagem em Foco, Lisboa. Ano VII (27), Maio/Julho 1997
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Maria Elizabete Mota Veríssimo e
Rui Miguel Veríssimo de Oliveira
Enfermeiros Diplomados

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